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O triste quotidiano das trabalhadoras do sexo

À noite, enquanto outros deitam-se e dormem, elas estão em alguma esquina ou algum beco à procura de clientes. As trabalhadoras do sexo, muitas vezes de pé, esperam, de forma incansável, por alguém que as procure. 

Pior que tudo é que há menores de idade neste negócio, facto que preocupa o MISAU.

Dados disponibilizados pela Associação das Trabalhadoras de Sexo (ABEVAMO) indicam que existem mais de 50 pontos de venda de sexo só na cidade de Maputo. Os mais destacados são baixa da cidade, Julius Nyerere, Filipe Samuel Magaia e Magoanine-CMC.

Estimativas do Ministério da Saúde apontam para a existência de 30 mil espalhadas por todo o país. domingo conta a vida de quatro dessas mulheres que, alegando serem alvo de discriminação, preferem ficar na face invisível da moeda. 

Paula, 35 anos de idade, chegou sorridente, mas, ao mesmo tempo, encolhida para dentro de si. É natural da província de Inhambane, mas cedo mudou-se com os seus pais para Maputo. Aos 17 anos, quando frequentava a 7.ª classe, ficou grávida e foi obrigada a ir ao lar. Viveu maritalmente, teve três filhos, mas o seu marido faleceu, em 2013.

A vida ficou difícil. Buscou o emprego, mas nada achou porque o mercado não está fácil. Começou a faltar comida para as crianças e material escolar.

Necessitada, resolveu iniciar-se como trabalhadora do sexo. Explora vários pontos, com destaque para Magoanine-CMC, Primeiro de Maio e bairro Khongolote. Os valores que consegue por dia variam, mas em média diz fazer pouco mais de 1200 Meticais.

Para ela, a discriminação neste trabalho é o maior bicho. O pior é ser estigmatizado por quem procura os seus serviços.

Ninguém da sua família sabe o trabalho que faz. “O mais triste é que eu mesma não me sinto à vontade, mas são necessidades. Atender cinco homens por noite deixa o corpo devastado e não ganho quase nada. Caso surgisse uma oportunidade de emprego ou um negócio, deixava este trabalho”, diz, enquanto esfrega a cara com as mãos.

E acrescenta: “as pessoas chegam aqui, levam-nos para um programa e depois não pagam. É complicado, às vezes insultam-nos e é difícil recorrer à Polícia porque lá o tratamento também é agressivo”, detalha, enquanto espreitam gotas de água nos seus olhos.

A violência é um dos marcos que fica sempre registado na memória de quem trabalha com o sexo. Cremilde, 34 anos de idade, trabalhadora do sexo, é um exemplo vivo e já esteve nas garras de um cliente violento.

Nascida na cidade de Maputo, frequentou a escola até a 7.ª classe. Filha de pais separados, em 2006 ficou grávida e foi viver maritalmente. O seu marido perdeu a vida e teve de voltar à casa do seu tio. Dois anos depois, voltou a ter outro bebé, mas o pai desta menor desapareceu pelo mundo.

As coisas começaram a piorar em casa e já lhe faltava um pouco de tudo. Desempregada, em 2017 conheceu um grupo de meninas que vendiam sexo na baixa da cidade, concretamente na esquina entre a Avenida 25 de Setembro e a Filipe Samuel Magaia. Estas meninas mudaram a vida dela.

Actualmente vive arrendando uma residência no bairro de Nkobe. Uma das coisas que mais a perturbano trabalho que faz é a violência, sobretudo por parte da Polícia.“Nós estamos ali e eles chegam, violentam-nos, levam os nossos pertences…”, relata a fonte.

Mas já teve outro caso. Certa vez foi solicitada por um cliente. Este levou-a para o bairro dele. Chegados lá, Cremilde foi violentada pela esposa desse homem.

Mas há outros males que deixam a nossa entrevistada irritada. Um deles é o estigma. “São coisas que passamos todos os dias. Imagina eu na minha esquina e, de repente, passa um vizinho. Já me aconteceu e, no dia seguinte, ele nem me olhava. Mesmo em casa, sinto que a forma como eles me tratam é diferente, desconfortável. Acredito que sabem que tipo de trabalho faço. As pessoas discriminam-nos todos os dias”, sublinha.

Cremilde jura que esse trabalho é normal, mas, ao mesmo tempo, cansativo. Fala das consequências e sublinha que dos cinco homens que tem de atender por noite, só consegue facturar pouco mais de 2 mil Meticais.

Mesmo assim, ainda sonha com um dia melhor. “Idealizo um negócio de venda de carvão. Vamos ver onde vai dar, mas estou a juntar dinheiro aos poucos e o facto de estar na associação tem-me ajudado. Estou até a pagar o meu terreno”, sublinha, enquanto ajeita o cabelo preto importado.

Paulina, 50 anos de idade, é mãe de quatro filhos. Natural de Inhambane, já viu de tudo nesta longa caminhada como trabalhadora do sexo, mas o mais alarmante são os homens que negoceiam para o não uso de preservativo.

Conta à nossa Reportagem que iniciou este trabalho ainda na província de Inhambane, depois de concluir a 4.ª classe, mas a coisa ficou mais séria quando veio a Maputo, em 1990.

TEXTO DE PRETILÉRIO MATSINHE

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