O Engenheiro Filipe Nyusi é o actual Presidente da República de Moçambique de que todos que não o conheceram antes desse cargo falam hoje por conta duma entrevista que concedeu à RDP/RTP-África na sua recente visita a Portugal. Avaliam-no como tendo estado nervoso a espaços ou criticam-no por causa fútil da construção frásica na língua portuguesa.

Fiz uma reunião virtual com quem conheceu o Chefe de Estado antes e todos chegaram à seguinte conclusão: aquele é o Engenheiro Nyusi que conhecemos, provocaram-no e “bombou-as”; aquele que sempre disse que não estava preocupado em falar bem (apesar de escrever até de forma artística) a sua quarta língua (português), depois de shimaconde, kiswahili, inglês, antes do checo.

Sempre disse que, na qualidade de Engenheiro, o que lhe importava eram os resultados do que faz, que falam todas as línguas do mundo, incluindo as cinco que cruzaram o seu percurso de formação como homem. Fala shimaconde, desde que nasceu, quase concomitantemente, o kiswahili. A seguir o inglês, depois a língua portuguesa, para aprender a língua do colonizador e, no fim, o checo, que lhe fez engenheiro.

Foi com essas posições que os Portos e Caminhos de Ferro de Moçambique, na grande região setentrional, brilharam durante 13 anos em que ficou a dirigir a empresa, mesmo em tempos de crise e de necessidade de redimensionamento da mão-de-obra, quando foi necessário, tendo chegado a dar salário a outras regiões do país que então não produziam o suficiente para a sua sobrevivência.

A primeira aparição pública (mas discreta) para os jornalistas de Nampula (a sede da empresa), onde era director executivo regional, aconteceu quando o correspondente da AIM, Vasco da Gama, viu muitos (?) fardos de algodão-caroço no alpendre dos CFM, com destino ao Malawi, durante algumas semanas. Quis saber disso e o Engenheiro disse que era verdade. No dia seguinte, a AIM publica no “notícias” de que havia muitas toneladas de algodão que não estavam a ser escoadas, dando a ideia de que havia negligência.

O passo seguinte foi que o Engenheiro sugeriu que tomássemos um café em que o tema no fundo era “noção da grandeza”. No encontro, Nyusi pediu que nós, jornalistas, não nos considerássemos sabichões de todas as áreas, mas que cultivássemos humilde e constantemente o nosso espírito e vontade de aprender mesmo com as fontes. Foi uma oportunidade em que voltámos a saber que uma entrevista, em muitos casos, acaba comportando-se como uma aula em que cada uma das partes (professor/aluno) pode aprender ou ensinar.

Dito isto, acrescentou que a notícia sobre “muitas toneladas de algodão” no alpendre da estação ferroviária poderia ser uma verdadeira bala saída pela culatra da arma do jornalista, se bem que 10 toneladas de algodão nunca poderiam fazer movimentar um vagão de cerca de 40 toneladas, ainda mais para a exportação. Entrava em jogo a gestão.

Que era o problema da falta de noção de grandeza que ficava evidente perante os conhecedores da matéria, em forma de dificuldades do jornalista que escreveu o texto e o jornal que publicou a notícia. Quem então quis, aprendeu!

A verdade é que nós, os jornalistas, uma das formas que evidencia o facto de as nossas perguntas não serem nossas (encomendadas) transpira na nossa arrogância de que nos revestimos quando lançamos as questões. Nestas condições o respondente (entrevistado) dirige as suas respostas não a nós, mas aos prováveis remetentes. E quando a bala nos sai pela culatra corremos a dizer que o entrevistado não dominava o dossier, simplesmente porque os meios de comunicação de massas estão ao nosso cuidado.

Foi assim que Samora Machel, primeiro Presidente de Moçambique Independente, pouco tempo depois de o Tenente Adriano Francisco Bomba, piloto-aviador de um caça-bombardeiro de fabrico russo, Mig-17, ter fugido com o aparelho para a África do Sul, em 8 de Julho de 1981, manteve uma conversa azeda com um jornalista sul-africano, quando visitava o Botswana.

Na conferência de Imprensa, o jornalista quis saber do comentário do Presidente ao facto de o piloto ter desertado, na companhia do aparelho, para a terra dos Botha.

Samora enervou-se e perguntou ao jornalista se sendo negro sul-africano onde iria publicar as respostas do Presidente moçambicano. Respondeu dando o nome do jornal, por sinal, que circulava somente no Sowetho, um dos bairros segregados.

Machel não se interessou pela pergunta, mas por quem estaria por detrás da mesma e passou a entrevistador:

‒Quantos pilotos negros a África do Sul têm?

Face à resposta negativa (porque de facto não tinha), Samora Machel disse que sim, tinha um e único, no caso, Adriano Bomba, que acabava de vir de Moçambique.

No dia 25 de Setembro de 1985, de novo Samora Machel, achando-se em Nova Iorque na Assembleia Geral da ONU, o paiol de Malhazine, arredores de Maputo, começa a explodir, o que levou a Imprensa Internacional, sobretudo a da Europa do Leste, a vaticinar que se tratasse de um golpe de Estado. Com essa ideia preconcebida os jornalistas foram ao hotel onde se encontrava hospedado para colher as últimas palavras do presidente pretensamente deposto.

A essa pergunta em concreto, Samora Machel disse que em Moçambique não era possível um golpe de Estado. A seguir, pediu a Joaquim Chissano, então ministro dos Negócios Estrangeiros, que lhe servisse um conhaque e telefonasse a Alberto Chipande, ministro da Defesa, para saber o que se estava a passar. Tudo em directo!

Chissano informa que era o paiol a explodir, ao que Samora Machel virou para os jornalistas para dar a resposta que acabava de receber do seu ministro dos Negócios Estrangeiros.

Na mesma viagem, desta feita, jornalistas ocidentais “provocaram” Samora Machel ao dizerem que teria virado para o Ocidente em detrimento do Leste, de tal jeito que até vestia um fato comprado na França.

Nem mais, o nosso Presidente desabotoou o casaco e virou a gola, para deixar visível a etiqueta onde vinha escrito Made In Romania. Acrescentou dizendo que os socialistas também tinham o gosto pelo belo.

A viagem de regresso à casa foi feita via Itália, no dia 29 de Setembro, aniversário de Samora Machel, que as reportagens da altura falavam de uma surpresa da tripulação, em que não faltou o corte do bolo, em pleno voo, com canções revolucionárias à mistura.

Do aeroporto de Maputo, onde era esperado pelos membros do Bureau Político e do Governo, o Presidente foi desencaminhado: em vez de ir à Ponta Vermelha, levaram-no ao Parque do Campismo, dos lados da Costa do Sol, onde uma verdadeira festa estava à sua espera.

Ora, a nossa história não termina por aqui, em razão de uma pergunta mais ou menos inesperada e fora do contexto, Joaquim Chissano, enquanto Presidente da República, chamou malcriado ao colega Francisco Júnior, da TVM. Levou tempo para que a classe se esquecesse disso.

Entrámos no reino em que éramos “apóstolos da desgraça” e ficámos literalmente calados. Quem se esqueceu?

Estes factos aconteceram e pretendemos refrescar a memória de alguns compatriotas e nalguns casos para não dizer por dizer.

Por Pedro Nacuo
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