Mais uma vez os meus colegas que escrevem o futebol, incluindo alguns dirigentes, até treinadores de equipas da nossa fina-flor da modalidade-rainha, no meu país, continuam a não perceber com palavras e actos de que o futebol é o momento.
Li num jornal, logo na primeira jornada da actual temporada, de que o Chingale ia jogar com a UP de Lichinga, em que a primeira era favorita frente à novel equipa daquela província mais a norte do nosso país. Ri-me! E ri-me mais, depois dos 90 minutos.
Já na segunda jornada, o treinador da ENH, João Chissano, falando à Rádio Moçambique, disse que ia a Maputo jogar com o Ferroviário de Maputo, um candidato ao título. Voltei a rir!
Acontece que, já na terceira jornada, as palavras, favorito ou candidato, estão sempre presentes no vocabulário dos colegas que escrevem futebol, dos dirigentes, influenciando assim os jogadores e a opinião pública.
Deste modo pretendem dizer que o facto de o Ferroviário de Maputo ter sido campeão, em 1982, 1989, 1996, 1997, 1999, 2002, 2005, 2008, 2009 e 2015, só por isso, é candidato em 2017 a levantar o apetecível canecão. Não se contabiliza o tempo, a partir do qual se faz o esforço de os ferroviários se gerirem em moldes semi-empresariais ou empresariais.
Pretende-se afirmar que se o Maxaquene sagrou-se campeão, em 1984, 1985, 1986, 2003 e 2012, já é elegível para em 2017 voltar a sê-lo. Evita-se, por assim dizer, contar a história do que era esse clube em tais temporadas, de que vivia claramente do dinheiro de todos, por via das Linhas Aéreas de Moçambique e dos Aeroportos.
Voluntaria ou involuntariamente, está-se a deixar consumir a ideia de que como o Costa do Sol foi campeão em 1979, 1980, 1991, 1992, 1993, 1994, 2000, 2001 e 2007, prontos, vale-lhe o título que não conquista há 12 anos. Não se quer aprofundar o modelo do “nacional” reinante em alguns destes anos, nem o dinheiro em bruto da EDM que consumia.
Insiste-se na ideia de que, se em 1977, 1978, 1983, 1988, 1995 e 2006 o Desportivo de Maputo, ainda que esteja a militar nos distritos, foi campeão, continua favorito nos tempos que correm. Põem-se de lado as Obras Públicas e Habitação que sustentava.
Não importa entender em que medida a Liga Desportiva (a Muçulmana) chegou a ser mais-mais, em 2010, 2011, 2013 e 2014, ainda que tenha sido muito polémico. Nem que havia uma outra equipa com nome religioso, com domicílio na Matola, que acabou positivamente falindo. Atlético!
Quando se recrutava para o serviço militar, também por ser bom futebolista, tivemos o Matchedje, que ficou campeão nacional nos anos 1987 e 1990, assim como, por outras razões, incluindo das respectivas direcções, já tivemos o Textáfrica (o primeiro pós-independência), o Têxtil do Pungóe, (também fabril), quando as respectivas fábricas funcionavam. Idem, aspas, a Maragra que em 1981 chamávamos “distribuidora de pontos”, o Cessel do Luabo, na Zambézia.
Talvez, a um outro nível, chamar para aqui a Riopele e a Texlom, em Maputo, pelas mesmas razoes, bem assim tivemos a Texmoque, em Nampula. São poucos clubes que resistiram sem se encostarem às empresas. Mas, atenção: com dirigentes “doentes” do desporto.
Quando foram desmamados e começou a caminhada de os dirigentes se servirem dos clubes, morreram ou foram mortos os não sérios, incluindo o Namutequelia, que era o rei do Norte, para, já em 2004, dar lugar ao Ferroviário local.
Agora, como se advinha um candidato ao título à primeira jornada, é a discussão à qual os jornalistas e dirigentes desportivos não se deviam meter. Mesmo havendo os ferroviários de todo o lado (incluindo da Beira), as UDSs, as ENHs, os chibutos, etc.
O futebol é o momento. Candidatos são todos. Ou não?

