Nacional

O desagradável sabor do abandono

A família de Orlando Cossa estava já a preparar-se para enterrá-lo. O hospital despachou-o para casa ainda doente. O nosso jornal teve que “batalhar” para o doente regressar à enfermaria 

O infortúnio da doença bateu à sua porta. Desde então vive de agrura em agrura e rejeitado pelo mundo à sua volta. A primeira a fugir foi a esposa. Depois a própria família fugiu até chegar a vez do próprio hospital fartar-se. Estamos perante uma história que roça o limite da sensibilidade humana e no calvário está Orlando José Cossa, jovem de 39 anos, que está travando uma penosa luta pela vida…

Vivia com a esposa, em São Dâmaso, município da Matola, quando, de repente, começou a sentir-se mal. Andou nas consultas, sem sucesso. A doença manifestamente ganhava terreno e ele definhava nitidamente.

Vendo o marido debilitado, à beira da morte, a esposa foi a primeira a bater com a porta, fugindo para lugar incerto até hoje. Sem ninguém por perto, Orlando Cossa via a vida por um fio.

Seriam os vizinhos a accionar o alarme na busca de apoios. A família do doente foi vasculhada à pente fino até localizar-se a casa de uma das irmãs, algures no Hulene, arredores da cidade de Maputo, que o acolheu há sensivelmente ano e meio.

Nessa altura Orlando Cossa já nem conseguia andar. Aliás não anda até hoje, tudo indicando que jamais movimentar-se-á pelos próprios pés.

Seria nesta circunstância que a sua irmã e cunhado o encaminhariam ao Hospital Central de Maputo (HCM), onde foi internado nos serviços de Medicina e viria a ter a sua primeira alta.

Retornou à casa da irmã no Hulene para tratamentos no ambulatório, tendo melhorado um bocadinho, o suficiente para fazer o pé ante pé, feito uma criança que aprende a andar.

Infelizmente, a sensação de melhoria teve pouca dura, sobrevivendo de recaída em recaída. Até hoje este é o triste quotidiano de Orlando. Nós próprios conhecemo-lo assim.

Já foi parar ao Hospital Geral de Mavalane, isto no ano passado. Foi nesta unidade sanitária que a família ficou a saber, pela primeira vez, de que ele padecia. “Ele vive com o vírus de SIDA”, diz-nos, Lote Miqueia Tamele, o cunhado, acrescentando que o pessoal de saúde recomendou, por isso, uma medicação rigorosa, “sendo ele um seropositivo”.

Orlando aderiu à medicação e de certa forma melhorou o suficiente para pensar que já estava curado. Por conseguinte parou de se medicar, iniciando uma penosa queda no abismo da vida.

 A pior recaída teve no passado mês de Junho. Caiu no verdadeiro sentido da palavra e nunca mais se levantou. Feridas profundas começaram a sulcar o seu corpo já magro.

A sua família fala de verdadeiras “covas” nas costas, “covas” que põem ossos à vista. Diz-nos a família que quando se extrai pus nas feridas, a quantidade quase alcança meio litro.

Alarmados com a situação, a sua irmã e cunhado levaram-no ao Hospital Geral de Mavalane, onde ficou temporariamente internado na cirurgia para mais tarde ser transferido para o Hospital Central de Maputo.

No processo do doente, a que tivemos acesso, vem registado que deu entrada na enfermaria de Cirurgia II precisamente no dia 6 de Julho de 2012 e teve alta no dia 23 de Agosto de 2012.

É importante referir que descobrimos o sofrimento de Orlando durante a nossa visita aos doentes abandonados nas unidades sanitárias, trabalho que temos vindo a realizar nas últimas duas semanas.

Encontramo-lo triste, a chorar, queixando-se de solidão. Fontes dos Serviços da Acção Social do Hospital Central de Maputo disseram-nos, então, que a família abandonou-o desde o dia da alta, não querendo assumir responsabilidades por ele não ser capaz de movimentar-se pelos próprios pés.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos Relacionados

Botão Voltar ao Topo