Os grandes supermercados que operam no país defendem a necessidade de se melhorar a qualidade dos produtos disponibilizados pelo sector agrário nacional, como forma de aumentar a capacidade de absorção daquilo que seja “Made in Mozambique”.
Esta posição é defendida pelas principais redes de venda de hortícolas e legumes, os quais tem estado a manter a preferência pelos produtos importados da vizinha África do Sul, alegadamente, porque os agricultores moçambicanos não conseguem preencher um conjunto de requisitos que vão desde a qualidade, apresentação do produto, volumes solicitados e cumprimento dos calendários de fornecimento.
A título de exemplo, o Grupo Shoprite, considerado um dos maiores retalhistas de Moçambique e do Continente Africano, e que possui espaços de venda em quase todo o país, com a excepção das províncias de Cabo Delgado, Zambézia e Niassa, considerou como sendo um entrave a falta de qualidade que ainda caracteriza a apresentação de parte considerável dos produtos nacionais.
Danilo Pinheiro, gestor desta empresa, disse que ao longo dos últimos 20 anos formou uma carteira de 86 fornecedores depois de um processo que culminou com o afastamento de outros 1200 que não corresponderam às exigências de qualidade.
Segundo ele, com os actuais 86 fornecedores tem sido gerada uma carteira de negócios na ordem de cerca de 50 milhões de meticais, face a um volume de produção de perto de 1700 toneladas de hortícolas e frutas de diferentes espécies por ano.
Pinheiro disse que o seu grupo está aberto para se relacionar com novos fornecedores nacionais, desde que estes observem os requisitos de qualidade, tendo em conta que a maior parte dos clientes é cada vez mais exigente.
De referir que aquele grupo vai investir este ano na abertura de cinco novos supermercados que estarão localizados nas cidades de Pemba, Quelimane, Vilankulo, Chibuto e Beira, podendo ainda abrir um novo estabelecimento em Tete.
O representante do Shoprite disse que as dificuldades que encontram junto dos fornecedores resumem-se na “falta de consistência em termos da qualidade do produto, de ausência de regularidade no fornecimento, mudança de actividade, a não existência de meios para processar as hortícolas e de compreensão quanto à necessidade de efectuar o registo de marcas e sua certificação”.
O Shoprite propôs que se estabelecessem mecanismos para que os produtores nacionais puderem aumentar as suas áreas de produção, através de um processo de mecanização da actividade. “Os produtores devem ser aconselhados a encontrar equipamentos para o processamento básico, como são os casos de bancadas para a lavar, balanças de precisão, linhas de embalagem, entre outros”.
Ao sector da Indústria e Comércio, o grupo propôs que desenvolva mecanismos para o registo das marcas, qualidade das embalagens, rotulagem, introdução do Código de Barras e certificação das marcas.
“Se os nossos produtores conseguirem reunir estes requisitos acreditamos que vão aumentar as áreas de produção e os volumes de entrega, uma vez que haverá uma grande competição dentro do país e os preços vão baixar. Haverá um grande excedente de qualidade e vamos partir para a exportação”, disse, realçando que, no exercício anterior, foram exportados 630 milhões de meticais em banana para a África do Sul.
“Pedimos àqueles que têm a capacidade de produção de qualidade que aproveitem. São 1200 supermercados na nossa região, a que nós estamos ligados. Os produtos podem passar para qualquer lugar se tiverem qualidade”, destacou.
Por sua vez, o Premier Group (que era conhecido por MICA), outro dos supermercados instalados no nosso mercado, possui uma cadeia virada para a comercialização, incluindo uma diversidade de actividades, assente no “slogan” segundo o qual “você quer, nós temos”.
No que diz respeito às frutas e vegetais, Zainadine Dalsuco, representante daquele supermercado, disse que na comparação entre o nacional e o importado existe um défice bastante considerável.
Tomou como exemplo o ano passado no qual as compras de vegetais feitas junto dos produtores nacionais fixaram-se na ordem dos sete milhões de meticais, enquanto em frutas o volume de aquisição não foi além de oito milhões de meticais.
Em contrapartida, para compensar o défice que havia para satisfazer os clientes daquele grupo comercial, houve a necessidade de importar 20.8 milhões de rands em vegetais e frutas.
“Isto significa, claramente, que há um défice muito grande em termos de produção. Estamos a falar só da Premier. Sem falar da Shoprite, da Terra Mar e de todas as grandes superfícies que existem”, sublinhou.
Em termos económicos, a nossa fonte referiu que são centenas de milhões de rands que saem anualmente para a compra de frutas e vegetais no país vizinho. “Até alface. Se calhar, alguns compram a banana na África do Sul, esquecendo-se que essa é produzida em Moçambique. Isto acontece porque, em termos de fornecimento nacional, não há garantias de satisfação da demanda”, comentou.
Dalsuco disse que, quando interagem com os fornecedores, deparam-se com um mar de lamentações, o que resulta muita das vezes da falta de capacidade para satisfazer as necessidades do grupo e da não existência de continuidade na produção.
“Produzem de uma forma sazonal. Terminou a época e param por aí. Entretanto, o consumidor precisa todos os dias da batata, cenoura, cebola, entre outros artigos frescos. Quando interagimos com esses produtores, o que nos dizem é que têm dificuldades de acesso ao crédito, de escoamento, de irrigação, mas temos reparado no fim que a sua produção não nos garante qualidade”, disse, tendo realçado que, a cada ano que passa, a qualidade do consumidor está cada vez mais exigente.
No dizer do representante do “Premier Group”, esta realidade pode ser reflexo da estruturação do sistema de produção existente no país, que se baseia em moldes produtivos do tipo familiar, sazonal, virado apenas para o consumo, quando se devia estar focado para uma produção industrializada.
Dalsuco sugeriu ainda que se deve, paralelamente, incentivar o associativismo e o cooperativismo para uma produção “corporate” pois, a partir desse estágio, poderemos ter para oferecer, emprestar ou vender produtos para o vizinho.
No que concerne aos produtos importados, conforme referiu, as longas distâncias constituem um entrave, uma vez que não possibilitam estabelecer uma programação atempada. A título de exemplo, explicou que se há uma rotura de “stock” de cebola ou arroz e o produtor nacional não tem naquele momento, não se pode pedir que mandem um camião de imediato, uma vez que existem condicionamentos adversos, como de transferências bancárias de divisas, de desembaraço, entre outros.
Dalsuco disse que existe capacidade de absorção da produção nacional, mas que, para tal, há que tomar como ponto de partida três pressupostos básicos, nomeadamente a quantidade, qualidade e a padronização.
“O consumidor não deve comprar uma batata de dois centímetros, misturada com uma de quinze e outra de treze. Nós estamos dispostos a incentivar o produtor, adquirindo os produtos nacionais. Que se adoptem entrepostos frigoríficos da fruta, dando a sua função real que é de recepção, lavagem, processamento, empacotamento, distribuição e venda. Que o entreposto não seja apenas para a fruta, mas também para legumes, vegetais e outros produtos, frisou.

