Por Carlos Uqueio
Há situações em missão de trabalho que revelam mais sobre nós do que qualquer relatório. Em Doha vivi uma dessas. A cobertura estava quase fechada, tudo sob controlo, até que o computador do Manhique, colega da TVM e daqueles profissionais completos que fazem tudo, decidiu falhar no pior momento. Travava, desligava-se sozinho e ‘recusava’ enviar o material para Maputo. Não havia explicação lógica, sobretudo porque o equipamento funcionara perfeitamente desde o primeiro dia.
Tentou várias vezes e nada. Acabou por pedir o meu computador. Passei-lhe sem pensar. O problema repetiu-se. Ali percebemos que estávamos a lidar com algo que ultrapassava a simples teimosia de uma máquina. Era uma barreira total.
A noite foi-se estendendo e nós ali, presos ao mesmo ponto. Quando já não havia mais nenhum recurso técnico à mão, sugeri que orasse. Não era dramatização nem superstição. Conhecendo o Manhique, sabia que aquilo fazia parte do seu modo de enfrentar situações limite. Ele aceitou e começou a proferir algumas expressões rápidas, típicas de oração, que enchem o ambiente de fervor: “labarassô”, “mantere-bê”, “urabaxéia”, “oratibá” e outras que soam estranhas para quem não está habituado, mas que para ele Leia mais…

