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Extinção do curso nocturno pode comprometer qualidade

Por Abibo Selemane

A extinção das aulas do ensino secundário no período nocturno, anunciada recentemente, está a reacender um debate antigo sobre o problema de qualidade da educação no país.

O Ministério da Educação e Cultura (MEC) informou que se trata de um redimensionamento, considerando a evolução do turno. Significa que a escola que tiver menor número de alunos inscritos poderá transferi-los para o estabelecimento mais próximo, deixando de leccionar este turno.

Não há informação sobre quantas escolas poderão ser abrangidas por esta medida. Mas sabe-se que as direcções provinciais de Educação e Cultura foram orientadas a indicar as escolas que continuarão a leccionar no turno nocturno, tendo em conta o número de ingressos.

Das justificações para tomada desta decisão apontam-se o baixo aproveitamento pedagógico, riscos de segurança, além de inadequação às novas exigências educativas e do mercado de trabalho. E para a solução dos problemas, o MEC aponta para o ensino à distância, alegadamente porque oferece maior eficiência no uso de recursos, melhor qualidade pedagógica e maior equidade no acesso.

PROFESSORES REFORMADOS NÃO CONCORDAM

Os argumentos do ministério são contrariados por antigos professores e outros actores, com destaque para os que leccionaram por longos anos no período nocturno. Estes defendem a continuidade do turno, por entenderem que vai aliviar o sufoco que se assiste no turno diurno em algumas escolas, onde o efectivo numa turma varia entre 60 e 70 alunos, ou mais, devido à insuficiência de salas de aula e professores.

Jordão Mahumane, professor reformado desde 2019, disse que o Governo deve resolver o problema da falta de corrente eléctrica em algumas escolas para manter as aulas de noite.

“Leccionei no curso nocturno por muitos anos, em simultâneo com o turno diurno. Uma das vantagens deste modelo de ensino é o acompanhamento presencial dos alunos. Ultimamente, temos muitas crianças que não sabem ler e têm preguiça, estes precisam de acompanhamento presencial de um professor. Quem estiver no ensino à distância não vai se dedicar para aprofundar as matérias”, comentou.

Mahumane afirmou ainda que o Governo falhou ao acumular a dívida das horas extras nos últimos anos. Devia ter mantido o modelo de pagamento semestral ou mensal.

Por sua vez, Mário Macuácua, também na reforma desde 2019, afirmou que ficou surpreendido quando ouviu que o ensino secundário seria retirado do curso nocturno.

“Não concordo com esta ideia porque o curso nocturno é apenas uma questão de mudança de período, mas praticamente os professores e os contextos são os mesmos. Isso faz com que a educação nocturna seja igual à diurna”.

No entendimento do antigo professor, o ensino à distância implica ausência na maior parte do tempo do professor. Significa ainda ausência de uma sala de aula que é um lugar apropriado para aprendizagem, sobretudo para as crianças.

“Implica também uma reformulação dos conteúdos para a sua adequação ao sistema. Levar uma criança de 15 anos para o ensino à distância vai piorar a qualidade de ensino porque nesta idade o aluno precisa do professor como seu instrutor. Esse não vai se aplicar porque não terá contacto contínuo com o docente”.

Para Macuácua, o país não está preparado para imigrar na totalidade para o ensino à distância, visto que existem distritos que se debatem com a falta de corrente ou cortes constantes de energia eléctrica. Leia mais…

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