Opinião

UM OLHAR SOBRE A MINHA VELHA MAPUTO

“Olhei, e não havia quem me ajudasse, e admirei-me de não haver quem me sustivesse Is 63:5

Não importa o juízo ou ilações que possam ser tiradas pelos respeitados leitores e/ou por quem de dever, relativamente à “lucubração” de hoje, o certo é que as coisas não andam bem nestes 

últimos tempos na minha cidade. Todos sabemos disso. Maputo é a minha cidade. Ela é a cidade de cada um(a) de nós. Cada um de nós, sente-se dono(a) desta cidade, com direito a opinar. Para mim, é minha cidade por força das circunstâncias que determinam para eu permanecer cá, se calhar até ser surpreendido pela nossa irmã mais vela: a Mana Morte, pois ela (Morte), ultimamente tem estado a sondar por muito perto. Mas eu, acabei adoptando Maputo para ser a última cidade que me verá pela última vez com vida. Poderia muito bem pegar nas minhas trouxinhas, (dois pares de calças, duas camisas um par de sapatos – afinal quando cá cheguei vinha com uma mão a frente e outra atrás), e mandar-me de regresso para a minha Parvónia, onde as larvas aguardam com muita impaciência no lugar onde será a minha ultima morada, e onde a tranquilidade e segurança são palavras de Ordem. Mas não. Por enquanto e apesar de tudo, Maputo ainda me prende. É pois em Maputo, onde vivo e faço tudo. Ela é uma cidade grande, tem Estatuto de Província e é também capital deste pedaço de terra Africana designada por “Pérola do Indico”. Também é conhecida por “Cidade das Acácias”. E, é igualmente um Municípiocom um Governo eleito. Com uma área de 346,77 km² e concebida há mais de um século para albergar meia centena de colonos, hoje, a populaçãocentuplicou,(quase um milhão e meio de habitantes – 1 094 315para sermos mais exactos e conforme o Censo de 2007). Fundada pelos Portugueses como uma Feitoria em 1782, (Decreto Régio de 10 de Novembro de 1877) da Rainha D.Maria I de Portugal,(Maria Francisca Isabel Josefa Antónia Gertrudes Rita Joana de Bragança), que teve o Cognome de“A Piedosa ou A Pia”, Maputo hoje é uma das cidades importantes do Mundo, por Capital do nosso Pais. Os milhares de Citadinos Maputenses, (eu incluído), vivem distribuídos pelos Sete Bairros que compõem o Municipio/Provincia/Cidade, designadamente: KaMpfumo, Nlhamankulu, (que em abono dos naturais daqui devia se chamar Hlhamba va Kulu, ou seja onde toma banho gente adulta), KaMaxaquene, KaMavota, KaMubukwana, KaTembe, e KaNyaka. Todos nós que vivemos nesta Urbe, sabemos disto tudo que acabei de relatar. Ou pelo menos todo o citadino(a) com auto-estima, tem obrigação de sabê-lo. Ora do que se calhar muitos não tomam em conta e nem querem saber, é que esta cidade já está a rebentar perlas costuras, como se costuma dizer. Ultimamente Maputo, que devia caracterizar-se por ser “Bela e Segura”, qualquer um que habita nesta urbe, sabe que só tem a certeza de estar a sair da sua casa saudável, mas quanto ao resto do que lhe poderá acontecer fora da sua casa ao longo do dia, pertence aos Deuses. O perigo sempre está iminente. Não é nenhum exagero! O perigo pode vir de cima em forma de pedaços de um prédio em ruína, um objecto arremessado por morador engraçadinho do andar de cima, como pode vir do ramo duma árvore velha que cede à lei da gravidade. Há dias, um citadino que pensou ter encontrado uma boa guarita debaixo de uma frondosa Acácia para a sua viatura novinha e de alta gama, ali na “Julius Nyerere”, lá a estacionou. Seria a última vez que a viu bonita, porque logo após, a velha árvore por sua vez entendeu ter encontrado um encosto para um dos seus ramos por sobre a dita novinha viatura. Foi o que toda a gente viu. (A Televisão mostrou). A menos que o cidadão tenha assegurado a sua viatura contra todos os riscos, caso contrário, era uma vez um “BMW”! Ninguém lhe vai ressarcir do incidente. Os passeios na bermas das Ruas e Avenidas, também já não são confiáveis. Demasiadamente escaqueirados, cada morador faz remendos como pode, (ora em “Pavet” ora em blocos, ora em cimento queimado). Ontem mesmo cerca das Doze horas, testemunhei um triste “espectáculo”: uma vendedeira ambulante de amendoins, com a sua criancinha ao colo tropeçou num daqueles passeios esburacados junto da Faculdade de Direito na “Kennedy Kaunda”. A sua peneira com amendoim assado aproveitou para se escapulir das suas mãos. O produto espalhou-se, ela estatelou-se literalmente no”Pavet”, teve uma luxação no pé direito e a criança bateu com a testa e teve algumas escoriações. Na Rua que nasce defronte da Escola Primaria da COOP e desemboca na “Vladmir Lenine”, existe um Contentor para Resíduos Sólidos, vulgo “Contentor de Lixo”, que serve para os Bairros da COOP, de KaMaxaquene e da Polana Caniço. O “Lixo” é removido justamente as Doze horas, altura em que as crianças de manhã se revezam com as de tarde. Simplesmente triste! Já não falo do engarrafamento resultante da presença daquele camião aquela hora! Os cortes de Energia acontecem diariamente no mínimo três vezes. Em pouco menos de dois meses, fiquei sem um Congelador e um Televisor. Então, em que ficamos? O recém-falecido irmão do meu falecido pai, que me alojou em sua casa pela primeira vez nos finais da década Cinquenta quando cá cheguei, trabalhou na Câmara Municipal durante 20 anos. Sempre tirou o lixo (Fezes) dos Baldes nos Bairros de Hlambankulu e Xinyambaneni das Vinte de um dia às Quatro do outro, numa boa, sem incomodar ninguém. As pouquíssimas Ruas sem buraco (não conheço nenhuma), estão assaltadas de areia. A disputa entre peões e automobilistas por quem deve passar primeiro, está ao rubro. Os chamados “Chapeiros” continuam a abraçar-se amorosamente com as Policias (Municipal e PT), como se de Compadres se tratassem. A Poluição Sonora proveniente daqueles mesmos “Chapeiros”, das Barracas dos “Senta-Baixo” e/ou dos Vendedores de Electrodomésticos, continuam a condimentar a vida do desgraçado Citadino. Os “Cinzentinhos” vão prosperamente humilhando o pacato Citadino por pouco, por tudo e por nada. As Camionetas de Caixa Aberta multiplicam-se dia após dia apinhadíssimas a transportar gente como se de sacos de batata ou gado se tratasse. As diversas pontes espalhadas pelos Bairros que deveriam servir para facilitar a vida dos citadinos continuam a ser “Elefantes Brancos”. As filas de “mendigos” às sextas-feiras apesar de diversos apelos continuam de vento em popa. Os dementes, esses continuam cada vez em número maior a disputar as Latas de Lixo com os Cães Vadios. Tudo isto e mais alguma coisa, acontece na minha Velha Maputo. Afinal, para onde vamos, ou melhor para onde nos levam!? Não há quem ponha cobro a esta balbúrdia? Ou acham tudo isso Normal? Ninguém me sustem!?

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos Relacionados

Veja Também
Fechar
Botão Voltar ao Topo