“… a morte e a vida estão no poder da língua…” (Pv 18:21) – “… pelo que o que fala língua estranha ore para que a possa interpretar…” – 1Cor 14:13
Sendo hoje Domingo de Páscoa, importante celebração da igreja cristã em homenagem à ressurreição de Jesus Cristo, desejo por isso festas felizes para todos os cristãos. Hoje trago um assunto tanto ou quanto delicado: a da dupla aculturação que o “povo txopi” sofreu. Com efeito, no passado dia 8 do corrente mês, a Sociedade Bíblica de Moçambique (SBM) lançou, como é seu apanágio, na vila municipal de Quissico, sede do distrito de Zavala, a primeira edição da “Bhíblia yo Sawuleka”, em txi txopi, língua falada na região que se estende ao longo da costa aproximadamente entre os distritos de Xai-Xai, na província de Gaza, e de Inharrime, na província de Inhambane, e, no interior, abrange todo o distrito de Mandlakazi (as antigas missões franciscanas de “São Benedito dos Muchopes” – Mangunze, “Menino Jesus” – Chidenguele, “Nossa Senhora de Lurdes” – Chongoene) tudo isso na província de Gaza e Missão de “Santo António” – Mavila, localidade de Zandamela, e todo o resto do distrito de Zavala. Cobre todo o distrito de Inharrime, algumas localidades dos distritos de Panda, Homoine e Massinga, na província de Inhambane. De acordo com Leonor Correia de Matos, então primeira assistente do Instituto de Investigação Científica de Moçambique, que trabalhou entre Janeiro de 1971 e Dezembro de 1973, na sua obra intitulada “Origens do Povo Chope, Segundo a Tradição Oral”, a região acima referida, lê-se na obra, chegou a ser conhecida por “Chopilândia” e à população da mesma de “va chope”, devido ao facto de arremessarem flechas com grandes arcos – ku txopa – contra as investidas dos invasores angunes. Inexplicavelmente e contra a corrente dos acontecimentos, quando os missionários norte-americanos chegaram à província de Inhambane em 1885 e assentaram arraiais em Inharrime (Inkomeni e Inhamachafo) e Cambine (ler a história da Missão Metodista em Moçambique), colocaram de lado todas as línguas faladas na região (incluída a txi txopi), não obstante a vasta extensão do território daquela, e impuseram como única língua de comunicação e disseminação da “Boa Nova” a xitswa, através da chamada “Bíblia Go Basa”. Foi um duro golpe para o aguerrido “povo txopi” e não só, que teve de sofrer dupla aculturação: aprender forçosamente duas línguas estranhas – português e xitswa – em simultâneo. Nos finais da década sessenta, um missionário católico, de seu nome João Crisóstomo Borges, então padre superior da Missão de Santo António de Mavila (Zavala), tentou reaver a língua txi txopi ao conceber aquilo a que chamou de “Vocabulário da Língua Chope”, tendo encontrado forte resistência por parte do governo de então que defendia o princípio de Salazar segundo o qual “Os pretos não precisam estudar mais do que o suficiente para entender a língua portuguesa, de modo a poderem acatar as ordens dos seus patrões. As suas línguas cafreais são uma amálgama de dialectos. São línguas de cães”. Hoje, embora eu possa experimentar uma certa alegria por finalmente poder ter uma bíblia escrita numa das variantes da minha língua materna, (existem, no mínimo, três variantes: Txi Khambane, Txi Gwamba e Txi Lambwe), não obstante, a sua aplicação prática não se afigura fácil, pois, passadas mais de quatro gerações de va txopi, e tendo em conta que uma certa língua é um fenómeno em constante evolução, obedecendo a regras gramaticais, poucos serão os que conseguirão ler e compreender “Bhíblia yo Sawuleka”, na sua plenitude. Ademais, considerando que os pastores (quase todos os das Igrejas Metodistas e não só) foram e continuam sendo formados em xitswa nas escolas bíblicas, dificilmente conseguirão trabalhar com “Bhíblia yo Sawuleka”. Sou obrigado a admitir que, desta vez, “Deus deu nozes a quem não tem dentes”, porque, sem a base gramatical, repito, vai ser difícil ler e compreender a mensagem em txi txopi. Da leitura à fala vai um fosso. Eis “o meu assunto”, como diz o outro!
Kandiyane Wa Matuva Kandiya

