Opinião

As Três Filhas

Esta é uma quase estória da guerra e da morte dos nossos dias. Do tempo dos nossos filhos, aqueles que nunca deveriam saber de sangue e de morte…esta é a estória das três guerras, filhas da morte.

Quando Dlhakama chegou a Satungira (do ciSena/Matewe "Nsathu" = Nossa;  "Ndjíra" caminho, via, estrada) "Nossa via, nosso caminho, nossa estrada" ido de Quelimane do Sal (Kaliman) onde o franzino Edil de camisa azul às riscas procurou uni-lo ao transviado Raul Domingos.
Como sempre, Dlhakama, o filho do régulo da povoação de Mangunde,  Chibabava,  não disse o que pensava e excepcionalmente pensou no que dizer e não disse nada. Chegado a Satungira, no sopé da serra da Gorongosa,  pediu uma cadeira, sentou-se à sombra, descalçou e pediu uma bacia de água para lavar as mãos. O filho do chefe inspirou duas baforadas do ar da montanha e se sentiu em casa. Sentou-se sobre o enorme filão que dizem descansar debaixo daquela terra.
Nos dias que se seguiram a este ritual, simples nuvens e gentes estranhas vieram e saíram daquela sombra, nem por isso frondosa. De dia sentava, Dlhakama com uns velhos que saíam dos povoados vizinhos, e a pouco e pouco de povoados mais distantes, até o pai lhe visitou. À noite falava o mesmo, outras línguas, português entremeado com ciSena, CiNdau e a acalmia da noite deixava algumas palavras escaparem para ouvidos de fora: armas, dinheiro, poder, guerra, morrer, comida.
Os ouvidos da noite, saíram para outros povoados, chamaram os seus irmãos, passaram a novidade: o cuefe mandou chamar! E os homens e mulheres, as mulheres e filhos dos homens que morreram vieram, juntaram-se e sentaram-se à espera das ordens de Satungira.
A Guerra Filha

Os homens, mulheres e filhos dos que morreram sentaram-se dias e dias, ficaram com fome, e assustaram os que viviam perto das árvores onde se sentavam. Aqueles chamaram os outros que mandame. Os que mandam disseram aos homens com fome para casa. Como ir para casa com fome? Sem nada nas mãos?
Os homens e as mulheres e os filhos dos que morreram, com fome não foram para casa, esperaram pela noite para matar a fome e que se encontrasse no seu caminho. Foi o que aconteceu. Assim nasceu a guerra e daquela o medo de todos, a filha da mãe, filha da guerra das barrigas abertas, dos narizes e orelhas cortadas, dos corpos pilados, das mulheres estupradas da chuva de sangue sobre a terra.
Esta é a guerra filha, filha de uma mãe estúpida e esfomeada.
A Guerra do Oportunismo

Em muitos sítios, galhos e árvores, desceram os símios espertos, que se aproveitaram do cheiro da pólvora para distribuir opiniões, dar razão, agitar o homem sentado e Satungira e "enquadrar" as suas reclamações no "contexto democrático" do país.
"É preciso dividir a riqueza!!!", como se a riqueza fosse para usar hoje, comer e beber sem pensar no futuro, como se aquele tivesse morrido sem antes nascer. "O país é de todos!!!" Como se alguém tivesse sido tirado da cama porque estava a mais neste imenso país ou como se o país tivesse a obrigação de gostar de todos, o país gosta daqueles que o trabalham, que o cantam e o acarinham, não pode gostar de quem o mata e o enche de sangue e fala mal dela.
A Guerra da Fome

Entretanto os homens, a meio do cheiro da pólvora, do cantar sinistro das armas, do sibilar frio do aço os homens e as mulheres e os filhos dos que morreram continuam esfomeados, e as suas almas mais pobres e atormentadas almas pelos espíritos dos que mataram durante os anos da estranha guerra, uma guerra de morte para trazer a paz? Nunca se viu isso.  A morte traz a morte, é ali que a filha é igual à mãe, vai trazer a morte e não a paz, para aquelas atormentadas almas a guerra é uma guerra da comida para matar a sua fome. Disparam para poder comer, não comem para poder disparar, embora passem a noite a fugir, acordam com fome e continuarão a disparar até que o seu prato e encha de comida e os seus filhos possam ir para a escola e serem normais, nem filhos de guerra alguma e muito menos irmãos de fome nenhuma.
É preciso afastar o manto da guerra, tirar aquele senhor, dono da guerra, que está à sombra da nem tanto frondosa árvore, descalço, de bacia ao lado e a ensaiar novas formas de morte. É preciso soltar os homens, as mulheres e os filhos daqueles que morreram das suas tenebrosas asas, é preciso semear as sementes e colher comida ao invés semear balas e colher a morte e esta é uma tarefa de todos os que vivem dentro desta terra…

Rafael Shikani

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