Opinião

SOBRE MANUAL PARA PROVOCAR CALAMIDADES

Quando miúdo e acompanhava o meu pai e avô aos currais onde se punha o gado da família, deles aprendi que devíamos sempre pensar por onde devia passar 

a água e o vento quando se construísse um curral, ou palhota, ou casa. Correr não é chegar, Mais vale prevenir que remediar, Nada a fazer depois de entornado o leite, fazem parte de ditados ditos corriqueiros que exprimem uma sabedoria acumulada pelos povos ao longo dos tempos. Nada aprender disso denota pelo menos visão extremamente curta de quem devia melhor saber. Neste momento queixarmo-nos da comichão depois de nos havermos esfregado com feijão macaco.

Sinto-me forçado a falar de Maputo e um pouco do país face ao que aconteceu e às tragédias que ainda ocorrem, com perda de vidas, bens e demais calamidades que vamos sofrendo.

Pertenço a uma associação de moradores, todos pagam as quotas, satisfizeram as joias e participam nas reuniões, assembleias-gerais e onde se discute e aprova o relatório, as contas verificadas pelo Conselho-Fiscal. Às nossas reuniões convidamos as mais diversas entidades, empresas públicas como a ANE e os CFM, entidades municipais, do governo da cidade e do distrito onde habitamos. Uns vêm ou fazem-se representar, sempre ocupados mesmo que o convite anteceda de 30 dias o evento. O que menos liga, o município e o distrito, o governo da cidade demonstra regularidade na presença, tal como a PRM. A César o que é de César.

Repetiu-se uma calamidade que já se havia vivido no distrito urbano. Desde 2008 que nas reuniões e exposições se alertou às diversas entidades competentes os perigos em que vivia a população, as suas vidas e bens, as infraestruturas das vias de acesso e dos CFM.Dizem os livros santos que há quem tenha ouvidos e não ouça, olhos e não vêm.

O que se previu ocorreu. Houve mortos, destruições de bens e sérios danos nas ruas e na via-férrea.

Não precisamos que nos deem os pêsames, não desejamos que com os olhos compungidos visitem as nossas desgraças e sobretudo não queremos ouvir as mesmas promessas que nos repetem regularmente. Basta!

Na cidade de Maputo prevê-se construir uma ponte para a Catembe que custará com juros, mil milhões de dólares, uma circular que orça os trezentos e cinquenta milhões de dólares. Porque nos dizem que não há dinheiro?

Na outra margem de Maputo, na Catembe até à Ponta do Ouro vive menos gente que no Distrito Municipal de Kha Mavota. Como se definem as prioridades? Começa-se pelo luxo e ostentação quando não se resolve o essencial? Nas reparações ou manutenção e os CFM, EDM e ÁGUAS fazem parte da excepção, trabalha-se menos que na função pública mais preguiçosa e incompetente, começa-se pelas 08h00 ou mais tarde, para-se para o almoço e, às 15h00, todos despegaram, aos sábados e domingos ninguém os vê, mesmo neste momento de calamidade. Tapam-se os buracos e buracões com terra, sem pedra, sem asfalto, sem cimento, para que na primeira chuva tudo se arraste, entupindo as valas, criando viveiros de malária e cólera. Ninguém me contou, vejo!

Na minha terra natal, como em todos os anos pelas chuvas, vários distritos ficam isolados. Alguém que decide se preocupa, pesem os apelos de habitantes, autoridades administrativas, políticas, governadores até? Isto repete-se cada ano. Fazem-se palácios para ministérios, tribunais, etc. Mas como chegamos a quem de direito se os nossos acessos estão cortados?

Construiu-se nas barreiras de Maputo, vedando a passagem das águas pluviais e subterrâneas, ceifaram-se os eucaliptos na baixa, que absorviam a água, liquidou-se a FACIM a favor do imobiliário, multiplicaram-se ministérios com vista para o mar obstruindo o escoamento das águas. Qual a surpresa então das inundações nessas zonas? Espanto sim, que não ocorressem mais desgraças.

Ao fim de muito tempo identifiquei as causas essenciais de muitas calamidades, que deveriam figurar num Manual para Provocar Calamidades:

1.    A incúria e negligência de centros de decisão;

2.    A indiferença às recomendações e avisos de técnicos competentes e experimentados;

3.    A ganância de promotores mais buscando o lucro que o respeito devido às leis e forças da natureza;

4.    A procura de comissões nas reabilitações, pelo que se despreza a manutenção básica e permanente.

Aqui já se puniu com prisão os variados autores dos desmandos. Agora, em boa democracia e mercado libertário, tendemos a promover e eleger os prevaricadores.

Precisamos de respeito pelos interesses do povo e não dos especuladores, mesmo se com roupagens de investidores.

Abraço todos que lutarem contra os manuais para provocar calamidades,

Sérgio Vieira

P.S. Para se liquidar regimes progressistas no Afeganistão, na antiga Jugoslávia, os regimes laicos do Iraque e Síria, conter a independência argelina na política dos hidrocarbonetos, muitos no ocidente apoiaram o surgimento e consolidação de fundamentalistas. As mortandades causadas pelos ditos danos colaterais, as humilhações sofridas aumentaram o desejo de revolta e vingança.

Em África na História recente, inaugurou-se a infâmia com o assassinato de Lumumba, a que não estiveram alheios os interesses do Ocidente, entre outros do governo e família real da Bélgica. A ganância das petrolíferas e o fanatismo do Vaticano suscitaram a guerra do Biafra, a busca dos diamantes levou aos massacres na Libéria e Serra Leoa.

Hoje o Mali. Mercenários da Líbia acorreram para o saque do país.

Quando chegará o dia em que no continente e no mundo aprendemos a não brincar a joguinhos de interesses curtos, baptizados de primaveras, quando se tratam de verdadeiros invernos glaciares?

Abraço todos que lutam contra os mais diversos fundamentalismos, especialmente das transnacionais e os brincalhões dos jogos estratégicos do Primeiro Mundo,  

SV

 

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