Cerca de cem famílias residentes no bairro da Munhava-Matope, arredores da cidade da Beira, província de Sofala, vivem em péssimas condições devido à água da chuva que invadiu as suas residências. Entretanto, as mesmas recusam-se a abandonar aquela zona de risco alegando falta de condições nos bairros de reassentamento.
Passadas cerca de duas semanas após a chuva que fustigou a cidade da Beira, alguns bairros ainda se ressentem dos efeitos das inundações com epicentro nos bairros de Munhava-Matope, Muabvi, Manga e Inhamudima.
A situação das referidas famílias é preocupante, uma vez que as suas residências, quintais e latrinas continuam alagados, com todas as consequências nefastas para a saúde daí resultantes.
Sempre que aparece uma nuvem escura e bem carregada a preocupação sobe de tom, entretanto as pessoas recusam-se a abandonar aquelas zonas alegando que nasceram ali e ali irão terminar as suas vidas como aconteceu com os seus antepassados.
Aliás, quando as nuvens começam a ficar carregadas a preocupação geral é improvisar prateleiras de madeira para elevar os bens para não serem atingidos pela água. Na última sexta-feira, choveu na cidade e foram registados ventos fracos, o que piorou o cenário. Há quintais cheios de água misturada com fezes de suínos que as famílias criam, sobretudo, no bairro Munhava-Matope.
Nesse instante, a nossa Reportagem estava no terreno e durante a descarga teve de se albergar num alpendre durante cerca de trinta minutos, período no qual assistiu a um movimento intenso de crianças a brincarem na água turva, enquanto os adultos tratavam de acondicionar madeira para elevar as camas.
Para circular por aqueles terrenos extremamente escorregadios socorremo-nos do nosso calçado e fomos auxiliados por um guia, homem experiente em saltos em cumprimento nas diversas “lagoas” de cerca de dois a três metros que circundam os caminhos para as residências.
Numa breve conversa com os residentes quisemos saber porquê insistem em residir num bairro extremamente perigoso para a saúde humana, ao que os moradores responderam que ali nasceram e ali morrerão como foi com os seus antepassados.
António Marques disse ao nosso jornal que veio ao mundo no ano de 1972 e que já sobreviveu a várias intempéries, razão pela qual não faz parte dos seus planos sair daquela zona até porque é ali onde está a sua fonte de sobrevivência.
O rendimento deste cidadão consiste na projecção de filmes numa sala improvisada para cerca de 50 pessoas com bancos de madeira. Quando passámos por ali assistia-se a um frenético e aliciante filme intitulado “Tartaruga Ninja”, para a noite aguardava-se por um jogo do sempre apetecível campeonato inglês.
“Os meus pais contaram-me que em 1977 houve as piores cheias e sobrevivemos, pelo que não será desta vez que vamos sair daqui para a parte incerta porque não sabemos o que é que nos espera nas chamadas zonas seguras”,disse António Marques.
Para ele, a situação agravou-se nos últimos anos devido à construção da linha-férrea que sai do Porto da Beira passando por aquele bairro que não incluiu aquedutos para a passagem das águas pluviais para o mar.
Maria Maximiano também foi ouvida pela nossa Reportagem e para ela mesmo que chova por um mês dali não irá arredar o pé por ser um terreno fértil para a produção de arroz, uma das fontes da sua sobrevivência.
A título ilustrativo, esta cidadã possui em frente à sua residência um viveiro de arroz que, segundo afirmou, está à espera das águas baixarem para levar à machamba que fica depois da via-férrea.
Na sua óptica, nas chamadas zonas seguras, a situação não está fácil, por um lado, por falta de emprego e, por outro, devido ao elevado custo de vida, enquanto na Munhava-Matope consegue adquirir uma lata de milho de cinco quilos a 50 meticais, contra os 150 a 200 meticais noutras zonas.
A história mostra que as pessoas fixaram residências naquela zona por ser a principal rota de acesso ao Porto da Beira, o que lhes dá facilidades de acesso aos produtos roubados nos camiões, assim como no recinto ferro-portuário, entre eles, feijão, gergelim, milho e arroz.
Entretanto, Fino Massalabane, do Departamento da Saúde Pública, diz que ainda não há registo de cólera e outras doenças hídricas devido ao forte sistema de vigilância montado pelas autoridades sanitárias que inclui a mobilização de 62 equipas que vão disseminado a importância do uso adequado das latrinas, bem como procedem à distribuição do cloro e certeza para o tratamento da água, sobretudo, a que sai dos poços.
A outra frente que está em curso segundo aquele técnico é a vigilância nos principais pontos de entrada à cidade, nomeadamente, no cruzamento de Inchope, distrito de Caia, estacões ferroviárias, em que existem técnicos com pé de luva onde as pessoas provenientes das províncias que já registam cólera têm de mergulhar os pés para a desinfecção.
Dêem-nos licença ambiental
para resolver o problema
–Daviz Simango, presidente do Conselho Municipal
O edil da cidade da Beira, Daviz Simango, diz ter na manga um plano-director para a solução dos problemas de inundações naquela cidade que se encontra abaixo das águas do nível do mar.
Em entrevista a publicar na próxima edição, Daviz Simango fala da necessidade da concepção de uma licença ambiental para a edilidade proceder à dragagem do canal de acesso ao Porto da Beira.
Segundo afirmou, neste momento a dragagem é deficitária com o agravante de a empresa Emodraga estar a passar por incertezas, para não falar da draga avariada e levada à reparação na África do Sul, mas sem datas para o seu retorno.
“Uma das soluções do problema das inundações passa por fazer aterros ordenados e com cotas iguais para todos, uma vez que neste momento só sobrevivem os mais fortes. A outra solução seria conceder-nos uma licença ambiental para sermos nós, Conselho Municipal, a fazer a dragagem do mar, onde usaríamos a areia lá tirada para fazer aterros em diferentes bairros”, disse Daviz Simango.
Texto de Domingos Nhaúle

