Internacional

Já disse muitas asneiras na vida!

Acredita que o seu país está bem entregue e vai continuar a ser um caso de sucesso. Ramos-Horta, Nobel da Paz de 1996, deixou a presidência há sete meses e admite estar a aproveitar 

muito bem a sua liberdade.

 

Em Maio, cedeu o lugar de Chefe de Estado a Taur Matan Ruak e, desde então, tornou-se um reformado de luxo da política de Timor-Leste e um andarilho global. Tal como Bill Clinton ou Tony Blair, José Ramos-Horta passou a integrar a lista de  antigos dirigentes que passam o tempo em viagens pelos cinco cantos do mundo para dar todo o tipo de conferências pagas proporcionalmente ao seu prestígio internacional. No final do mês, tem à sua espera um novo desafio pessoal e diplomático, quando assumir funções como enviado especial do Secretário-geral das Nações Unidas para a Guiné-Bissau. Um cargo que, confessa, lhe pode provocar alguns constrangimentos por impedi-lo de dizer o que realmente pensa. A entrevista é da revista Visão.  

Após ter abandonado a presidência, afirmou que lhe tiraram um enorme fardo de cima. É hoje um homem mais livre?

A verdade é que, nestes últimos meses, deleitei-me com a minha liberdade. Mas não se entenda isto como sinónimo de ociosidade. Logo em Junho, por exemplo, aceitei o convite do Presidente Taur Matan Ruak, o meu sucessor, para representar Timor-Leste na cimeira do Rio-20. Tenho viajado imenso, dei mais de 20 palestras – nos EUA, Japão, Suíça, Alemanha, Singapura, Tailândia, Austrália… Tenho estado muito ocupado, a diferença é que não sou obrigado a preocupar-me com problemas de política e segurança em Timor-Leste. Durmo tranquilo e acordo tranquilo, as dores de cabeça em relação ao que acontece em Timor-Leste ficaram para o Presidente e para o Primeiro-ministro.

Curioso que a sua reforma da política timorense lhe permita agora ter maior visibilidade internacional…

Eu nunca deixei de ter visibilidade a nível internacional. Mesmo quando estava na chefia do Estado, publiquei artigos no Washington Post, no International Herald Tribune, no New York Times. Sempre opinei sobre aquilo que me parecia mais oportuno, fosse a Síria ou a Birmânia… Mas agora, ser representante especial do Secretário-geral para a Guiné-Bissau impõe-me alguns constrangimentos. Tenho um Secretário-geral a que devo todo o respeito, a ele e aos 193 membros da ONU.

Já que fala da Guiné-Bissau e da sua nomeação para mediador do conflito naquele país, a sua amizade com o ex-primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior não lhe provoca nenhum tipo de constrangimento?

Bom, eu não diria amizade, porque não conheço assim tão bem o dr. Carlos Gomes Júnior. No plano pessoal, não posso colocá-lo, por exemplo, ao nível da relação que tenho com Joaquim Chissano, personalidade que conheço há mais de 30 anos…

Permita que insista nos constrangimentos. Há apenas um mês subscreveu uma carta enviada ao novo Presidente da China, apelando à libertação do Nobel da Paz Liu Xiaobo. Esta a dizer que não voltará a ter esse tipo de tomadas de posição?

Se eu aceito um cargo na ONU, com o estatuto de Secretário-geral adjunto, não represento o José Ramos-Horta.

Portanto não voltara a criticar a China…

Enquanto me mantiver nestas funções, não posso fazer nada a que não seja dada luz verde pelo Secretário-geral… Mas é importante que se saiba que eu tenho excelentes relações com a China. A China considera-me um amigo. Mais. O meu filho, Loro Horto, é um respeitado especialista nesse país. Ele tem três mestrados e um deles foi tirado na Universidade Militar de Pequim – e com notas tão boas que lhe deram o título honorífico de coronel do exército chinês. Agora está a concluir o doutoramento em Singapura sobre a doutrina naval chinesa.

Admite concorrer a Secretário-geral da ONU quando Ban Ki-Moon terminar o segundo mandato, no final de 2016?

Essa possibilidade está excluída. A não ser numa outra vida, na minha próxima reencarnação – algo em que eu até acredito. Depois de Ban Ki-Moon, um asiático, os europeus vão digladiar-se em grande para que o cargo de Secretário-geral seja ocupado por um europeu. Vai ser muito interessante observar a cena! (risos).

E pondera apoiar algum candidato que, entretanto, surja?

Creio ser demasiado cedo, mas a Europa pode apresentar candidatos brilhantes. Um deles é Durão Barroso. Mas haverá outros candidatos. Os nórdicos vão querer novamente o lugar, os polacos também devem dizer que nunca houve um Secretário-geral da Europa do Leste…

Depois de três décadas de luta por Timor-Leste, ainda há alguma causa que o mova para lutar pelo poder?

Pelo poder não, mas há causas que ainda me partem o coração! Por exemplo, a situação dos palestinianos. Sessenta anos depois, continua sem haver uma solução. Vinte anos depois dos acordos de Oslo, continuam a ver negado o seu direito a um Estado palestiniano livre e independente, a viverem em paz com Israel.

Dizer o que pensa ainda o prejudica?

Já disse muitas asneiras ao longo da minha vida!

Há um mês, numa entrevista à Al Jazeera, afirmou que tinha muitas dúvidas sobre se valia a pena perder-se uma única vida humana para que um país atingisse a independência…

Já o tinha dito antes, mais do que uma vez. Nenhuma causa deverá justificar a morte. Mas nós sabemos que as pessoas aceitam morrer por uma causa, por uma religião, sempre assim foi na história da humanidade. Eu próprio perdi uma irmã e três irmãos na guerra pela independência de Timor-Leste. A nós, os vivos, resta saber honrar a memória deles e tudo fazer para não trair essa memória. Caso contrário, para quê tantas mortes e tantos sacrifícios?

D. Basílio do Nascimento, bispo de Baucau, afirmou, recentemente, que o nepotismo e a corrupção são os grandes  problemas de Timor-Leste. Quer comentar?

Bom, em relação ao nepotismo eu nem percebo. O Presidente não tem nenhum irmão, nenhum sobrinho, nenhum primo ligado ao poder político ou empresarial. O Primeiro-ministro, Xanana, também não tem nenhuma irmã, nenhum tio na alta chefia do Estado ou das forças armadas…

E quanto à corrupção?

A International Transparency, no seu último relatório, revelou que Timor-Leste está no bom caminho e subiu 19 lugares no ranking. Criaram-se, no país, muitos instrumentos e instituições de luta contra a corrupção que são quase um modelo em toda a Ásia. Temos de recordar que os tribunais timorenses condenaram à prisão uma ministra da Justiça. Portanto, é preciso tirar o chapéu à justiça timorense! Por outro lado, os dados mais recentes da ONU também demonstram que a pobreza está a diminuir, a mortalidade infantil baixou para metade, nos últimos três ou quatro anos. Acredito que os próximos anos vão ser de grande crescimento económico, num clima de paz e estabilidade.

Está, pois, optimista em relação ao futuro imediato do seu país, apesar da retirada das forças internacionais da ONU?

Sim. O país está bem entregue, está em boas mãos. Nós temos líderes credíveis, estou muito confiante.

Num artigo que publicou no diário indonésio Jakarta Post escreveu que, daqui a dez anos, metade dos timorenses falará português. Timor é indispensável para defender os interesses da lusofonia na Ásia?

A língua não é uma mera questão de geopolítica. É uma questão. Temos uma história de 500 anos, aquilo que é hoje o povo timorense resulta da colonização portuguesa. A verdade é que o português já é falado por mais de 20% da população. Ironicamente, mais do dobro da percentagem de timorenses que falavam português em 1974. Timor-Leste independente fez mais pela língua portuguesa do que o Portugal colonial até ao 25 de Abril. Isto é um enorme sucesso, é espectacular!  

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