Opinião

A Voz dos Desapropriados

O que nos separa do ocidente é a franqueza com que nós os africanos nos posicionamos perante a vida na sociedade e política. Enquanto para nós o princípio da cooperação tem como

 perspectiva o bem-estar da comunidade e sociedade em geral, o ocidente pensa na cooperação com forma de dominação. Quando no século VII os árabes ao descer o Índico procuravam apenas alargar a zona comercial e difundir a religião, os europeus, mal chegaram, a intenção era outra, e lá ficaram por mais de 500 anos.

É verdade que economicamente uns nasceram grandes, outros pequenos, mas na nova ordem económica mundial o pequeno pode crescer, e o suposto grande regredir.

Às vezes pode ser uma questão circunstancial. A causa do infortúnio actual dos africanos ou melhor do subdesenvolvimento africano não é acidental mas ocidental. Para se entender o fenómeno de desigualdade entre a África e o ocidente tem de se estar a par da história. Factores de dominação estiveram na origem, a partir dos séculos XV e XVI, da estagnação e desenvolvimento cultural e económico africano. Muitos reinos, juntamente com as culturas, foram destruídos à espada do ocidente até a sua capitulação.

De um ponto de vista económico, para o ocidente a escravidão foi uma forma eficiente de acumulação primitiva,contudo para os africanos  foi de uma violência irreparável que se reflecte até aos dias de hoje. Parte de actual contexto socioeconómico de miséria e exclusão é consequência desse factor ligado à história. Quando o presidente Armando Guebuza se refere à erradicação da pobreza como prioridade da sua agenda política, refere-se a essa missão histórica patriótica de romper com o legado gerado do colonialismo.

Ao longo de séculos, enquanto a Europa e a América iam crescendo economicamente à custa da África e dos africanos, os africanos viam as suas comunidades e sociedades desintegrarem-se e a sua riqueza roubada; enquanto o ocidente ia refinado um tipo de sociedade moderna, dotados de  uma elite e uma classe média identificada, a África e a sociedade africana estagnavam; enquanto o ocidente criava uma indústria respeitável à custa do trabalho forçado e do modo de produção colonialista os africanos resistiam para nao morrer; enquanto os ocidentais produziam infra-estruturas económicas, formavam técnicos, engenheiros, médicos, arquitectos, advogados e outros quadros à custa da exploração humana africana, Moçambique, por exemplo, aquando da independência tinha 90 por cento de analfabetos.

38 anos depois,  Moçambique independente tem vindo a formar quadros a um ritmo  de todo satisfatório, contudo para que sejam satisfeitas as exigências  do desenvolvimento humano o caminho é ainda longo.

Moçambique coopera com todas as nações, desde que dai haja vantagens recíprocas.

 A natureza das relações internacionais é ditada da imposição de interesses bilaterais.

O país continua necessitado de investimento, as empresas nacionais também a necessitarem de capital financeiro em sectores produtivos para se tornarem mais competitivas, assim como para criação de postos de trabalho.

Povos e países cooperam e quando isso acontece o mundo fica mais pequeno. Mas, atenção que a cooperação não significa submissão. Moçambique nasceu da luta armada de libertação, com a Frelimo no papel dirigente. Já a Renamo, não pode dizer o mesmo.

Se a Renamo acha redutor lembra-lhes a sua origem e natureza, como instrumento de interesses político estratégicos estrangeiros dentro de Moçambique, então que dizer do presente? Ontem e hoje continua refém da missão de desestabilizar a democracia moçambicana, como parte da agenda de servir interesses obscuros estrangeiros. Mudaram os tempos mas a retórica e os objectivos mantêm-se religiosamente os mesmos.

Em Novembro veremos de novo os moçambicanos usufruir do seu direito civil e votar nas autarquias. A democracia nacional não vive nas ruas da amargura e a esta altura do campeonato não pode ser desvinculada da vida dos moçambicanos; nem da função pedagógica cultural que permite alicerçar  valores  que acreditamos os mais adequados ao nosso modo de viver em sociedade.

O que difere o partido Frelimo da oposição política é que a Frelimo é um partido vocacionado para o poder, com implantação nacional, enquanto os outros como a Renamo ou MDM não passam de intenções regionais. Para se afirmarem abusam do regionalismo doutrinário, para daí extrapolarem a sua visão étnica a um plano mais vasto e dessa forma condicionar a opção  do eleitor. Perante este quadro redutor, não se vislumbra a curto e a longo prazo a existência de alternância de poder nem alternativa política em relação ao partido Frelimo.

O surgimento de uma burguesia nacional moçambicana saída das privatizações tem o dedo do presidente Armando Guebuza. Era necessário ter-se um modelo económico sustentado a uma conjuntura política em que o empreendedorismo deveria funcionar como o factor promotor do desenvolvimento.

A oposição política apenas reconhece os efeitos funestos da globalização económica e financeira na qualidade de vida, quando lhe interessa. Na narrativa da Renamo se existe pobreza, ou desemprego é culpa do governo, mas nem sempre o que parece é.

Nós moçambicanos devolvemos o ónus da responsabilidade ao colonialismo português e à própria Renamo.

 

Ser moçambicano, preto e com bom nível de vida era raríssimo em Moçambique. Esse quadro passou a ser habitual, e se na verdade a existência de pobreza parece associada ao facto de alguns viverem mais confortavelmente, nos centros urbanos quase todos têm uma televisão, e entendem que no mundo global, o facto de uns não terem mais posses, nem é sempre culpa dos que têm.

 Independentemente das discrepâncias sociais ainda existentes na sociedade, o conceito de unidade deve nos tornar indestrutíveis. A nação moçambicana não se esgota no estereótipo regional que reclama essa identidade para si; os recursos naturais regionais são pertença dos moçambicanos.

Não somos filhos do acaso, mas da luta de libertação nacional. Nada nos foi garantido gratuitamente, pelo contrário, vários de nós ficaram pelo caminho para que pudéssemos erguer a bandeira que nos identifica como pátria e Nação do Rovuma ao Maputo, do Zumbo ao Índico.

O ocidente vem se gloriando com afirmações, como aquela que diz que graças às estruturas deixadas pelo colonialismo só assim a África pôde entrar no mundo da civilização. Pergunto como poderia o colonialismo fazer algo em benefício de pretos?

Quando a União Europeia diz que financia alguns projectos em Moçambique, e são vários, fá-lo para relançar as empresas europeias no mercado moçambicano. Os concursos públicos foram desenhados à medida das empresas de países membros da CEE.

Sejamos realistas. Quem ficou a ganhar foram as empresa daqueles países e respectivos técnicos, além de outros amigos que vão sendo contratados,  e claro está, a União europeia e os bancos a suportam. Moçambique fica com as infra-estruturas e a ter de pagar e bem e com juros altíssimos.

Países como o nosso, a viver em plena estabilidade democrática e com os recursos extractivos energéticos que possui, além de uma costa marítima enorme com praias banhadas de um Índico morno, servem de chamariz a qualquer potencial investidor e goza de crédito de qualquer instituição financeira.

A criação de um fundo financeiro de cera de 50 mil milhões de euros pelos países de economia emergente, denominados  Brics,  Brasil, Rússia, África do Sul, Índia e China ,  de um banco de desenvolvimento  alternativo ao FMI  e ao Banco Mundial e já agora da União europeia, para financiamento a construção de infra-estruturas é um ponto de partida e chegada. Com efeito, o pressuposto concertado enquadra-se dentro da estratégia de desenvolvimento em vigor no plano estratégico desses países, como os países em desenvolvimento como o nosso.

O que a maioria dos países africanos precisa é de investimentos e mais nada. Por outro lado, sendo certo que o ocidente jamais pagará o que deve aos africanos, apoio a linha do pensamento do Secretário Geral da Sadac, Dr.Tomas Salomão, quando diz  que os Brics é a voz dos desapropriados.

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