“Ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem da escuridade luz, e da luz escuridade…” – Isaías 5:20
Finalmente e embora de forma “entaramelada”, mas já se vislumbra a “luz no fundo do túnel”, quanto à recuperação ou redefinição da nossa auto-estima e individualidade pessoal. Tal como disse um dia Confúcio, (Kung-fu-tzu), sábio pensador e filósofo chinês do Período das Primaveras e Outonos, (século VI a.C.): “É melhor acender uma pequena vela do que maldizer a escuridão”. E Confúcio disse mais: “desde que se eduque o delinquente, desde que lhe façam ver os seus erros, ele será necessariamente levado a emendar-se”. É que, durante muitos anos, nós, moçambicana/os, mantivemo-nos irreconhecíveis, enrolados em amarras de princípios, que de nada nos aumentava a nossa auto-estima, enxovalhando-nos e humilhando-nos brutalmente pelo simples facto de não estarmos vestidos à maneira dos nossos antigos “patrões”, numa África em que as temperaturas rondam muitas vezes os quase cinquentas graus centígrados. Muitos de nós estamos lembrados que, logo após a nossa preciosa Independência Nacional, as moçambicanas só vestidas de “maxi-saia”, e os moçambicanos, só quando trajados de calça e balalaica à maneira “gola da china”, é que eram verdadeiros revolucionários. O tempo,essa coisa que, quando é ruim, demora a passar; e quando é boa, passa num instante, elerolou e tudo caiu em desuso, cada um podendo apresentar-se como verdadeiros herdeiros de “Adão e Eva”, daí presenciarmos as nossas mulheres e filhas de tanguinhas e ou com saias exageradamente apertadas, com rachas lascivamente provocantes e escandalosas colocando as partes íntimas à exposição de quem tem olhos para ver. Aos homens, foi-lhes decretado para os eventos oficiais apresentarem-se de fato e gravata, não importa a qualidade do tecido e a época do ano, modelo esse de vestir lançado na França por volta do século XVII, por membros da elite que adoptavam no seu modo de vestir inspiração eminentemente militar. Ou seja, dentro ou fora do país, tirando a língua portuguesa, impossível seria identificar, “a priori”, um/a moçambicano/a através da indumentária, muitas vezes incómoda: fatos e gravatas. Assim como as malcheirosas perucas e cumpridas mechas, a gravata também nunca teve qualquer função prática para a nossa identidade e ou auto-estima, mas mesmo assim o seu uso espalhou-se rapidamente. Mas finalmente já começou a vislumbrar-se uma “luz no fundo do túnel”, no que tange à nossa auto-estima e personalidade individual e colectivamente. Não sei de quem foi a iniciativa, mas de uma noite para o dia, começa-se a notar que, nas recepções ao Chefe de Estado durante as suas visitas de trabalho nos distritos, momentos esses na prática em que ele convive com o Povo no “Moçambique real”, óptima oportunidade para o Povo extravasar a sua alegria, vendo-se livre de quaisquer amarras, agora veste-se de modo espaventosamente desinibida, numa verdadeira festa à moda africana e[…],os dirigentes também já não são obrigados a asfixiarem o seu pescoço com uma tira de tecido, estreita e longa, presa por um nó na parte da frente chamada gravata, muito menos “mumificarem” os corpos com incómodos fatos e vestidos “Pierre Cardam”. A kapulana, esse traje tradicional, que une Moçambique do Rovuma ao Maputo, e que amarrada ou vestido com o jeito do povo moçambicano, ao mundo encanta. Acredito que com este andar, a breve trecho, akapulana será um dos nossos importantes meios de afirmação política, social, religiosa e cultural. Viva a kapulana!
Kandiyane Wa Matuva Kandiya
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