Opinião

Cada macaco no seu galho

Legislação em Moçambique, temos de sobra, o que falta é o respectivo cumprimento. E mais: algum realismo, racionalidade e até patriotismo. É assim em diversas áreas e o desporto não escapa à regra.

Vem isto a propósito do desfasamento ou “desgoverno” por onde sobrevive o nosso desporto em que, das intenções – leia-se da legislação – à prática, a distância é abissal.

Vejamos:

Em tempos o Governo definiu as condições básicas para um clube participar na alta competição. Elas existem, estão escritas, de forma a evitar que alguém acorde, crie um clube e depois desapareça sem deixar rasto.

Para se evitar este “pára-quedismo”, impõe-se um conjunto de condições que vão desde campos, sede, estatutos, sócios e por aí em diante.

Mas como estas premissas não são em regra cumpridas, por interesses momentâneos, carolice ou mesmo excibicionismo, as situações mais bizarras vão acontecendo, até mesmo no futebol, que é o desporto-rei.

Vejamos: alguém se lembra do que é feito do Wan Pone, um clube que ostentava o nome do seu proprietário e que se “escafedeu” da mesma forma que surgiu? Pouco mais tarde, fomos brindados com o Atlético Muçulmano, que contratou estrelas do pontapé na bola, inclusive o treinador Arnaldo Salvado, mas assim que o seu dono se cansou, vendeu o campo e pôs um ponto final à colectividade que até tomou parte no Moçambola.

 

REPENSAR…

COM PATRIOTISMO

A essência da criação de um clube, tem a ver com questões associativistas, em regra com bases regionais. Exemplos são mais do que muitos, pelo mundo fora: Manchester, Real Madrid, FC do Porto. Marselha, Chelsea e por aí em diante.

Mas há casos de grandes empresas, que criam tradição e investem a sério e de forma duradoira nos seus trabalhadores, primeiro na recreação e mais tarde na alta competição. São dois os objectivos: difundir o gosto pela saudável prática desportiva e tornar a organização mais conhecida, pelos melhores motivos.

Exemplos paradigmáticos entre nós, são os Ferroviários. Lá fora, os Bayern´s, que provêm da farmacêutica Bayer.

Mas nestes casos, criam-se clubes fora das empresas, autónomos e com certa independência, no que toca à direcção e não só.

 

PARADOXO

Entre nós, existe um paradoxo. Clubes com história e tradição, que produziram estrelas de renome, entregues à sua sorte. Honra e glória para o Maxaquene e Costa do Sol, que em boa hora conseguiram unir o útil ao agradável. Isto é: o seu rico historial foi ajudado a preservar por empresas, sem que as colectividades perderem a sua identidade.

Do outro lado, uma moda parece estar a pegar: colectividades com história como o 1.º de Maio, Atlético, e mesmo Desportivo, vão passando para um plano secundário, dando lugar, totalmente a despropósito, ao surgimento de clubes como a Autoridade Tributária, Migração e a HCB do Songo, entidades que sendo “de todos nós” não

se deveriam “imiscuir” na aposta na competição que não é sua vocação, investindo na movimentação recreativa dos seus trabalhadores e preocupando-se em exclusivo com as actividades para as quais foram criadas.

Esta asserção faz-me recordar uma observação, feito no seu característico tom carregado de ironia, do saudoso poeta José Craveirinha. Dizia ele:

– Ó amigo Caldeira: agora a Migração, ao invés de cuidar das fronteiras, já joga futebol? E em Tete, surgiu o clube da Justiça? Quer dizer que eu estou sujeito a entrar em campo e “driblar” um juiz?

Com efeito, pensando em fazer publicidade directa, por vezes com recurso ao dinheiro dos nossos impostos, cai-se no ridículo de ter empresas a desviarem as suas atenções para um campo que, claramente, não é o seu.

E cá para nós, que ninguém nos ouve: não acho graça saber que no voleibol ou noutra modalidade, estou a ser representado além-fronteiras, por exemplo, pela Autoridade Tributária. E se algum estrangeiro me perguntar a origem, a história e essência desse clube, certamente me vou engasgar na resposta! 

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