
– José Machado, ex-coordenador da rubrica Juvenil deste semanário
Estava-se a meio da década de 1980, mais precisamente em 1985, quando as chefias deste semanário anuíram que se criasse uma rubrica virada, essencialmente, para a camada jovem, uma espécie de contraponto a "njingiritana" que já fazia as delícias da pequenada, e até hoje é viva neste hebdomadário.
O nome escolhido para a
rubrica foi Juvenil. O
que os seus criadores
não sabiam é que acabavam
de lançar uma
semente da qual brotaria anos
mais tarde um naipe de jornalistas,
escritores, políticos, artistas
plásticos, magistrados, engenheiros,
entre tantas outras coisas
bonitas.
Entre os coordenadores um
destacou-se. Tem um nome curto.
José Machado. Pequeno é também
o seu corpo. Franzino. Mas o que
perde em altura e em cumprimento
é superado pelo seu profissionalismo.
Foi o segundo coordenador
desta rubrica iniciada por
um colectivo coordenador que
integrava os malogrados Atanásio
Dimas, ex-chefe da Redacção do
domingo, e Hilário Matusse (ex-
-secretário-geral da Organização
Nacional de Jornalistas). Mas foi
durante o seu consulado, inicialmente
com os jornalistas Alfredo
Macaringue (ex-chefe de Redacção
do "notícias") e Delfina Mugabe
(directora-adjunta do "notícias"),
depois a solo, que a rubrica se
transformou num cromo deste
semanário.
Espantou-se literalmente
quando saídos do nosso segundo
andar, onde funciona a nossa Redacção,
irrompemos na Redacção
do "notícias", que funciona um andar
abaixo do nosso, e colocámo-
-nos diante dos seus olhos na Secção
do Internacional, onde está,
novamente, afecto. Dissemos ao
que íamos e ele não conseguiu evitar
uma cara de espanto. Refeito da surpresa, aquiesceu e, como
já prevíamos, exibiu o sorriso que
conhecemos há décadas. Aliás,
das poucas vezes que o vimos zangado,
o seu rosto esboçou apenas
uma pequena careta.
Tem noção de que o Juvenil
coordenado por si foi, digamos,
uma espécie de estufa que empurrou
um bom número de jovens
para o jornalismo, dado que foi
naquele espaço que muitos publicaram
pela primeira vez um texto
num jornal? Perguntámos. Nasce-
-lhe, rapidamente, um pequeno
sorriso nos lábios, solta-o, e acena
com a cabeça em sinal de concordância
e a seguir pronuncia uns
tantos nomes.
“Bento Balói, Fátima Cossa,
Bonifácio António, Belmiro
Adamugy, … Palmira Velasco,
Hugo Berna (falecido), André
Matola (risos), Aboobakar Selemangi
(já retirado da profissão),
Carol Banze (Julinha)…
Escapa-me o nome de um que
trabalhou na Rádio Cidade”… E
é o início da conversa em jeito de
fio da memória.
Empolgado, acrescenta: “Interessante
é que o Juvenil não foi
só tubo de ensaio para o nascimento
de jornalista. Também
produziu escritores, mas com
formação em outras áreas do
saber, como Jorge Oliveira, Didier
Malunga, Alexandre Perez
Azedo … Zéx Artur… Abdil
Juma (teatro) e até políticos (risos).
Os jovens que numa etapa
da sua vida tiveram uma passagem
pela política e fundaram o
Partido de Convenção Nacional
(PCN), mas tinham uma veia
literária publicaram muita coisa
no Juvenil, recordo-me, por
exemplo, de Inácio Chire. … Foi
muita, muita gente. Chinha dos
Santos, creio, formada em Economia,
também publicou muita
coisa. A lista é bem longa”.
Porque ao longo dos anos que
ele coordenou o Juvenil, entre finais
de 1985 e 1991, houve uma
rubrica que suscitou labaredas
de curiosidade a todos quantos
escreviam para as páginas (6 e 7
do segundo caderno deste semanário),
sobretudo para aqueles que
não viam os seus textos (contos,
poesia e cartas) publicados, pedimos
para que ele nos revelasse o
segredo. E voltou a sorrir antes de
responder.
“As pessoas não prestavam
atenção à grafia da palavra.
Acusávamos a recepção do texto
e dizíamos que o tínhamos
remetido à cesta secção. Cesta
de cesto e não sexta com S.
Naquele caso, cesta secção era
cesto de lixo. Mas como muitos
tinham percebido que era uma
outra secção, que tinha outro
chefe, quando vissem que nada
saía pediam para falar com
o chefe ou os chefes da cesta
secção. Então eu lhes explicava
que era impossível falar com o
chefe. Ele era inacessível. Se
o texto para lá tinha ido parar não havia mais nada a fazer. E
as pessoas insistiam. Quero
falar com ele (risos). Mas tudo
terminava sempre de forma
amigável e com um aperto de
mão.”
José Machado, ou Machadinho
como carinhosamente é tratado
pelos colegas e amigos mais próximos,
ressalvou que fazia um
esforço quase hercúleo para publicar
todas as cartas que caíam no
correio Juvenil.
“A correspondência chegava
de todo o país através dos
Correios. Os que viviam em Maputo
e Matola vinham deixá-la
mesmo aqui no edifício do notícias,
porta número 55. No auge
do Juvenil chegávamos a receber
entre 30 e 50 cartas por
semana. Cartas manuscritas.
Cada um com a sua caligrafia.
Nessa altura não havia computadores.
Era preciso resumir,
mas sem cortar a ideia central
do que lá estava. Só não publicávamos
as cartas cujo conteúdo
era mesmo indecifrável ou
socialmente incorrecto”.
A conversa prossegue animada.
“Recordo-me que por
volta das 10.00 horas de cada
domingo era impossível encontrar
à venda o jornal domingo.
Esgotava literalmente. E eram,
à vontade, acima de 20 mil
exemplares. As pessoas palmilhavam
a cidade à busca do
domingo. Era fantástico”.
Fecha momentaneamente os
olhos, como que a reviver o passado,
e continua: “Houve debates
célebres nas páginas, o que
levou muita gente a escrever.
Recordo-me, por exemplo, de
temas como Vou Abrir (saltar
a fronteira), Gravidez Precoce,
Mães Solteiras e tantos outros…"
O primeiro número do Juvenil
saiu a 10 de Fevereiro de 1985. Tomás
Vieira Mário, Aniceto Dimas e
A. Tembe foram os primeiros colaboradores.
A rubrica comportou
letras de música, um artigo sobre
teatro e outro sobre Serviço Militar
Obrigatório (SMO).
“Uma coisa que me marcou
profundamente durante a minha
coordenação do Juvenil foi
ter aparecido um jovem militar
para agradecer o papel que esta
rubrica teve na sua alfabetização
e escolaridade”, e mais não
disse José Machado.
Outros coordenadores vieram
a seguir, nomeadamente Alfredo
Dacala, Bento Balói, Belmiro Adamugy,
André Matola, Bento Venâncio
e, finalmente, José Sixpence,
Jorge Rungo e Abreu Sumbana
(coordenação colegial). Refira-se
que o Juvenil originou um amplo
movimento recreativo e cultural
denominado Clube dos Amigos do
Juvenil (CAJE). É uma outra história
por contar.
Texto de André Matola
matolinha@gmail.com

