Opinião

ESGANARELO, MÉDICO À FORÇA OU DE QUANDO OS MÉDICOS VIRAM MERCENÁRIOS

“Eu sou o bom pastor; o bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas. Mas o mercenário, que não é pastor, de quem não são as ovelhas, vê vir o lobo, e deixa as ovelhas, e foge;” João 10:11-12

 

A segunda semana deste ano iniciou com a histórica e polémica greve dos médicos, mobilizados pela AMM (Associação Médica de Moçambique). Um amigo meu bem falante da língua de Camões define a greve como: “conluio de pessoas que se ligam para fazer cessar o trabalho e que se recusam a trabalhar, enquanto lhes não atendem certas reclamações”. Naturalmente a greve dos médicos é um assunto que mexe com todos, principalmente o “Zé Povinho”, sem posses. Sendo a greve um direito consagrado na Constituição deste País, não obstante, os médicos que têm vínculo com a Função Pública, ao aderirem a essa manifestação, entrarão em rota de colisão com o instrumento através do qual assumiram os seus contratos, pois, de acordo com o mesmo (Lei 14/2009 de 17 de Março, que aprova o Estatuto Geral dos Funcionários e Agentes de Estado), nenhum funcionário ou agente do Estado deve aderir a tal tipo de manifestação. Com efeito, imagine-se se os providenciadores de comida (MINAG), os enfermeiros, os professores, os polícias, os coveiros, enfim, todos esses que constituem a pedra basilar para o dia-a-dia deste país, mas cujos salários são tão magros quanto o são os seus beneficiários comparados com os dos médicos, então o País pararia. Como consequência, o País não experimentaria nenhum desenvolvimento. Não nego nem ponho em causa a legitimidade das suas reivindicações, mas também não posso ignorar que para se ser médico não é qualquer “Madgembene” que se candidata. Torna-se desejável que se tenha a necessária vocação. E a palavra Vocação vem do verbo no Latim “vocare” (chama?). E adaptada à língua de Camões, VOCAÇÃO é: “acto pelo qual a Providência predestina toda a criatura de um fim determinado”. Assim, Vocação significa chamamento. É uma disposição natural para um estado, por exemplo inclinação para o sacerdócio ou para a vida religiosa. Muitos daqueles que cursam Medicina são predestinados, isto é, têm no seu ofício quase um sacerdócio. Ninguém pode ser médico por simples desejo de ganhar dinheiro. Por mercenarismo ou por coerção como aconteceu com o coitado do Esganarelo. MOLIÊRE, o mais ilustre dos poetas cómicos franceses, actor, empresário e autor dramaturgo no tempo de Luís XIV, conta nalguma das suas vastas obras uma intitulada “O médico à força”, a história dum desgraçado lenhador de seu nome Esganarelo que acabou sendo forçado a desempenhar o papel de médico. À força de chibatadas. Segundo Moliêre, Esganarelo era um reles e inofensivo servo da Gleba, sem forma nem formosura, personificação de um funâmbulo. A sua constituição física desengoçada era motivo de escárnio por qualquer um que o visse. O simples movimento de caminhar provocava risos. Incubando vingança como todos os oprimidos, acabava descarregando as suas angústias na sua mulher espancando-a por tudo, por pouco e por nada. Para o sustento de si e sua modesta família recorria aos seus bíceps rachando lenha. Deu-se que, na Corte no meio de guloseimada, a rainha acabou engolindo uma espinha que lhe atravessou a garganta. Convocados todos os médicos e curandeiros do Reino, nenhum conseguiu remover a maldita. Eis que como forma de vingança, Martine, mulher de Esganarelo, apresentou-se perante o Rei argumentando que o marido, apesar de bêbado e preguiçoso, era, no entanto, um médico e mágico, mas que só aceitaria tratar Sua Alteza Rainha à custa dumas vergastadas. Arrastado, até à Corte, o pobre Esganarelo agitava-se de balde  na tentativa de se ver livre dos seus verdugos. O simples espectáculo do homem amedrontado provocou na rainha uma gargalhada que, de imediato, desalojou a maldita espinha para fora da garganta. O pobre do Esganarelo ganhou fama de médico mágico do Reino. Até podia ser, pois, por definição, um médico é aquele que trata determinado enfermo. Hoje por hoje, o que se assiste em muitos médicos é uma viragem de direcção no que tange aos valores humanos, exactamente quando se anunciam solenemente os direitos invioláveis do ser humano, quando se afirma publicamente o valor da vida, esse mesmo direito à vida é negado e calcado pelos próprios médicos, exactamente nos momentos preciosos da vida, o nascer e o morrer. É o materialismo exacerbado que conduz à vida  voltada exclusivamente para os gozos e bens materiais. É o Hedonismo, doutrina que considera que o prazer individual e imediato é o único bem possível, princípio e fim da vida. Ao fim e ao cabo é o Mercenarismo, espírito interceiro que empurra uma pessoa a se fazer por dinheiro, que trabalha ou serve mediante soldada ou estipêndio. Portanto, é uma pessoa interceira, hávida de lucro venal. Afinal, o Mercenário não é necessariamente uma pessoa má, simplesmente é uma pessoa que se deixa corromper ou peitar por dinheiro. Um médico que abandona uma parturiente na sala de operações dum Hospital Público, justamente na hora em que ela necessita de uma cesariana e tal médico vai apanhar latas vazias de cerveja na praia do Miramar ou atender tal desgraçada parturiente na sua clínica privada, esse médico não andará muito distante de um Mercenário. Também estará de mãos dadas com aqueles que esfregam as mãos de contente pela venda de uma urna. Já que perguntar não ofende, será que os médicos grevistas descobriram haver cabimento orçamental e alguém do Ministério das Finanças está a sonegar essa informação? Não sendo assim, a terem de prolongar com a greve, na senda das limpezas, em vez da praia, deveriam limpar também as campas do Cemitério de Hlanguene. O local precisa, pois, apesar de aquele de Marracuene ter sido inaugurado, no Hlanguene repousam ancestrais de muitos dos grevistas. E, finalmente, atenção, jovens médicos! Não se deixem atrair pela política. Respondam ao vosso nobre chamamento. Pena é que não conheceram o meu saudoso Presidente Samora!

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