TEXTO DE BERNARDO JEQUETE
“Sempre que saía de casa, cruzava com pessoas que me perguntavam como estavam os mortos, outros diziam que sou feiticeira e havia também quem afirmava que sou muito corajosa. Foi assim durante os primeiros de trabalho na Morgue do Hospital Provincial de Chimoio (HPC)”, conta Maria Arlindo.
De 43 anos, mãe de cinco filhos e já avó de uma neta, Maria Arlindo diz que perdeu muitos amigos por exercer a tanatopraxia, profissão que consiste em conservar, higienizar, restaurar e até maquilhar corpos falecidos para serem levados ao velório, mantendo a sua aparência natural que oferece conforto à família do finado e também segurança sanitária.
Por se tratar de um ofício que lida com a morte, Maria refere que muitos amigos e familiares deixaram de saudá-la com um aperto de mãos, abraços ou beijinhos na face. “Passei a ser estigmatizada e discriminada como se sofresse de uma doença altamente contagiosa e perigosa”. Todavia, e ao contrário de quase todos que a rodeiam, afirma que não vê nada de errado numa pessoa morta. “É como se estivesse diante de alguém que está a dormir apenas. Acho que as pessoas deviam respeitar-nos porque prestamos um trabalho nobre”.
Com olhar de tristeza e comovida pelo distanciamento social a que está sujeita em razão da sua profissão, Maria afirma que é apenas uma trabalhadora que procura oportunidades para organizar a sua vida. “Se deres tanta atenção à voz da sociedade, nunca vais alcançar os teus sonhos. Tens de ser forte e focado no que queres”.
Conta ainda que, nos primeiros meses de trabalho, não conseguia dormir por pensar em tudo o que via na morgue. “Tinha alucinações, mas graças ao apoio que recebi dos meus colegas, consegui superar. Hoje, vejo os mortos como indivíduos que estão a dormir”.
Também relata que, enquanto as pessoas estão vivas, elas convivem, porém, quando uma delas morre se distanciam imediatamente a ponto de não conseguirem carregar o corpo para ser conservado no sistema de frio da morgue. “Muitos até evitam olhar, mas nós tratamos sem qualquer problema”. Leia mais…

