“Nunca tinha visto coisa igual” é a frase que quase todos os residentes da cidade da Beira e arredores repetem. A passagem do ciclone Idai foi simplesmente aterradora. Matou, feriu e destruiu todo o que pôde como só se vê em produções cinematográficas de Hollywood. Não é à toa que o mundo inteiro está solidário e sentido. É que o drama requer mesmo milhões de braços para fazerem uma só força.

O dia 14 de Março deste ano jamais será esquecido por quem viveu na pele a passagem do Idai. Aliás, milhares de pessoas continuam a experimentar a amarga sensação de viver em refúgios improvisados por cima de casas, sem poderem comunicar com familiares e amigos nem que seja para dizer “escapei com vida”.

O distrito de Búzi é uma espécie de epicentro da devastação. Até agora, há gente que não sabe o que é pisar a terra firme e seca, vivendo em cima do que sobrou dos tectos das casas e de outro tipo de infra-estruturas que resistiram à fúria do vento que passou a uma velocidade superior a 220 quilómetros por hora.

Cada embarcação ou helicóptero que regressa de uma missão de busca e resgate da região de Búzi ou Nhamatanda traz gente de todas as idades com evidentes sinais de filária nos pés, pelo excessivo tempo passado na água que carrega consigo uma medonha turvação.

Há também muita gente com feridas em diferentes partes do corpo por ter pisado ou sido atingida por objectos pontiagudos como pregos, restos de chapas de lusalite e de zinco, pedaços de madeira, enfim, que agora ali abundam por causa da destruição de diferentes tipos de infra-estruturas.   

O drama que se vive em Sofala é tão grande que muitos cidadãos partem de diferentes origens para a cidade da Beira à cata de informações sobre o paradeiro de esposas, filhos, irmãos, pais, enfim, como aconteceu com o jovem Alex Mário com quem voámos de Maputo a Beira e que desesperava para chegar à casa.

É que, desde a manhã do dia 14, última vez que teve contacto com a esposa e cinco filhos, nunca mais ouvira falar deles até ao dia 19. Tentou ligar para outros familiares residentes na Beira, vizinhos e amigos e, nada. Perante esta triste realidade, os seus empregadores acabaram oferecendo-lhe dias de dispensa e uma passagem área. 

Quisemos seguir Alex até ao bairro Matacuane, onde ele reside, mas o avião partiu atrasado, foi fazer escala em Quelimane, onde perdeu mais algum tempo e consumiu mais 30 minutos em voltas pelo ar para aterrar, uma vez que havia nuvens densas e baixas a cobrirem toda a área de aproximação de aeronaves. Quando finalmente aterrámos eram já 22.30 horas e pouco ou nada podíamos fazer.

Como Alex há milhares, aliás, enquanto produzíamos este texto, uma jovem acercou-se de nós para procurar saber se o Instituto Nacional de Gestão de Calamidades (INGC) poderia ajudar a localizar o seu irmão que trabalha na Procuradoria Distrital de Búzi, uma das zonas que mais preocupa as autoridades neste momento pelo elevado número de vítimas ali concentradas e que clamam por assistência, com realce para água potável.

Felizmente falar de e para a Beira já é possível em grande parte desta cidade, faltando apenas estabilizar as conexões, o que é de menos quando comparado com o apagão que se viveu nos primeiros dias desta tremenda tragédia que foi o ciclone e as cheias que se seguiram.

Dados colhidos junto ao Instituto Nacional de Comunicações de Moçambique (INCM) indicam que no total são 1102 estações afectadas, das 4490 existentes na região Centro e Norte do país, sendo 495 da Tmcel, 357 da Vodacom e 250 da Movitel.

Texto de Jorge Rungo,
na cidade da Beira

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