Na concentração matinal do dia 15 de Junho de 1980, depois do Hino Nacional, a par da distribuição de tarefas extracurriculares ligadas à produção escolar, lê-se uma lista de 12 alunos que deveriam permanecer no recinto à espera do director da Escola Secundária, para orientações especiais.

Estávamos na Escola Secundária de Iapala, no distrito de Ribáuè, há 30 quilómetros da sede deste. Daniel Augusto Mucore, o director, era um homem conhecido pelas suas poucas aparições públicas em concentrações de divisão de tarefas, pois havia para isso um rol dos seus subordinados. 

Havia um homem duma altura rara entre os macuas (normalmente são baixinhos) que era conhecido pela alcunha “as camaradas” que bem substituía o director e o chefe do Internato.

Com “as camaradas” os alunos eram indicados para a produção escolar, entendida como o trabalho à machamba ou à alimentação do gado ou ainda nos sectores de serralharia e carpintaria.

Não teve a sorte de frequentar escolas que lhe convencessem que camaradas era um substantivo do género masculino, tal que, depois de lhe serem entregues tais alunos, dizia: as camaradas vão fazer isto, aquilo, etc.

Ora, esperar pelo director para uma informação especial não era de todo bom. Mas o que fazia antever uma outra significação de ESPECIAL era o facto de entre os alunos escolhidos haver aqueles de quem não se tinha um historial de indisciplina na escola (eu incluso) e, coincidentemente, de um aproveitamento pedagógico exemplar.

O grupo deveria, no dia seguinte, pelas 4.00 horas, viajar num carro que viria de Ribáuè para uma missão que nem sequer o director conhecia. O segredo começava por ali até desembocar na informação de que a direcção tinha entendido que se tratava de um grupo de conscientes e capazes de guardar sigilo.

Às 6.00 horas estávamos na vila de Ribáuè e depois de alistados e minuciosamente revistados por militares que nem sequer eram do distrito, enchemos o Centro Cultural Josina Machel.

Juntaram-se-nos os alunos da Escola Secundária da Frelimo e do Complexo Escolar de Ribáuè (Artes e Ofícios), para enfrentar, sem saber do que se tratava, pessoas desconhecidas que nos dariam aulas sobre Química, Matemática e um pouco de História. A que propósito? Ninguém sabia. O medo instalava-se e quando se disse que ninguém sairia daquele lugar até à meia-noite, adensavam as dúvidas. Tudo era feito sem sair do interior do Centro Cultural e sob apertada vigilância.

No ano anterior dissera-se que o presidente Jean-Bédel Bokassa, da República Centro-africana, tinha queimado vivas crianças, exactamente no seu dia, 1 de Junho, no interior de uma casa. Era antes de ser deposto a 20 de Setembro do mesmo ano. As mentes dos alunos, nem todos de idades apreciáveis, ficavam cada vez mais nubladas.

Era, afinal, para aprendermos da Química a importância do ouro; da Matemática a equação (equivalência); da História de como antes o negócio era feito; quer dizer, da medida e peso que dava pelo nome de Metical. Estávamos a ser formados para a troca imediata do Escudo português pelo Metical, a moeda nacional, cujo trabalho duraria apenas três dias em todo o país.

Muito secretismo, todas as fronteiras encerradas. Foi o dia em que nos ensinaramque o nome Metical tinha origem numa antiga “moeda”, usada no período pré-colonial, formada por ráquis de penas de aves cheias de ouro em pó. Disseram-nos que o símbolo é MT, ou MNZ (inglês) com maiúsculas, ou Metical, com a letra inicial igualmente maiúscula. E que sendo símbolo de soberania nacional nunca se deveria escrever doutra maneira.

A moeda representa, para qualquer Estado, um dos símbolos máximos da sua história e da sua cultura. Tem ainda o poder de revelar o grau de desenvolvimento de um país e ser, também, o barómetro das relações políticas e socioeconómicas entre nações.

Não há países que voluntariamente escrevem as suas moedas assim (totalmente em letras minúsculas) … menos hoje em Moçambique, onde mesmo os jornais escrevem meticais…

Por Pedro Nacuo

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