Reportagem fotográfica de Alfredo Mueche
Um punhado de lenha não justifica o fim da floresta, nem sequer vale o combustível que mantém acesos todos os fogões da vida.
A floresta não pode ser permanentemente desafiada pelos nossos próprios dilemas existenciais. Estas são estórias de cortar o coração de quem as vê, incluindo o do jornalista, grande e imenso, de máquina fotográfica a tiracolo, que registou o limiar entre a vida e a morte de cada uma das árvores transformadas em cotos, de dor e de sangue.
A estória que o Alfredo Mueche nos conta, nosso companheiro na reserva e de todos os afectos, é uma de entre muitas que acontecem todos os dias nas geografias mais díspares da nossa flora, onde a sobrevivência das comunidades não pode justificar a erradicação da floresta.
A floresta de Matola-Rio tem estórias de entrecortar e de soluçar, como todas as outras florestas incandescentes que terminam à boca dos fornos; ou de outras tantas que enchem os bolsos de riqueza dos apóstolos da madeira para exportação.
Estas não são apenas estórias de corte e sedução, de vida e de morte, são estórias que falam de quão importante se torna a sustentabilidade perante o genocídio florestal, um atentado a nós mesmos e a cada punhado de oxigénio que se esvai nas folhas assassinadas.
Há-de haver formas de não matar a floresta, de ouvir os seus gritos moribundos; como o gás que nos vai chegar de Inhassoro para alimentar os fogões e aliviar a pressão sobre o manto verde; como uma nova teorização do corte: por cada árvore tombada, plantem cinco!
Só assim vamos preservar a nossa própria História, os nossos balões de oxigénio de hoje, mas sobretudo de amanhã, porque todas as árvores têm uma estória para contar, inscritas precisamente por onde se abate o machado assassino ou se apoia a serra genocida.
Obrigado por tudo isto nos recordares, Alfredo!
TEXTO DE ALMIRO SANTOS

