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Kuphahla: a “comunicação” com os antepassados

Por Jornal domingo

TEXTO DE CARLOS UQUEIO

É uma prática viva e está presente no quotidiano de várias comunidades, sobretudo na região sul de Moçambique, onde tradição, fé e identidade se cruzam de forma nem sempre pacífica. O ritual é feito de joelhos no chão, derramando uma bebida alcoólica – tradicional ou moderna – ou simplesmente água, para invocar os antepassados.

O ponto de encontro não precisa de adornos para ser altar. Dentro de casa ou debaixo de uma árvore, o ritual atravessa o tempo como um elo entre os vivos e os mortos, sendo que o seu carácter sagrado se justifica pelo peso da memória transmitido de geração em geração.

O facto é que, para uns, a comunicação com os antepassados representa protecção, orientação e equilíbrio. Já para outros, levanta conflitos religiosos e dúvidas espirituais.

Em conversa com domingo, o médico tradicional Fernando Mate explica que kuphahla é, acima de tudo, um acto de comunicação, no qual “se fala directamente com os defuntos para transmitir informações, fazer pedidos ou solicitar autorização antes de decisões importantes”, descreve e continua: “em algumas situações, a pessoa precisa de informar os antepassados sobre algo que pretende fazer. Noutras, trata-se de pedir permissão ou protecção.

Esse contacto, sublinha Mate, não deve ser feito de forma aleatória. “Exige conhecimento, preparação e respeito pelas regras espirituais”. Médico tradicional há várias décadas, Fernando Mate narra a sua experiência afirmando que aprendeu com um mestre, seu orientador espiritual, a realizar o ritual de comunicação com os defuntos.

Explica, portanto, que não se trata de “improviso” e não deve ser realizado por qualquer pessoa nem em qualquer circunstância. “Antes do ritual, é necessária uma consulta para compreender que tipo de ligação espiritual está em causa”. Em cerimónias mais complexas, explica, é fundamental saber se os defuntos estão preparados para receber o ritual. “Caso contrário, podem surgir espíritos que não pertencem àquela família ou àquele espaço. Esses intrusos podem aproveitar-se da situação e provocar desequilíbrios”, afirma.

Fernando Mate compara, por isso, o acto a uma festa e argumenta: “tal como numa celebração, é preciso convi dar apenas quem se deseja que esteja presente. Caso contrário, pessoas indesejadas podem aparecer e interferir”, justifica.

“QUANDO AS COISAS NÃO ANDAM…”

Para o régulo José Matola, o acto de phahlar não é simbólico; é uma forma directa de comunicação com os antepassados, a quem reconhece como protectores e orientadores da sua existência. Segundo explica, são eles que velam pelos seus passos, que o abençoam e lhe garantem equilíbrio. Sempre que sente que algo não está a correr bem, recorre ao ritual. Ajoelha-se, phahla e fala com os antepassados, pedindo que acompanhem os seus actos e projectos.

Na sua experiência, “a resposta não tarda”. Afirma que, depois da cerimónia, as coisas tendem a alinhar-se, como se os caminhos voltassem a abrir-se. É essa convicção que sustenta a continuidade da prática na sua vida. Leia mais…

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