Opinião

PELA MILESIMA VEZ SOBRE AS CERIMÓNIAS FÚNEBRES

“…Segue-me, e deixa aos mortos o sepultarem seus próprios mortos…” Mt 8:22

Infelizmente, não consegui evitar mais este desabafo. Por acaso a cerimónia teve inicio a hora que constava nos jornais: Nove horas, com o enterro previsto para as Onze horas no já encerrado, e vezes sem conta profanado velho Cemitério de Lhanguene. Ainda faltavam três mensagens por se ler, quando o Ministro que dirigia a cerimónia decidiu interromper, pois faltavam quarenta minutos para as onze, já que no Cemitério iria se reabrir a Urna para os que não puderam estar presentes na Capela. Sempre me pergunto porque temos de ver a ultima imagem do morto! Existe uma crença de que ninguém pode ser enterrado ao meio dia, senão logo a seguir alguém da família morre!? Por isso, os enterros terminam antes daquela hora e recomeçam as treze. Tratava-se da despedida de alguém que vivera oito décadas, e que muito deu de si por este Pais, pai de Oito filhos, Vinte e quatro netos, Cinco bisnetos e três trinetos. Apesar de todos os filhos serem naturais desta cidade e todos trabalharem e morarem nesta Urbe, cada um deles havia preparado uma mensagem individual e cada um publicara um anúncio no Jornal na página de necrologia. Os netos, esses tinham elaborado uma mensagem comum. No ataúde, inerte e indiferente a tudo, com a expressão do rosto indefinida, o defunto molhava o imaculado lençol que o envolvia com uma espécie de “suor”, resultante do descongelamento, já que o corpo estivera conservado na gaveta da Casa Mortuária passavam três dias. A temperatura prevista para aquele dia era de (37ºC), porém, dentro da minúscula Capela, inicialmente concebida para pouco menos de meia centena de almas todos estavam ensopados pressentindo-se que devia ultrapassar uns 40ºC. Umas poucas senhoras agitavam Leques na tentativa de “afugentar” a canícula. À saída, ouvi o desabafo de uma inocente criança de cerca de sete anos, para sua mãe: “mãe, hoje o calor é tanto que até o Vovô (…) estava a transpirar muito ali no Caixão”. Durante a longa e fastidiosa cerimonia além da voz dos que liam mensagens, as crianças, sentindo-se abafadas, não suportavam tanto tempo de pé no mesmo lugar e choravam desconsoladamente reclamando pela mamadeira, com as pobres mães tentando mandá-las calar. O ambiente era extremamente incómodo e saturado. Uma senhora demonstrando estado avançado de gravidez, (provavelmente filha, nora ou neta do defunto), sentada naquele duro banco da capela, chamava atenção de muita gente pela forma como se expunha, pernas exageradamente abertas e vestido puxado até muito acima dos joelhos deixando as coxas escancaradas. Via-se que ela fazia um esforço titânico para não desmaiar, no meio daquele inferno de mais de duas centenas de pessoas a disputarem o mesmo oxigénio naquele exíguo espaço! Eu havia jurado a mim mesmo que jamais voltaria a falar sobre cerimónias fúnebres. Naturalmente que sinto-me constrangidíssimo sempre que me vejo na contingência não só de participar mesmo de abordar um assunto melindroso quanto é uma cerimónia de despedida a um ente querido que nos deixa magoados neste Mundo, para nos esperar no “além”. Não só pela delicadeza do assunto, quanto pelas inúmeras vezes que o abordei. Na verdade, ultimamente morre-se como se costuma-se dizer na gíria popular, “a torto e a direito”. Há uns anos atrás, antes do aparecimento do famigerado HIV, era raro registar-se um óbito durante o dia (solar), a menos que se tratasse de um acidente, assassinato ou suicídio. Mas hoje em dia, a Morte passou a dominar todos os Lares. Nessa época morria-se de velhice. Então, as famílias do defunto, caprichavam na roupa de luto, usando desde vestidos com costura de variada gama, aos fatos, gravatas, braçadeiras pretas e laços masculinos. Agora que a morte vulgarizou-se, pouco gente perde tempo com esse tipo de indumentária, pois quase diariamente perde-se uma pessoa conhecida e querida. Morre-se de manhã, ao meio dia e à noite. Morre-se em qualquer idade, por qualquer motivo. Morre-se até de medo de morrer. O medo da morte já faz com que muita gente perdaa alegria de viver.Finalmente, muitos infortunados tomaram a consciência e eliminaram os inúmeros dias que obrigavam o ajuntamento de pessoas na desgraçada família do finado. (7º. 8º. 30º. dias, 6º.mês, por aí adiante). Mas em contrapartida, ficaram os longos sermões que transformam os velórios em verdadeiros suplícios para os que neles participam. São, em minha opinião lamentáveis e longas reprimendas, que nem aos vivos, muito menos ao falecido aproveitam. Por seu turno temos os “mensageiros” com declarações apimentadas de elogios exagerados e ridículos a respeito do finado, como: “ele deixa um vazio difícil de ser preenchido”! Simplesmente ridículo pois logo nos dias subsequentes começam os assédios a(o) viúva(o) ou ao seu lugar no serviço. Que tal se nessas cerimonias se passasse a apresentar-se única mensagem simples com: onome completo, a alcunha se a tiver,lugar de nascimento, os lugares onde viveu e outros dados que deverãoser confirmados antecipadamente pela família, para que não haja desinformações desagradáveis por contraditória como infelizmente uma vez ouvimos numa dessas cerimonias. Refiro-me a casos em que um homem morre ou falece solteiro, para depois surgir do seio da multidão um seu colega ou “amigo da onça” apresentando uma mensagem com um final do género: “deixa duas viúvas e oito órfãos”. Aliás, muitas das mensagens são pura falácia. Se por acaso o falecido pudesse “acordar” e desmentir, muitos fugiriam dali. Recordo-me de um caso que se deu na Polónia. Um aposentadofoi declarado morto pelos médicos após sofrer um enfarto. Horas depois, quando o coveiro se preparava para fechar o caixão, miraculosamente, o velhinho ressuscitou.Aviúva pedirapara retirar o relógio do pulso do defunto. Assim que o Coveirocolocou a mão no braço do idoso, notou algo estranho.O velho agarrou o braço do funcionário e ergueu-se e sentou-se no caixão sorridente e bem vivo disposto para regressar a casa. Deixo o resto da historia para a imaginação dos leitores, mas, por favor, não nos castiguem!

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