Opinião

Professor Rosário: a tentativa de legitimar o ilegítimo

Acompanhei a recente entrevista do Professor Lourenço de Rosário ao Savana, na qual defende que as exigências da Renamo são legítimas. 

Diz o Professor que “são quatro aspectos exigidos pelo Presidente da Renamo… desde 1999 que a Renamo vem exigindo a despartidarização do Estado ou da Administração Pública, o fim das discriminações nas Forças Armadas, a revisão do pacote eleitoral e o fim dos boicotes das suas actividades políticas, mas que alguns sectores radicais da Frelimo procuram minimizá-las.”

Quando o Professor deveria problematizar estas questões para depois aferir(mos) a justeza ou não das pretensões da Renamo não o faz, deixando apenas transparecer a ideia da justeza das exigências da Renamo e que a Frelimo as  ignora.  

Acontece que o Professor tem obrigação e acrescida pelo peso das suas intervenções, de fundamentar os seus pontos de vistas, de modo a que possamos ser ou não convencidos pelo seu raciocínio, até porque das vezes que concordamos com ele foi porque fez e bem este exercício que hoje falta. Nesta entrevista talvez por força de emoção e de alinhamento, esqueceu-se de que era académico, reitor de uma universidade e presidente do MARP.

Eu não sou académico mas um observador atento e, por isso perguntar não faz mal, só me educa:

1.     Como conjuga o Professor Rosário a exigência da despartidarização do Estado feita pela Renamo, com a exigência do mesmo partido de ter órgãos eleitorais dirigidos por membros de partidos políticos?

2.      Como explica a discriminação nas Forças Armadas, quando a Renamo escondeu parte dos seus homens, não os entregando ao Exército em 1993/4 e que agora descobrimos que era afinal para usá-los para ameaças e chantagem. Recorda-se quantas vezes o Presidente Chissano convidou a Renamo para entregar homens para a polícia e Dhlakama foi negando e negando até estes homens envelhecerem? 

3.     E outra vez a velha pergunta sobre a ilegitimidade que o Professor Rosário legitima: se a Renamo insiste na despartidarização do Estado porquê será que insiste na composição das Forças Armadas a partir das cores partidárias? Ou o Professor Rosário não vai ouvir os recados do General Cambona, vice-Chefe do Estado Maior, vindo das fileiras da Renamo ou do General Ngonhamo, antes dele? Aliás, a FRELIMO deve mesmo ter poderes mágicos para garantir que só membros da OJM são recrutados para as Forças Armadas desde 1992!!

4.     Quanto ao boicote das actividades da Renamo só nos podemos remeter às palavras do próprio Prof. Rosário, longe de Maputo e num jornal que talvez poderia pensar que não chega a Maputo. Estas são as suas palavras: “os discursos dos partidos da oposição em Moçambique são apenas de ataque e de queixas. Não são discursos visionários [o presidente do Movimento Democrático de Moçambique (MDM), Daviz Simango] “apareceu em público com um discurso intelectualista e urbano [mas este acabou não conseguindo nas eleições gerais passadas “bater” o líder da Renamo, Afonso Dhlakama.] “Isso significa, portanto, que o eleitorado moçambicano ainda não acredita no Daviz Simango [a Renamo, que poderia constituir alternativa] “enfrenta problemas internos de liderança”.

5.     O Professor Rosário é membro da FRELIMO, participante no X Congresso e membro da brigada da FRELIMO para a Zambézia. Não creio que o seu trabalho político na Zambézia seja o de assessorar a Renamo, MDN ou outro partido para crescer e desalojar o que designa de radicais da Frelimo. O seu trabalho é pela e para a Frelimo. É ou não é legítimo Professor Rosário?

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