
Os gestores de institutos de Formação de Professores e escolas de Formação de Professores do Futuro reuniram-se, semana finda, em Maputo, com o ministro da Educação e Desenvolvimento Humano, Jorge Ferrão, com vista a avaliar as suas actividades e a forma de actuação. Neste âmbito, domingo entrevistou, em exclusivo, o Director Nacional de Formação de Professores, Feliciano Mahalane.
O que ditou a realização deste encontro?
Este evento é de avaliação e balanço da formação de professores do ensino primário que é feita, ao longo do país, em institutos de Formação de Professores e escolas de Formação de Professores do Futuro. Realizamos este tipo de reuniões anualmente para avaliarmos o que está a acontecer e harmonizar a nossa forma de actuação.
Porquê?
A formação de professores é feita por 38 instituições que seguem o mesmo currículo e programa, mas os professores formados nestas escolas são colocados em todo o país, daí que é preciso fazer, regularmente, avaliações para ver o andamento das nossas acções. Por outro lado, este ano introduzimos a capacitação de professores.
Qual é o objectivo?
A capacitação de professores, também conhecida por “formação em exercício”, era feita apenas dentro dos institutos, mas decidimos fazer uma “teia de ligação” que abarca o instituto, ciclo e a escola. Trata-se de um círculo sobre a actualização dos professores que não depende apenas dos institutos de formação. Para este ano, o enfoque desta capacitação está na primeira e segunda classes, visando desenvolver a leitura, escrita, oralidade e numeracia.
E…
Neste encontro também olhamos para a necessidade destas instituições harmonizarem os instrumentos de gestão interna de cada uma delas com vista a saber, entre outros, como estão a ser orçamentadas e como anda a execução orçamental, que é para saber o que se pode fazer a nível central para melhorar os procedimentos de orçamentação e gestão financeira.
Temos ainda a questão da capacitação de gestores de escolas. Estes institutos têm também a tarefa de capacitar os gestores de escolas e nós fazemos isto num curso específico em Nampula, para a zona Norte, Quelimane, no Centro, e na cidade de Maputo, no Sul.
GESTORES ESCOLARES
Qual é o objectivo do curso de capacitação de gestores?
A formação de gestores escolares é um curso com a duração de quatro meses e tem quatro módulos, nomeadamente Gestão Pedagógica, Administração Escolar, Gestão Financeira e de Recursos e as Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) na Gestão. O último módulo é para estudar como podemos introduzir a tecnologia na gestão da escola.
Como é que está a decorrer?
Está a decorrer bem, apesar de alguns sobressaltos, sendo de destacar o financeiro como consequência da actual conjuntura económica que o país está a atravessar.
Por exemplo, se um director de uma escola do Niassa for chamado para ir fazer o curso em Nampula tem de ter meios para se deslocar. A viagem, hospedagem, alimentação e a permanência devem ser financiadas. É uma formação que tem duas componentes, nomeadamente aulas na sala e prática numa escola que é para ver como se gere.
Até o momento, quantos gestores beneficiariam da capacitação?
É um curso que realizamos desde 2013. Estimamos formar, num ano, perto de 4500 gestores escolares. Não tenho números exactos, mas é significativo, tendo em conta, por exemplo, que só no ensino primário temos cerca de 13 mil escolas no país e cerca de 700 do ensino secundário.
Quem são esses gestores?
Directores das escolas, coordenadores de Zonas de Influência Pedagógica (ZIP), directores-adjuntos pedagógicos e chefes de secretaria.
Qual é a vossa meta para esta formação?
O ideal é que todos os que ocupam cargos de gestão fizessem o curso. Estamos a começar por formar todos aqueles que estão nas escolas, não podemos pensar em abranger todos hoje, até porque interrompemos no período de exames e férias. Primeiro vamos abranger aqueles que estão nas escolas e, a seguir, os futuros gestores, ou seja, aqueles que estão em formação.
Como assim?
Quando todos os gestores que já estão nas escolas estiverem formados, aos que o quiserem ser vamos exigir capacitação.
REQUISITOS DE ADMISSÃO
O que é necessário para que um cidadão comum seja admitido num instituto de formação de professores?
Temos exames de admissão que começam por um processo de inscrição, em meados de Dezembro, seguido por exames escritos de Matemática, Português e Inglês, realizados na primeira semana de Janeiro. A seguir a isso faz-se uma entrevista psicotécnica e faz-se o apuramento que só termina no final de Janeiro.
Como é feito o apuramento?
O apuramento não é nacional, apesar de abranger todo o país, que é para evitar situações em que um aluno é apurado em Cabo Delgado enquanto concorreu na província de Maputo. Apurámos por local de inscrição e por quotas de género. Em geral, fazemos 50 por cento.
Pode explicar melhor?
Pode acontecer que uma menina que teve uma média de 13 valores seja admitida para fazer o curso mas um rapaz que teve 15 não o consiga porque já foram preenchidas as vagas dos rapazes. O exame de admissão é um procedimento de selecção e é justo.
GRADUADOS PREFEREM CIDADE
Há alguns anos todos os professores formados já tinham vagas garantidas. O que contribuiu para o actual sistema em que cada professor deve procurar uma escola para dar aulas?
Naquela época tínhamos uma capacidade baixa de formar. Praticamente, no ensino primário graduávamos cerca de 3500 professores e contratávamos 5000. Com as mudanças, passamos a formar mais porque também contratamos mais. Repare que o processo de contratação não é nacional. Antes eram poucos graduados e todos eram absorvidos, mas agora a contratação é local por causa da descentralização.
E?
Os graduados devem procurar vagas. Por exemplo, se temos um recém-formado na Matola o primeiro local onde procura vaga é na cidade da Matola, a seguir Boane, Moamba, depois vem a Maputo até chegar a Matutuine. Muitas vezes, esse que está na Matola não quer ir a nenhum distrito distante. A estes declaramos excedentário porque pode se dar o caso de existirem vagas abertas em Matutuine ou na Zambézia.
Onde é que existe o maior número de vagas?
Neste momento há mais vagas para novas contratações nas províncias da Zambézia e Nampula. Comparando com as províncias de Gaza, Maputo e Inhambane as vagas são menores em relação aos graduados, mas nessas províncias as vagas são maiores em relação aos graduados.
Quantos graduados prevêem para este ano?
No próximo mês de Dezembro vamos graduar acima de sete mil novos professores.
E qual é a necessidade para o próximo ano?
Ainda não foram aprovadas, pois aparecem reflectidas no Plano Económico e Social 2017. Temos ideia do que planificámos mas ainda não podemos usar. O que é verdade é que o sistema de formação de professores deve graduar acima da capacidade da contratação porque depois da contratação que ocorre em Janeiro há outra por substituição para os casos em que temos professores que vão a reforma, morrem e outros adoecem.
O que isso quer dizer?
No fundo todos os que formamos em cada ano são absorvidos. Se há quem fica é um problema dele. Pode ser porque não quer ir para um distrito.
Para encerrar, no caso do ensino primário em Moçambique, temos a impressão de que a primeira e segunda classes têm sido vítimas de mau aprendizado, mesmo tendo em conta que suporta todas as classes subsequentes. O que se faz para inverter este cenário?
Este cenário não é específico da educação. Acontece em todas outras profissões. É verdade que se nota muito na educação. É um fenómeno global ligado, sobretudo, à evolução científico-tecnológica. Enquanto antigamente podíamos ser preparados de uma única vez para leccionarmos para o resto da vida, agora temos uma preparação de indução e o resto da preparação tem de acontecer no trabalho, por isso estamos a falar de formação em exercício. Isso não acontece só no ensino primário. Acontece em todo o sistema de educação, pois só podemos resolver através da capacitação dos professores que já estão dentro deste sistema.
Texto de Angelina Mahumane
angelina.mahumane@snoticias.co.mz

