Internacional

TENSÃO NA CAXEMIRA: Quando a “guerra de palavras” é preferível ao confronto militar

A Índia e o Paquistão, um país dividido em dois por diferenças religiosas, deixaram o mundo em alerta máximo quando se ouviram “tiros” vindos dos dois lados da fronteira. Um incidente incitado por um atentado bombista perpetrado pelo Jaish-e-Muhammad (JeM), um grupo armado baseado no Paquistão, e que ceifou a vida de 42 indianos no dia 14 de Fevereiro, quase que mergulhava as duas potências nucleares em mais uma guerra. No entanto, o discernimento das lideranças sobre o perigo de uma guerra nuclear levou à redução da tensão entre ambas as partes, ainda que depois de uma “guerra de palavras” em que cada um dos “irmãos” pretendia fazer uma demonstração de força. Embora as animosidades permaneçam na Caxemira, o não deflagrar de mais uma guerra entre os dois “irmãos” mostra a racionalidade das lideranças em face dos riscos de aniquilação mútua devido à posse de armas nucleares.

Em relações internacionais, o termo racional tem sido usado no processo de tomada de decisão em política externa. A racionalidade refere-se à ideia de que, ao tomar decisões, os líderes olham para as alternativas existentes, em termos de capacidades disponíveis ao Estado, a probabilidade de alcance dos objectivos pretendidos, e optam pela alternativa que maximiza os ganhos e minimiza as perdas. Por outro lado, a posse de armas nucleares popularizou o conceito de dissuasão, que é uma forma de persuasão na estratégia militar cujo ímpeto é passar, a potenciais adversários ou inimigos, a mensagem de que “é melhor não me atacares, pois, se o fizeres, algo terrível vai te acontecer”. A posse de armas nucleares, portanto, tem sido vista como a garantia de que potenciais ameaças à segurança nacional serão dissuadidas de eventuais aventuras militares que possam ter contra Estados que possuam este tipo de armas.

Na história da sua existência como Estados soberanos, desde a divisão da Índia em dois países em 1947, a Índia e o Paquistão já travaram quatro guerras, três delas relacionadas com a disputa sobre a Caxemira. Os dois países reivindicam o controlo sobre a totalidade da Caxemira e, por essa razão, para além das guerras travadas tem havido regularmente distúrbios ao longo da Linha de Controlo, que constitui a fronteira entre os dois países naquele território. Para além destes dois contendores, a China também tem jogado algum papel, ainda que mínimo, na disputa sobre a Caxemira. Em termos de controlo, a Índia administra aproximadamente 43% da região, o Paquistão 37% e a China 20% da maioria das áreas inabitadas.

O ataque “terrorista” de 14 de Fevereiro levou a uma resposta indiana que poderia ter conduzido os “irmãos” à guerra. Doze dias após o ataque do JeM, aviões de guerra indianos entraram no território paquistanês e reivindicaram ter bombardeado um campo de treinos daquele grupo e morto “muitos rebeldes”. Entretanto, as autoridades paquistanesas confirmaram os bombardeamentos mas desmentiram a informação de ter havido mortos do seu lado. Aliás, os paquistaneses fizeram saber que a área bombardeada era, na verdade, uma zona inabitada. Instalou-se uma “guerra de palavras” entre Nova Deli e Islamabad, entre acusações e contra-acusações, que fez temer que os dois países pudessem descambar em mais uma guerra. Depois de ter abatido um avião indiano e capturado o piloto, num “gesto de boa vontade” o Paquistão devolveu o piloto às autoridades indianas. A tensão entre os dois países retrocedeu, mas as confusões dobre a Caxemira continuam ainda pendentes.

Texto de Edson Muirazeque *
edson.muirazeque@gmail.com

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