Opinião

Operação combate à fome

Em 2019 ouvi e li uma notícia do encontro que o Conselho Municipal de Maputo teve com as associações de vendedores da cidade para, entre outras coisas, em conjunto e consensualmente encontrar formas para que eles possam continuar a desenvolver as suas actividades, sem perturbar a organização e o desenvolvimento da urbe. Fiquei boquiaberto ao saber que, só na capital do país, existem mais de 80 mil vendedores informais, vulgo vendedores de rua, dos quais mais de metade são jovens, força de trabalho activa que na cidade procura vida melhor e fácil. Multipliquemos o número dos vendedores informais existentes em Maputo com outros tantos que abandonaram as suas zonas de origem e encontram-se deambulando pelas diversas cidades do nosso país, e veremos quão grande e grave é a existência deste exército de homens e mulheres que muito bem poderia estar nas suas zonas de origem, trabalhando a terra para de lá retirar os alimentos que muita falta nos fazem. Essa força activa da nossa sociedade que, após abandonar as zonas rurais e apinhar-se nas cidades, aumenta nas nossas urbes a delinquência e a pobreza urbana que vai aumentando a cada ano que passa, apesar de todos os esforços nesse sentido desenvolvidos pelo Governo.

A pobreza urbana que se regista hoje nas nossas cidades e que preocupa sobremaneira as entidades governamentais é resultado, todos sabemos, da inexistência, nos distritos, de postos de trabalho que possam albergar as centenas de jovens e adultos em empregos formais. É resultado do mau hábito que temos de ser funcionários do Estado. Se esse Estado não nos emprega, não podemos ser agricultores. Continuamos com a percepção errada de que o trabalho do camponês não é digno e com ele não podemos criar riqueza, porque não consideramos a agricultura um trabalho. Quantas vezes, em diversas zonas do país, conversando com jovens ou adultos disseram-me que não trabalham, não têm emprego, mas trabalham nas suas machambas, empregando muitas vezes outros jovens e adultos. É preciso, não sei como, desenvolver acções para inverter esta situação e fazer com que o êxodo de jovens seja das cidades para os distritos, nossos pólos de desenvolvimento, e não o contrário. Também torna-se necessário, no âmbito da aplicação do Fundo de Desenvolvimento de Iniciativas Locais, os vulgos 7 milhões, que cada distrito mostre as suas potencialidades, e seja um instrumento para criar empresas e postos de trabalho, nos diversos ramos de actividade. O mesmo deve ser feito nos distritos urbanos, pois li e ouvi que também eles recebem o Fundo de Iniciativa Local (FIL) para financiar o surgimento de novos postos de trabalho.

No combate que agora travamos para sair da pobreza absoluta, impõe-se uma nova “operação-produção” com outra roupagem, outros métodos e outros incentivos. “Operação-produção” sem a “operação” humilhante e revoltante de “tira-camisa”. Chamem-lhe o que quiserem: “Regresso às zonas de origem”; “operação trabalho no campo”; “operação-produção”; “volta ao campo”; “operação combate à fome”. Adjectivem-lhe ou dêem-lhe o slogan que quiserem. Mas a verdade é uma: o Governo tem de encontrar uma forma para fazer regressar ao campo, ao distrito “nosso pólo de desenvolvimento”, o exército de desempregados que deambulam pelas cidades, principalmente a cidade de Maputo e outras capitais provinciais.  Leia mais…

Por António Barros

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