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25 DE SETEMBRO: Por detrás do combatente há um outro combatente

Por admin

– Limited Milion trabalha com Alberto Chipande desde 1971

Alberto Chipande, o lendário guerrilheiro a quem a história da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) atribui a autoria do primeiro tiro da Luta Armada de Libertação Nacional, que culminou com a Independência Nacional, 10 anos ministro da Defesa Nacional, sob a chefia de Estado de Samora Machel, deputado nunca substituído das Assembleias Popular e da República e quadro incontornável do partido Frelimo, é um combatente que desde 1971 vive com um outro, seu companheiro quase anónimo.

Trata-se de um cidadão relativamente desconhecido, a quem o General deve muito respeito e gratidão, tal que tem o gosto de o apresentar a ilustres visitantes que recebe em sua casa, no bairro Maputo, vila autárquica de Mueda.

Chama-se Limited Milion, o combatente que desde o primeiro ano da década 70 está directamente ligado ao General Chipande, que por ocasião da passagem do aniversário do desencadeamento da Luta Armada de Libertação Nacional e Dia das Forças Armadas o domingo foi ao seu encontro para conhecer quem, afinal, está em todas as etapas da vida do General do Exército da República de Moçambique.

Limited Milion começa a contar a sua história a meio da caminhada, como nos aperceberemos adiante, com a vénia que lhe é característica, dispara, no entanto, sem aviso:

“Depois de ter andado a guarnecer Virgílio Mingas, comandante da Base Central, aqui perto, no distrito de Muidumbe, a seguir o chefe Polela, que era chefe de um destacamento, em 1971, veio ao interior o chefe Chipande, tendo sido escolhido para escoltá-lo, o que aconteceu até à Independência Nacional”.

Vieram-nos à memória nomes pouco falados na história da luta de libertação nacional. Por exemplo, Virgílio Mingas, um dos temíveis comandantes da Base Central, por isso não esquecido pelos combatentes nas ex-zonas libertadas nas entranhas do actual distrito de Muidumbe.

Em 22 de Maio de 1997, quando pela primeira vez ouvimos falar de Mingas, disseram-nos que então se encontrava na cidade da Beira e na quarta-feira da semana passada, fonte insuspeita deu-nos a informação de que se encontrava na cidade da Matola.

Por outro lado, ao referir-se a Daniel Polela fez-nos viajar à Missão de Nambude, distrito de Mocímboa da Praia, onde morreu em combate o herói nacional Tomás Nduda, no destacamento Inhambane, que era comandado por aquele.

Na verdade, segundo dados em nossa posse, que falam de Tomás Nduda, a 11 de Outubro de 1967 um grupo de combatentes da FRELIMO atacava e assaltava o posto de Diaka, que era visto como representando um obstáculo à progressão da luta de libertação nacional.

Este ataque vitorioso apresentou-se como um salto qualitativo, por haver aberto um corredor para novas regiões e um ensaio algo sucedido da combinação entre a infantaria, comandada por Tomás Nduda, e a artilharia, especialidade sob a direcção de Cipriano Saleça e Pedro Seguro.

Estes factos levaram a que Nduda fosse indicado chefe das operações daquele destacamento, cargo que exercia cumulativamente com o de adjunto-comandante do mesmo, que era chefiado ao mais alto nível por Daniel Polela, combatente de quem Limited Milion foi guarda-costas.

Deste modo, depois da vitória alcançada em Diaka, o passo seguinte era a Missão de Nambude, em Mocímboa da Praia, que o exército colonial havia, com o recrudescimento da luta armada, transformado em quartel, constituindo deste jeito um bloqueio à penetração dos combatentes da FRELIMO na região e a sua localização no centro da comunidade, usada como cinturão humano da tropa colonial.

A missão de atacar Nambude foi comandada, como dissemos, por Daniel Polela, a 23 de Março de 1968, pelas 04H30. A ordem de fogo foi dada por um chefe da artilharia de nome Chande. Tomás Nduda, cujo forte consistia no ataque e assalto violentos aos aquartelamentos, morre nas circunstâncias adiante descritas:

 “Levávamos canhões, morteiros e metralhadoras, portanto uma combinação entre a artilharia e a infantaria. Tomás Nduda chegou ao arame farpado, os combatentes cortaram-no e entraram no aquartelamento. Foram aos abrigos e encontraram-nos abandonados. Afinal, os inimigos estavam empoleirados nas mangueiras e dispararam para baixo. No entanto, as nossas forças guerrilheiras sempre avançaram. Um primeiro-cabo português de nome Fernando dos Santos Rosa foi capturado”, explicou Daniel Polela nas cerimónias da passagem dos 40 anos sobre a morte daquele patriota, em Março de 2008.

Crisanto Mitema, Matias Chata e mais um outro combatente cujo nome Daniel Polela não se lembrava e Nduda foram atingidos. Este último caiu sobre uma trincheira.

Na tentativa de recuperar os seus corpos, foram feridos mais dois combatentes, tendo sido os portugueses que os sepultaram, em Nambude, segundo explicara o homem que comandou o ataque àquela missão.

É esse homem, Daniel Polela, que também beneficiou dos préstimos de guarnição de Limited Milion, o nosso entrevistado por ocasião da passagem dos 52 anos do início da Luta Armada de Libertação Nacional e Dia das Forças Armadas de Moçambique. Polela faleceu há três anos, em Nampula, onde tinha fixado residência.

Limited quase que se ia perdendo no seu próprio percurso histórico, quando se lembra do seguinte pormenor:

“Desde Nachingwea, no período da Luta Armada de Libertação Nacional, com os meus camaradas, entre os quais Nanoma, estive sempre ligado à guarnição de altos responsáveis. Os ex-presidentes Joaquim Chissano e Armando Guebuza, mais o General Chipande, beneficiaram dos meus préstimos” e acrescenta:

Éramos nós que lavávamos e passávamos a ferro a roupa deles e quando viessem para o interior, acompanhávamo-los, principalmente nesta província de Cabo Delgado.

A cada passo que dávamos na conversa com esse combatente nos atonizava ante um percurso maravilhoso, em função dos nomes com os quais esteve directamente ligado durante o processo de libertação de Moçambique. Surpreendia-nos cada vez mais a sua estatura militante e humana. Pedimos que prosseguisse com os seus relatos, depois que começou a viver com Alberto Chipande, a quem chama simplesmente chefe:

“ O chefe levou-me para Maputo, guarnecendo-o como da escolta na Direcção de Segurança dos Responsáveis (DSR). A seguir dirigiu-me ao primeiro curso de guarnição, denominado 25 de Setembro, em Boane, no ano da Independência. Depois fui parar para a guarnição na cadeia de máxima segurança da Machava, conhecida por Brigada Operacional (BO)”.

Naquela penitenciária é “descoberto” pelo General Lagos Lidimo, então chefe do Estado-Maior General, que o devolve à DSR, de novo para a escolta de responsáveis.

Limited Milion cimentava assim a confiança de quase todos os grandes combatentes, até que apareceu a ideia de construir as casas dos hoje Generais Chipande e Lagos Lidimo, no distrito setentrional de Mueda, em Cabo Delgado, em plena guerra dos 16 anos.

O material de construção, maior parte do qual foi transportado a partir de Maputo, precisava de quem tendo dado provas de fidelidade o recebesse em segurança até que chegasse para a construção das casas das duas altas patentes do planalto. Finda a recepção, Limited recebeu ordens de ficar de vez em Mueda e acompanhar a construção dos edifícios.

“Estou a dizer que aqui onde estamos, antes destas casas, eu cá estive. Recebi todo o material que fez estas casas, com esse chefe aí”,enfatiza o nosso entrevistado, apontando para o fotográfico do gabinete da governadora que, afinal, também cumpriu ali o serviço militar.

O nosso interlocutor fixou-se em Mueda a controlar a casa de Alberto Chipande e, a espaços, a de Lagos Lidimo. Mesmo assim, não abdicou dos seus direitos e deveres de soldado do departamento de guarnição.

Considerou-se sempre soldado. Na verdade, nunca saiu da tropa. Por ocasião do Acordo Geral de Paz, 1992, em Roma, e no quadro da formação do novo exército, ficou desmobilizado pela ONUMOZ, a força transnacional formada pelas Nações Unidas, para a pacificação de Moçambique.

SINTO-ME BEM EM MUEDA

Perguntámos ao nosso entrevistado o que lhe terá dito o General Chipande, por alturas desse acontecimento histórico, tendo em conta que Mueda não era a sua terra de origem.

“Ele disse-me que estava desmobilizado, mas que era bom que continuasse a trabalhar ali com ele, já liberto das obrigações militares”.

Limited Milion é natural da província da Zambézia, distrito de Milange, aonde tem ido sempre que pode, desde a proclamação da Independência Nacional. Duas vezes casado em Mueda, onde vive com a sua família e não tem ideias que contrariem o seu actual domicílio.

“Mas em Maputo também tinha uma mulher. Quando recebi a missão de vir a Mueda ela recusou-se a vir comigo e assim acabou o casamento. Chegado aqui arranjei outra mulher que também ficou pelo caminho. Essa com quem estou é, na verdade, a terceira”.

Limited é filho do processo de libertação. Entrou na FRELIMO com 18 anos de idade, em 1968, a partir da sua terra natal. Três anos depois de ingressar no movimento libertador, segundo ele, foi descoberto pelo General Chipande.

Recebe regularmente a sua pensão, mas diz não ser “conforme, porque saí da tropa com a patente de capitão, devia receber 10.000,00 MT, acontece que mensalmente me chegam 7.000,00 MT, mais “alguma coisa” que recebo aqui por estar a trabalhar com o chefe”.

Não se pergunta a Limited se se sente bem em Mueda, sob o infalível risco de ouvir “não tenho problema, chefe”. Chefe é como ele trata as pessoas que entende pertencerem a um estatuto, ainda que teórico, acima dele.

Vive no bairro Maputo, na vila municipal e só vai à residência do General Chipande trabalhar. Os seus familiares, na terra de origem, em Milange, sabem da sua localização. Quando o entrevistámos, 7 de Agosto passado, acabava de receber a visita do seu sobrinho dali procedente.

É TÃO HUMILDE QUE NÃO SABE

QUE ESTÁ COMIGO DESDE 1968

– General Alberto Chipande

Na passada quarta-feira falámos com o General Alberto Chipande para confirmar alguns dados trazidos à tona por Limited Milion. Mostrou-se satisfeito por alguém ter-se lembrado dele e classificou-o como um homem muito humilde.

“Até ele não se apercebeu que desde a sua chegada na FRELIMO sempre esteve comigo. Antes de 1971 não entendeu que estava sob a minha direcção e era eu que o mandava para as tarefas de guarnição de altos responsáveis, quando estávamos a estudar o homem”,revelou-nos.

Diz Chipande que Limited Milion só contabiliza o tempo em que passou a viver exclusivamente com o General. Porém, concordou connosco quando dissemos que, afinal, a força e bravura de um combatente quanto ele estava escondida num homem anónimo.

“Não é a qualquer pessoa que se confia a tarefa de guarnecer responsáveis e, neste caso, ele passou quase toda a vida a ser confiado essas tarefas. O meu homem é um caso especial, mesmo assim, muito humilde. Ele devia ter dito que até guarneceu Samora, em Nachingwea”, disse-nos o General do Exército.

Fotos de Albino Caetano

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