Opinião

A barbearia do Ferroz

No crepúsculo do dia dos heróis moçambicanos deste ano, quis partir de Pemba em direcção ao sul da província de Cabo Delgado. Estava numa viagem daquelas não “avisadas”. Mesmo assim, e depois de durante a manhã ter estado a “fazer a minha parte” na bonita praça erigida em homenagem aos melhores filhos de Moçambique, não queria estar com cabelo para além de grisalho, comprido.

Na cidade de Pemba, as barbearias também gozam do feriado, conforme me disseram os actuais residentes da terceira maior baía do mundo. Porém, sabendo da minha agenda, sossegaram-me de que na viagem, a 100 quilómetros adiante, em Metoro, apanharia casas da especialidade em pleno funcionamento.

Disseram mais: naquele cruzamento Montepuez-Nampula-Pemba não se brinca em serviço, quando o assunto é empreendedorismo. Lembrei-me então de como Metoro passou a estar como está, com um desenvolvimento que inveja até a sede do distrito de Ancuabe. Lembrei-me do quanto custou e quanta contribuição dois cidadãos dali naturais deram para que tal fosse possível. 

Não evitei rebuscar na memória os nomes de Sadique Yacub e Almeida Abujate, que ainda tudo fazem para que Metoro não mais seja aquele lugarejo onde apenas se frouxa a marcha para curvar à esquerda ou à direita ou para simplesmente respeitar os sinais de trânsito. Há, de facto, muita coisa que obriga a que se pare em Metoro.

Desta vez (também) era para fazer a careca que havia dois dias estava a desaparecer. Recomendado a partir da capital provincial, onde os empreendedores entram em defeso, em função da aparente inutilidade dos dias. Fiquei impressionado. Conforme as indicações, na paragem dos “chapas”, em direcção a Montepuez, havia duas barbearias. Encontrei-as. Numa delas colidi com uma multiutilização que incluía a gravação de discos e venda de vídeo-clips e na outra, apenas aparava-se o cabelo dos homens, conforme a sua engraçadíssima tabela, em que um corte francês está a 30,00 Mt, um francês-cocorico (que deixa uma espécie de cristã na parte central da cabeça) está ao mesmo preço, tal como o próprio estilo cocorico.

Um corte normal custa 20,00 Mt, tal como a escovinha, o “picante” a careca, esta última, o meu objectivo. A tabela vai baixando com a “barba-perla”, que vale 15,00 Mt e o corte simples da barba, a 10,00 Mt e a “Meiz”, que na verdade é o corte nas linhas limítrofes do cabelo.

Ferroz é um jovem que concluiu a 12.ª classe, passam dois anos, na sede do posto administrativo de Metoro, nível a partir do qual não conseguiu mais “pernas” para ir além. Diz que é assim com a maioria dos filhos daquele distrito e, não estando talhado para o garimpo ilegal que alguns abraçam, preferiu ser útil daquela maneira.

Conversador, humilde e preocupado com a limpeza do seu local de trabalho, Ferroz não desanimou de todo, acredita que um dia haverá em que as portas abrir-se-ão para o que gostaria de fazer: estudar um pouco mais!

Pedro Nacuo

nacuo49nacuo@gmail.com

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