O pecado da magreza

Até aos 2 anos era rechonchuda. Mas, “à medida que fui crescendo, perdi o corpo, fiquei magra”, conta Nilza, uma jovem esposa e mãe à reportagem do domingo. Acrescenta na sequência que nunca foi boa de garfo, sendo que “sempre tive falta de apetite e, com o andar do tempo, desenvolvi problemas gástricos. Após consultar-me aos médicos, em 2017, fui submetida a uma endoscopia digestiva, mas nada foi detectado”.

Mesmo assim, os distúrbios digestivos não davam sossego. Com efeito, dois anos depois, em 2019, “fui encaminhada ao departamento de otorinolaringologia para fazer outros exames. Chegou-se a considerar a hipótese de a tireoide estar descontrolada, de eu estar a sofrer de hipotireoidismo, uma disfunção na tireoide (glândula que regula importantes órgãos do organismo), no entanto concluiu-se que nada disto constituía problema.

No dia-a-dia, o seu quase 1,80 m de altura, distribuído num corpo esbelto digno de uma passarela, desfila parando quarteirões, mas também acarretando más falas, inclusive em locais como a igreja, onde “as mulheres mais ‘cheias’ acham que estou doente. No ano passado (2019), uma mãe da igreja perguntou-me por que motivo não engordo. Isso roeu-me por dentro. Cheguei a pensar que algo estava errado comigo. Fui ao carro e desatei a chorar. Quando o meu marido se apercebeu da situação chateou-se comigo e disse: ‘isso não saiu da minha boca, por isso não deves te preocupar. Eu, teu marido, gosto de ti assim’”.

Entretanto, no meio de tanta falação há quem afirma de viva voz que, sendo magra, sente-se confortável. Falamos de Neli Gonçalves, de Gaza, estudante de Direito, que garante estar bem de saúde e obrigada, sob ponto de vista físico e psicológico.

Aliás, só encontra motivos para aceitar e gostar da sua magreza, pois “na família da minha mãe há pessoas acima do peso, e a minha prima já sofreu bulying por ser gorda”, por tal, definitivamente, “passei a sentir-me confortável com o meu corpo”.  

Ainda assim, não pára de ouvir testemunhos que atentam ao seu posicionamento. “Muita gente tem-me dito: ‘eu já fui magra, mas depois fiquei gorda...’, insinuando que já estaria na hora (Neli tem 27 anos) de aumentar de peso”.

Ao que tudo indica, a sociedade não perdoa, o que eventualmente obriga a quem coloca um filho no mundo a exercer o seu poder e cobrar do seu mais colheradas goela abaixo. “Quando eu era criança, a minha mãe pedia que eu comesse mais, pois desde essa altura tenho problemas de apetite”, diz, por seu turno, Filimão Remédio, trabalhador, dono de um corpo magro.

Hoje, com quase 30 anos de idade, pesa 60 quilos estendidos por aproximademente 1,70 m de altura. Mas a sua relação com o prato, essa, continua na mesma: “não gosto de comer, a não ser uma boa cacana”, no entanto, não reclama de qualquer problema de saúde, “sinto-me bem fisica e psicologicamente”.

FICO ATENTO

AO MEU PESO

Entretanto, há quem controla o excesso de peso do seu corpo. Este é o caso de Ali Saíde Abdala, trabalhador, residente em Nacala-Porto.

Em primeiro lugar, conta que muitos membros da sua família são obesos, da parte do pai e da mãe.

Ora, falando do histórico do seu próprio corpo, afirma que, “até à juventude, eu não tinha excesso de peso. Entretanto, quando terminei a faculdade e comecei a trabalhar, foi aumentando”.

O facto deixa-o preocupado e fá-lo correr “atrás do prejuízo”, sobretudo para evitar doenças como diabetes e outras mais. Assim, “fico feliz com setenta e poucos quilos. Quando atinjo os 80, começo a ficar preocupado”, confessa.

TEXTO DE CAROL BANZE

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FOTOS DE C. UQUEIO

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