Internacional

Judeus deixam Europa

As chegadas a Israel de judeus franceses dispararam. Após os atentados de París e Copenhaga, governo de Netanyahu aprova plano para os acolher em massa.

Valerá a pena partir? Deixar a casa, o emprego, a escola, os amigos e familiares? Firmar estacas numa terra cuja língua não fala, com um clima diferente e códigos sociais diversos? “Esta onda de ataques continuará. Digo aos judeus da Europa: Israel é o seu lugar. Estamos à espera de todos judeus da Europa de braços abertos”. Para Benjamim Netanyahu, o primeiro-ministro israelita, vale mesmo a pena.

O apelo foi feito menos de 24 horas depois do atentado a uma sinagoga em Copenhaga, na Dinamarca, no sábado, que resultou na morte de um judeu de 37 anos. E seguiu-se a outra declaração semelhante, feita no rescaldo de um ataque a um supermercado kosher, em París, a 9 de Janeiro, em que morreram quatro judeus.

“Eu não encontro um país no mundo que seja suficientemente seguro. Em Israel há guerra. Nos Estados Unidos pode haver outro atentado terrorista. Partir não mudará nada”. É assim que Marc Krief, rabi na sinagoga de Vincennes-Saint-Mandé, o bairro de París onde ocorreu o ataque ao supermercado, responde aos que planeiam emigrar para Israel. Também Jair Melchior, o rabi-chefe da Dinamarca, ironizou quando o apelo de Netanyahu se fez ouvir.

“Se a forma de lidar com o terror é fugir para outro lado, devíamos fugir todos para uma ilha deserta.”

Mas para o primeiro-ministro, o apelo para que os judeus europeus partam para Israel é da praxe, sempre que há um atentado, e agora uma forma de ganhar votos, em casa, onde disputa ao milímetro uma renhida eleição. A verdade é que, com ou sem apelos, a emigração de judeus europeus para Israel está num crescendo. Em 2014, um ano recorde, foi contabilizada a entrada de 26 mil e 500 pessoas no país, um aumento de 32 por cento face aos 12 meses anteriores. Cerca de 7 mil recém chegados eram judeus franceses.

“Há uma percepção largamente partilhada de que a Europa se tornou mais perigosa para os judeus. Há mais atentados, incidentes, violência, insegurança para os judeus identificados como tal, nomeadamente junto das suas instituições, escolas e sinagogas”, declara Yigal Palmor, porta-voz da Agência Judia para Israel, a organização que apoia os que pretendem mudar-se para o país do Médio Oriente.

Para 2015, a agência previa a chegada de 10 mil judeus franceses. Mas depois dos atentados de Janeiro, assistiu-se “a um aumento dramático de número de apelos, de pedidos de informação, de inscrições em sessões de informação”, nota Yigal Palmor. Neste momento, a organização prevê que o número possa chegar aos 15 mil.

UM PEDAÇO DE FRANÇA NO MÉDIO ORIENTE

Para Jennifer Sebag, uma agente imobiliária de Saint- Mandé, a decisão está tomada: no verão, ela, o marido e os três filhos trocarão o apartamento luminoso e arejado, de onde vem uma rua movimentada e cheia de lojas, por Israel, onde não conhecem ninguém. Também Aaron Sultan, 20 anos, o cortador que trabalha num talho a duas portas de distância do supermercado atacado, disse à reportagem do Washington post que planeia ir para Israel, com a namorada, recomeçar a sua vida. “É difícil partir, mas quando não nos sentimos seguros, não temos escolha”, justificou.

No Reino Unido, os incidentes contra judeus também aumentaram. Segundo dados da Community Security Trust, que desde 1984 mantém uma base de dados sobre estes casos, em 2014 foram registados 1168 incidentes, mais do dobro dos do ano anterior. Luciana Beger, a trabalhista nomeada ministra-sombra da Saúde, foi uma das vítimas de uma campanha de ódio na internet. Os registos também dão conta de adolescentes de escolas judias que foram ameaçadas por um indivíduo que se propôs a convertê-las ao cristianismo ou matá-las “se continuassem a ser judias”.

No domingo, 15, o conselho de ministros israelita aprovou um programa de incentivo ao acolhimento de judeus da Ucrânia, da França e da Bélgica. São mais de 40 milhões de euros para assegurar que os judeus fugidos da guerra na Ucrânia ou aterrorizados com o ataque ao Museu Judeu da Bélgica (em Maio de 2014) e ao supermercado de parís têm um acolhimento adequado.

A imigração está inscrita na génese do estado de Israel, mesmo antes do abandono dos ingleses e da Guerra da Independência (1947-48). Nos primeiros anos, o povoamento foi feito com os refugiados que sobreviveram ao Holocausto. Nos anos seguintes, vieram da Europa ou de países do Norte de África, e, a partir dos anos 80-90, da Etiópia e do desmembrado império soviético. Agora, são os franceses que predominam na Ulpan Etzion, a escola de Jerusalém que desde 1949 recebe os imigrantes que precisam de aprender a língua e a cultura do seu novo país.

Netanya, uma cidade de 180 mil habitantes, a norte de Telavive, junto à costa mediterrânica, tornou-se a capital francesa de Israel. Muitos dos seus residentes são reformados atraídos pelo sol e pelo mar, que jogam petanca numa das suas praças e vivem tu-cá-tu-lá entre Israel e França. Os recém chegados contrastam com esta comunidade mais idosa, pois pretendem fixar-se em definitivo naquele que adoptaram seus país. “Julgava que ia ser mais fácil”, queixa-se Jerome Bonnenfant, 38 anos, que acabou de abrir uma pastelaria no centro da cidade, apesar da burocracia local.

“Isto pode ser a terra prometida mas não vem com garantia”, ironiza Kostewa, o director da escola Ulpan Etzion, habituado a lidar com milhares de imigrantes.

FOGUEIRA ELEITORAL

Embora renhida, a disputa eleitoral pela maioria no Knesset, o parlamento israelita, parece estar a correr bem ao actual primeiro-ministro. Bibi, como é conhecido, defronta Isaac Herzog, ou Buji, o líder da União Sionista, que integra o Partido Trabalhista.

As antevisões do acto eleitoral de 17 de Marco dão um empate técnico, com cada um dos principais concorrentes a recolher cerca de 26 por cento dos votos. Outras pesquisas eleitorais mostram, contudo, que Buji, há vários anos eleito para o parlamento, é muito pouco conhecido: 20 por cento dos eleitores dizem não ter opinião sobre ele ou nunca terem ouvido falar dele, segundo um inquérito realizado pelo Times of Israel.

Se as negociações do grupo P5+1 (os cinco países com assento permanente no Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha) relativas ao programa nuclear do Irão forem concluídas, tal pode representar uma pedra no sapato para Netanyahu, que lidera o conservador Likud e é primeiro-ministro há 10 anos. A obsessão securitária – e a oposição ao programa nuclear iraniano – sempre foi a pedra de toque para a formação de governos liderados pelo Likud. Os analistas acreditam que se o Irão conseguir levar seu programa avante, o Likud pode ser prejudicado. O grande teste é o discurso que Netanyahu proferirá no Congresso norte-americano, a 3 de Março, precisamente sobre o programa nuclear iraniano.

A maior vantagem de Netanyahu, contudo, poderá ser o equilíbrio de forças que resultar das eleições de 17 de Março. Mesmo que seja o segundo partido mais votado, os analistas consideram que lhe será mais fácil obter os apoios, junto de outros partidos de direita, para a formação de governo. Não seria inédito: em 2009, o Likud obteve menos assentos parlamentares (27) do que o partido mais votado (28), mas acabou por ser a formação política chamada a governar.

Os apelos para a imigração em massa para Israel, que tanto tem consternado dirigentes europeus, são provavelmente mais uma acha nesta fogueira eleitoral. Mas para os judeus europeus, arredados desta contenda, a questão é outra, assim sintetizada por Alain Assouline, médico e presidente de um centro comunitário judeu em París: “Em 1933 havia dois tipos de judeus – os pessimistas e os optimistas. Os pessimistas fugiram para os Estados unidos. Os optimistas acabaram nos campos da morte.”

 

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