Fui há dias ao distrito de Nhamatanda, na província de Sofala. Na minha missão pude chegar a Metuchira, um povoado bastante afectado pelo ciclone Idai. Lá pude visitar um acampamento onde as famílias estão aglomeradas. Melhor dizer: onde vivem as famílias retiradas das zonas afectadas.

Mesmo com a situação caótica, pode-se constatar no terreno que há um esforço de gradualmente devolver a dignidade àquelas pessoas. Infelizmente, o que foi destruído e o nível de destruição, assim como o número dos que necessitam de assistência não permite que se faça uma reposição e assistência a todos da forma como cada um deseja (va).

Mas lá estão as pessoas esboçando um sorriso, dançando até, mostrando que ainda há esperança. Enquanto contemplava as senhoras que tiravam água junto do tanque lá montado, fui-me apercebendo de um cenário. A maior parte das jovens adolescentes que por ali vivem tem crianças no colo. Preocupado, levantei-me do sítio onde estava e fui ter com as meninas. Comecei a conversar com elas. Eram cinco meninas, todas com bebés. As idades variavam de 12 a 18 anos. Sem rodeios fiz as perguntas directas e claras. Elas, de peito aberto, responderam que eram mães por destino. Questionei o que era mãe por destino. Uma delas disse que não tinha alternativa nem esperança. Nasceu ali e deve sujeitar-se ao modus vivendi. Para sorrir, comer e divertir-se, deve vestir a pele de quem nasceu em Metuchira. Ouvindo estas palavras ditas de forma determinante, perdi, por uns minutos, as palavras. Mas disse a mim mesmo ‒como perder as palavras perante pessoas que não precisam de palavras para viver… senão vestir a pele de Metuchira!

Retomámos a conversa e confessaram que há muito que não sabem o que é ir à escola. Há muito que não ouvem falar de prevenção contra casamentos prematuros. Porque a questão não é prevenir o casamento, mas casar para poder viver. Enquanto falávamos, uma delas ganhou coragem e apontou um jovem, dizendo: “aquele moço engravidou três meninas daqui da zona. Ele é o pai do meu bebé”.

Vi e conversei com crianças que nascem outras crianças. Um dos bebés, de apenas duas semanas, acabara de nascer em uma das tendas do acampamento. Uma anciã de 62 anos aproximou-se de nós e o olhar dela deixou-me concentrado. Olhos vermelhos, com traços de poeira barrada por lágrimas que não caem. Perguntei como é que ela estava. E logo começou a contar a história do bebé que trazia às costas. Era o neto de apenas seis meses, cuja mãe, filha da anciã, perdera a vida durante o ciclone. Quando chegou a hora de partir, fiquei sem saber o que dizer, principalmente àquela anciã. Abracei-a e encorajei-a a criar o neto e que devia, um dia, matriculá-lo na escola.

Por Frederico Jamisse
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