Nacional

“Estamos a trabalhar para que o turismo deixe de ser sazonal”

Decididamente Inhambane vai continuar a ter no turismo a sua principal atracção para o desenvolvimento socioeconómico da província. Esta é a mensagem de fundo que decanta a entrevista

 que tivemos, semana finda, com o respectivo director provincial, Bento Nhassengo. Há constrangimentos. É claro, como é o facto de o turismo continuar a ser sazonal. Mas muitos estão a ser ultrapassados, devido a uma conjugação de estratégias bem sucedidas.

“Até há pouco tempo era voz corrente que alguns turistas que frequentam as praias de Inhambane, além de mergulhar, se apropriarem de alguns recursos marinhos, como por exemplo corais de rara beleza, estrelas-do-mar, por aí em diante. Agora como estão as coisas?

Relativamente àquilo que é o nosso mundo submarino, de que quase toda a nossa zona costeira é rica, continua a ser o chamariz para muitos turistas que vêm mesmo para mergulhar. Assumimos que é do interesse geral preservarmos estes recursos, primeiro, nós como governo, depois o sector privado e inclusive as comunidades. Todavia, estamos perante um cenário que tem de ser acautelado.

 

 

Em concreto?

Por exemplo, quando falamos de operadores do sector privado, estes estão a ver o lucro que pode advir pela visita aos locais de maior interesse turístico na província. Mas se isso não for bem monitorado pode originar, digamos, uma sobrecarga devido à frequência com que essas visitas ocorrem. Outros factores são certos hábitos enraizados nas nossas comunidades. Para algumas, abater um tubarão, uma raia manta, não é problema, porque o fazem há séculos. Portanto, há que se encontrar equilíbrio em relação a este aspecto. O Governo provincial acabou coordenando o processo de identificação de duas espécies para serem incluídas no grupo das espécies marinhas protegidas. Refiro-me concretamente à manta raia e ao tubarão baleia.

Porquê?

São a atracção dos mergulhadores. O tubarão baleia, o maior peixe dos oceanos, tem um comprimento de até 12 metros. A raia manta é outro pólo de atracção. Em alguns parques, como o que tivemos oportunidade de visitar em Durban, concretamente o Shaka Marine, vimos estas espécies. Estão, digamos, numa espécie de aquário e as pessoas vão lá para ver. É, em contraposição, uma demonstração clara daquilo que nós temos e podemos ver aqui in loco.

Em que pé está essa preocupação em proteger estas duas espécies?

O assunto já foi remetido ao sector das Pescas para, como disse anteriormente, ser feita a inclusão das mesmas na lista das protegidas. Através dos Conselhos Comunitários, de que as comunidades piscatórias fazem parte, procuramos sensibilizar as comunidades relativamente ao tratamento que se deve dar a essas espécies. São hábitos que levam tempo para passar, mas, dada a conjuntura actual, tem de se abandonar esta prática. Relativamente ao sector privado, acaba sendo um pouco mais fluído o nosso papel, porque eles têm consciência dos riscos que correm quanto à má gestão dos recursos marinhos e faunísticos. Temos estado a fazer um trabalho contínuo de monitoria junto a estes três actores.

Pelo que acompanhamos, persiste a pesca do tubarão para o aproveitamento de barbatanas e posterior venda em mercado asiático.

A nossa costa, e apesar de fiscalizada, é longa. São 2.700 quilómetros. Temos que incrementar a nossa capacidade de inspecção. Quanto à pesca do tubarão, já ouvimos falar, e inclusive, passou uma reportagem há algum tempo, num dos canais de televisão moçambicana, em que mostravam o tratamento que é dado às barbatanas deste, em alguns países asiáticos. Aliás, uma parte das filmagens foi aqui feita.

EXPECTATIVAS

DO TURISMO

 

A província possui uma variada gama de potencialidades turísticas como praias, ilhas e arquipélagos. A seu ver, o turismo já corresponde àquilo que são, porventura, as vossas expectativas, inclusive a colecta monetária pela actividade?

Creio que não. Dados os recursos existentes, Inhambane já podia estar, se calhar, com um estatuto superior ao actual. O nosso turismo ainda é sazonal. Tivemos muito movimento durante o mês da Páscoa, em Março. Vamos ter um novo pico na época do Natal e do Fim-de-ano. Tudo somado, podemos assumir que são entre 60 e 70 dias por ano de turismo em que é garantido casa cheia quase em todas as instâncias turísticas ao longo de toda a província.

E nos outros períodos do ano como é que dão a volta à ausência de turistas?

Passamos a apostar na organização de alguns eventos que acontecem nas épocas não de pico. Por exemplo, procuramos capitalizar para o mês de Agosto o Festival de Timbila de Zavala. No mês de Outubro, temos o Festival do Tofo, na praia da Barra. Em Novembro, acontece o Festival de Murrungulo. São actividades que vão acontecendo ainda que de forma isolada. É através da realização desses eventos que assumimos que em algum momento teremos fluxo de turistas, mas que numa primeira fase não vai ser ao ritmo de que gostaríamos. Acreditamos que depois de institucionalizados, as pessoas poderão fazer reservas para estar em aqui durante aquele período.

Como é que essa informação pode chegar ao turista estrangeiro?

Estamos a desenhar uma página WEB para a disseminação da informação, a nível internacional, para atrair turistas para estes eventos. Como sonhar ainda não é proibido, porque não seguir as peugadas do Cape Town Jazz Festival que são três semanas, quase um mês, e sempre com hotéis e restaurantes lotados. A província, neste caso Cape Town, ganha com isso. (só no ano passado, 2012, Cape Town obteve como lucro 498 milhões de randes e criou 2.700 postos de emprego). Estamos a apostar nessa vertente, bem como na componente de eventos que têm a ver com conferências. Maputo hoje vive muito à base disso. Nós, em Inhambane, porque não combinar lazer e negócio.

A juntar a isso, já há algum sinal da parte das Linhas Aéreas de Moçambique (LAM). Duas vezes por semana, há ligação entre Vilankulo e Beira. Coisa que até muito recentemente não acontecia. Quem quisesse ir a Inhambane, saindo da Beira e Tete, tinha de ser via Maputo. Achamos que podemos fazer essas ligações directas com os mercados como Tete e Nacala. São pessoas que estão lá em negócio, mas se podem deslocar a Inhambane para lazer ao final de semana.

 

DESCONTOS

PARA NACIONAIS

 

Quantas instâncias turísticas existem na província e quais são aquelas que vale a pena visitar?

No global, são cerca de 500 instâncias turísticas. Todas têm as suas especificidades. Mas, como disse anteriormente, as finanças de cada um, e atendendo os propósitos da pessoa, é que ditam a escolha.

Número de camas?

 Acima de 14 mil e 500. Em todas as categorias. Agora o turismo joga um pouco em função do bolso. Nas ilhas ( por exemplo, Bangwere e Bazaruto) é onde temos recebido visitas de grandes personalidades de nível mundial e mesmo nacional, isto nos distritos de Inhassoro e Vilankulo. Nesses distritos, também se consegue encontrar alojamento básico em que a pessoa pode ir lá para dormir e o resto das actividades ir desenvolvendo de forma livre. Como também pode estar num sítio onde está tudo pago a partir da altura que você paga a entrada e pode incluir passeio de barco ou não. Inhambane, à parte esses locais de luxo, conforme se tem estado a propalar, tem também condições para serviços básicos. Na campanha direccionada para o mercado doméstico, procuramos enfatizar isso. Temos também operadores que praticam preços especiais que são mesmo para nacionais, incluindo naqueles sítios de referência nas ilhas. Nesses estabelecimentos, a maioria pratica descontos especiais para os moçambicanos.

Qual tem sido a tendência no que toca à colecta de receitas?

Tem sido crescente. Contudo, ainda estamos naquele cenário de quanto quantificarmos e o que é que são as receitas no sector de Turismo. Fazemos isso de forma isolada, o que não pode ser. Até à data só estamos a ver aquilo que é produção, aquilo que sai das instância turísticas e é canalizado aos cofres do Estado. Mas se tivéssemos que olhar, por exemplo, para aquilo que se tem e fica por cá pela contribuição do sector, por exemplo, no fluxo que há ao nível das bombas de combustível, dos centros comerciais e mercearias, os resultados seriam outros. Mas nós apenas quantificamos aquilo que está a sair ali na instância turística. Porém, durante essas épocas de pico, os turistas que vem de carro de Maputo, abastecem aqui. Nessa altura, é quantificado grande crescimento em termos de consumo de combustível, mas que resulta indirectamente do turismo. Isso acaba sendo um desafio não só para o sector do Turismo aqui em Inhambane, mas ao nível mundial. Tivemos uma troca de experiências com os colegas na África do Sul e eles também assumiram a mesma dificuldade. Contudo, havendo um discurso abrangente, isso acaba sendo acautelado.

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