Opinião

ESCOMBROS NA CIDADE DE MAPUTO: VERDADEIRAS ASSOMBRAÇ0ES!

“…assombrem-se eles, e não me assombre eu;…” Jeremias 17:18

Seja-me permitido antes começar por endereçar as minhas felicitações aos meus conterrâneos directos e indirectos de INHARRIME, pela comemoração ontem dia 09 (Nove) de mais um aniversário da elevação à categoria de VILA, da Sede do Distrito (Phwelelane). A hi thumeni, di tiko dathu di naya masoni ngu ku kula! Voltando a Cidade das Acácias, ontem ao passar próximo dum dos muitos escombros cá da Urbe, não é que veio-me na memória a lembrança da dona do ex-edifício, a senhora Safira Ananias da Selva Ngoveni, (não Silva), mais conhecida por “A Senhora dos Gatos”, por conviver com mais de Sessenta (60) Gatos, e que desde que ela partiu para a eternidade, a casa ficou abandonada e assombrada. Mulher excêntrica e enigmática, tinha a pele muito branca, um olho azul e outro verde, e, os únicos sinais que a conferiam a identidade Afro, eram os lábios grossos e carapinha crespa onde um pente travava uma verdadeira batalha para passar, tendo de recorrer a indispensável “banga” para alisá-lo! Além de animais de estimação, corriam rumores de que, também ela servia imbatíveis iguarias a partir da carne de Gato. Especulava-se igualmente que, elaconversava diariamente com cada um deles. Vivia sozinha e sem família. Um dia, a Rainha das Prestamistas, a “Dona Morte”, bateu-lhe a porta, exigindo a devolução da sua alma. Finada, no seu diário, “Testamentou” que o único herdeiro dos seus parcos haveres seria o seu sobrinho, filho da sua única irmã também já falecida. Que, o imóvel onde ela morara havia mais de meio século com os seus animais, fosse sua eterna morada, devendo ser sepultada de cócoras no seu quarto, imitando um gato sentado. (Um parêntesis para referir que este desejo aparentemente insólito de ser enterrada na própria casa, não seria original. Em Ouro Preto por exemplo, uma cidade construída no Século XVIII no Estado de Minas Gerais, (Brasil), existem mais de 50 Catedrais todas incluindo os respectivos Adros serviam também de Cemitérios. Contaram-me lá que, durante aquele Século, as igrejas de São Paulo eram uma visão do inferno. Nelas se enterravam os mortos, sem caixão, muitas vezes em covas tão rasas que era comum pisar nalgum osso, pois alguns templos tinham chão de terra batida, sem pavimento. O cheiro era insuportável e o santuário virava foco de doenças. Quase não havia cadeiras. Pobres das beatas que rezavam ajoelhadas no chão, o que já devia valer para pagar os pecados). Fechemos o parêntesis e voltemos a casa da “Senhora dos Gatos”. No dia seguinte ao seu falecimento, todos os gatos tinham desaparecido, à excepção de um gatarão branco, único que trazia presa uma coleira preta no pescoço com o nome “LIFU”. Durante o seu curto velório diz-se que o Gato ficou grudado à múmia da finada, já que no testamento deixou bem vincado o desejo de nunca ser enterrada dentro duma urna. Satisfeitas todas formalidades inerentes, o rústico edifício de cinco compartimentos foi encerrando e abandonado no meio da cidade. Hoje o mesmo faz parte dos muitos escombros da Urbe e os vizinhos dizem que de dia, não se vê nenhuma alma, (nem os marginais se atrevem a penetrá-lo), porém, todas as noites, os felinos lá regressam para chorar a sua dona cantando a famosa “Quinta Sinfonia” de Beethoven que, segundo estudos recentes de cientistas Brasileiros, pode a “Quinta Sinfonia” de Beethoven, ajudar a curar alguns cancros. Um “Viva!” aos escombros da “Senhora dos Gatos”! Não só!

Kandiyane Wa Matuva Kandiya
nyangatane@gmail.com

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