Chegámos a operar à luz da vela

- Fernanda Machungo, ginecologista-obstetra que esteve ao serviço da Saúde durante 39 anos

Foi a primeira mulher a fazer parte do Estado-Maior General. Formou-se em Medicina em 1973 e servia numa clínica geral em Lisboa-Portugal. Abandonou, em 1974, os estudos e foi à Tanzânia juntar-se ao movimento de libertação do país - FRELIMO. Lá foi destacada para várias missões de saúde, estando no Exército. A sua entrega à causa mereceu um reconhecimento imediato pelo Presidente Samora Machel que a indicou para chefiar o Departamento de Saúde Militar. Ao longo dos 39 anos que serviu a Saúde, salvou vidas e empenhou-se na aprovação do aborto seguro que reduziu consideravelmente a morte de muitas raparigas e não só. O seu trabalho de investigação contribuiu para a introdução de uma nova lei em Moçambique, que permite aborto seguro até à 12.ª semana da gravidez.

O seu nome é Fernanda Machungo, especialista em obstetrícia e ginecologia. Mesmo reformada, continua a emprestar o seu saber através de colaborações com diversas organizações, que muito fazem para minorar o sofrimento da rapariga.

A sua família, em especial o seu pai, influenciou-a para a sua formação?

Se hoje sou médica devo-o ao meu falecido pai, que tinha sido enfermeiro e gostava de ter um dos filhos médico.

Foi obrigada?

Embora não me tenha obrigado a isso senti-me na obrigação de o satisfazer. Hoje sou gineco-obstetra. Entretanto, devo-o também ao Presidente Samora Machel, pela grande visão que tinha do país.

Como foi a contribuição do Presidente Samora?

Quando expus o meu desejo de sair do Departamento de Saúde Militar, para fazer especialidade no Hospital Central de Maputo, ele perguntou-me que especialidade eu pretendia fazer. Respondi-lhe que seria cardiologia ou medicina interna. Ele só me disse: “filha, a prioridade em Moçambique são as crianças e as mulheres”. Entendi e respondi: “vou fazer ginecologia e obstetrícia”. Volvidos estes anos não estou arrependida das decisões que tomei.

No dia do último adeus à Dr.ª Maria Luísa Almeida, senti um ar de tristeza e solidão em si...

Quero também render especial homenagem à Prof.ª Dr.ª Maria Luísa Almeida, que nos deixou há dias. Ela e o Professor Bugalho foram os meus primeiros professores durante a minha pós-graduação. A eles devo a minha formação como especialista. Terminei o curso na altura chamado médico-cirúrgico na Universidade de Lourenço Marques em 1973. Em Janeiro de 1974 rumei a Lisboa para fazer o internato policlínico. Fi-lo no Hospital de Santa Maria, mas não terminei, pois fui à Tanzânia...

Consta-me que foi logo nomeada chefe...

Ainda em 1974, fui designada para chefiar o Grupo de Saúde na Comissão Militar Mista (CMM). Mais uma vez, aqui, o papel do Presidente Samora em pôr uma mulher a chefiar esta comissão. Era pôr em prática a importância que ele dava à luta pela emancipação da mulher. Após a Independência, fui nomeada chefe do Departamento de Saúde Militar. Mais uma vez, o Presidente Samora, respeitando o seu princípio de igualdade de género, nomeou-me membro do Estado Maior-General das Forças Populares de Libertação de Moçambique (FPLM). Em 1981, iniciei a minha especialidade no HCM e, ao terminar, fiquei afecta ao Departamento de Ginecologia e Obstetrícia do HCM até à minha Reforma em 2013.

Texto de Frederico Jamisse

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