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“Tem que haver uma redefinição das nossas prioridades”

Por Maria Cossa
  • Cecília Mavale, professora de Língua Portuguesa e viúva do General Sebastião Marcos Mabote

Cecília Mavale estava ainda na flor da idade quando, em 1978, aos 21 anos, abdicou do seu sonho de ser engenheira química para abraçar a educação, em cumprimento do chamamento do Presidente Samora Machel. Igual a si, há tantos outros moçambicanos que, em benefício da pátria, abandonaram causas individuais com vista a responder às demandas da nação no período pós-independência. São a Geração 8 de Março e celebraram, recentemente, 49 anos.

Apesar de chegar ao “quadro e giz” por imposição, Cecília Mavale, reformada desde 2023, aprendeu a entregar-se com zelo ao trabalho e, tempos depois, acabou por desenvolver uma enorme paixão pela profissão que jamais tinha imaginado seguir. Resultado? Contribuiu, desde os finais dos anos 70, para a formação de vários quadros do país, para além de alcançar o Doutoramento em Linguística pela Universidade Eduardo Mondlane, em 2016.

Em conversa com o domingo, visita as memórias da sua adesão à geração do sacrifício, o comprometimento com a pátria; reflecte sobre questões actuais, defendendo que a resolução dos problemas que assombram a área da educação já não cabem apenas ao ministério. “Tem que haver uma reflexão profunda e redefinição das nossas prioridades, a nível governamental”, diz. Viúva do General Sebastião Mabote, falecido em 2001, Mavale também “cede-nos” o coração e fala da sua intimidade.

Aliás, descreve o combatente da luta de libertação nacional, que ingressou na Frelimo em 1963, fora das fardas e gravatas. “Muitos achavam que, sendo militar, é mau. Mas, nós não vimos isso dentro da família. Sebastião Mabote era uma pessoa que gostava de estar sempre connosco… tinha algum tempo que ficava a conversar com os filhos e até tocava viola”, afirma Mavale, que confessa que, nos primeiros momentos da morte do seu marido, estava “desorientada”.

Acompanhe a entrevista!

Professora Cecília faz parte de um grupo de jovens que aceitou o chamamento do Presidente Samora Machel, para ajudar a fechar as lacunas que havia nos diversos sectores do Aparelho do Estado. Pode reconstituir aqueles momentos?

Olha, foi um momento mágico, embora eu tenha aderido ao chamamento em 1978. Entretanto, devo dizer que os meus primeiros dias na formação foram bem difíceis porque sonhava em seguir a Engenharia Química, mas fui encaminhada ao Ensino de Português. Igual a mim, havia tantos outros com o mesmo problema. Não tínhamos alternativas. A causa maior não eram projectos pessoais, era, sim, o projecto colectivo.

Entretanto o quadro, giz e a língua portuguesa viraram depois suas paixões…

Sim. Para tal, valeram muito as aulas de sensibilização e mobilização. Lembro-me que as nossas foram feitas pela professora Fátima Mendonça, que também desempenhava, praticamente, o papel de nossa directora de turma. As aulas dela foram cruciais na medida em que nos ajudaram a entender porque é que tínhamos de nos sacrificar. Deu para perceber que havia necessidade, sim, de abraçar essa profissão. Acabei apaixonando-me e fiquei até a minha reforma, em 2023.

E o que representou a entrega desta geração?

O garante do funcionamento das instituições. O não colapso total do Estado.Leia mais…

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