Opinião

Um Papa conservador

Nenhum humano é perfeito e nem mesmo um Papa o é, pelo simples facto de ser mortal. O Papa anunciou que ia resignar e muito bem. Ele, Joseph Ratzinger, na sua falibilidade humana, vergado

e vulgarizado pela doença, demonstrou não ser um pequeno Deus nem representante deste, mas apenas expoente da Igreja Católica.

Num momento em que no Ocidente o declínio da fé religiosa é evidente, o agudizar da decadência moral e valores da família nas ruas da amargura, e com a crise do capitalismo num beco sem saída, este anúncio do Papa deixou as pessoas boquiabertas.

É efectivamente com um manifesto esgar de incredulidade no rosto, que os fiéis e os demais vão digerindo a informação. Enquanto isso levantam-se murmúrios e especulações nos corredores do poder religioso e político sobre a verdadeira razão da retirada; Fala-se em retirada estratégica de Bento XVI devido a cada vez maior influência do lóbi homosexual no interior do Vaticano, assim como devido a multiplicação de escândalos sexuais e financeiros.

 

O que se sabe é que devido aos vários interesses económicos sombrios, aparentemente instalados; neste momento vários jornais e revistas vão tomando partido por uns em detrimento de outros,… Enfim  e no meio de dicas e tricas  fica a igreja  a mercê da conclave que ira ditar  quem ira carregar a cruz.

 

 

Num momento em que quadro económico e financeiro europeu é de recessão, configura-se pouco animador e nalguns casos mesmo de risco, adensa o espectro de clivagem da esquerda contra a direita radical no governo insensível ao sofrimento humano.

 

Pobres desempregados, precariedade de vida, a igreja tem desafios sociais herdados inadiáveis, alguns dos quais reflexo da cartilha neoliberal, nas tintas pelos pobres, desempregados, proliferação da prostituição feminina e masculina; nas tintas pelo avolumar de doencas psicóticas, alcoolismo. Há cada vez mais gente a desistir de lutar por um prato de comida e a necessitar de esperança e conforto espiritual,.. Religiosamente falando multiplicam as seitas evangélicas, havendo cada vez menos fé na igreja católica que por causa dos escândalos vem alargando o núcleo de cépticos e agnósticos.

 

Sobre o Papa Joseph Ratzinger apenas posso dizer que se tratou sempre de um figura controversa, e ao anunciar  irá abandonar o barco, fá-lo da mesma forma controversa  tal como foi caracterizado o seu papado. Se o Papa  que para os católicos era uma espécie de representante do divino, com essa referência de fraqueza, deixou de sê-lo, mesmo perante a maioria dos seus apaniguados.

 

Mesmo assim o Papa Joseph Ratzinger nunca foi um Papa qualquer. Pareceu sempre uma espécie de guardião do conservadorismo; isto é zeloso defensor dos dogmas religiosos católicos, que queriam reafirmar a identidade católica  tradicional na essência e prática.

 

Nunca abandonou o estilo do homem que durante um quarto de século havia sido o ideólogo do Vaticano. Enquanto os conservadores batiam palmas para sua actuação, os liberais acusavam-no de atrasar as reformas e prejudicar o diálogo com muçulmanos judeus e outros cristãos.

Num mundo em mudanca em que escândalos sobre abusos sexuais foram caindo em catadupa no Vaticano, com o padres, bispo a serem acusados de pedofilia, o Papa foi ordenando que inquéritos fossem levados a cabo em vários países. Na Irlanda e um pouco por todo lado vários bispos tiveram de se demitir. Muitas vitimas consideraram os crimes como obra do Vaticano e quiseram levar o Vaticano ao tribunal internacional, mas o Papa defendeu-se, alegando que o vaticano não poderia pagar por  crimes cometidos por outras pessoas.

O legado de Joseph Ratzinger como Papa será de um homem intelectual, conservador nato. Como é apanágio de muitos antecessores também falava várias linguas, contudo é o debate ideológico contra correntes liberais que mais o caracterizam. Fez uma guerra contra o que denominou agnosticismo intolerante que predomina em diversos países; fez também longas críticas aos bispos brasileiros que defendiam a teologia da libertação que então se expandiu de norte a sul, de leste a oeste do Brasil. Teve ainda de enfrentar a onda liberal que pretende apoio à causa do casamento entre homossexuais e ordenamento de sacerdotes mulheres.

As convicções conservadoras às vezes impediam-no de enxergar para além da sua fronteira. No que diz respeito ao virus HIV/AIDS defendeu aquando da visita a África do Sul, que o uso de conservativos era causadora da propagação do vírus HIV/AIDS.

Às vezes, ironicamente, dava azo ao seu reacionarismo religioso; chegou a afirmar que o islamismo expandiu-se à custa da espada; Estas afirmações provocaram uma polvorosa no mundo muçulmano, tendo várias pessoas morrido como consequência das marchas de protesto provocadas das palavras do Papa.

Mas o Papa nunca condescendeu ante o capitalismo financeiro desregrado; o egoísmo; o enriquecimento ilícito; a pobreza; a proliferação do desemprego; desigualdades sociais e económicas; a prostituição e doenças psicóticas. Falou no desumanismo, da mentalidade do liberalismo económico e da erosão do estado social, bem como dos direitos e deveres sociais, considerando que o direito ao trabalho é um dos mais ameacados. 

Se esta decisão do Papa em se retirar poderá ser tida como exemplo para a sociedade civil, só Deus sabe. E apesar de os homens viverem entretidos em querer imitar Deus depois de imolá-lo é natural que as suas ambições e egoísmo apenas esbarrem nas limitações da saúde. Deve haver limite para tudo, mas neste caso talvez o limite de idade para um Papa seja mesmo a morte prematura do papado.

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