Marrocos “corta relações” com Alemanha

O Marrocos decidiu, semana passada, suspender contactos com a embaixada e as organizações sociais da Alemanha. Adicionalmente, Rabat chamou de volta o seu embaixador em Berlim, para “consultas”, em actos que indiciam uma vontade de “cortar relações” com o país Europeu. Esta novela do descarrilamento das relações entre Rabat e Berlim está associada, essencialmente, ao crescente desentendimento entre as duas capitais a propósito da questão do Sahara Ocidental. O Marrocos acreditava que o reconhecimento, pelos EUA, da sua soberania sobre o Sahara Ocidental era um trampolim para manter o território disputado. No entanto, a Alemanha está a “empatar” essa pretensão, pois ela não se mostra favorável à posição dos EUA e até levou o caso à discussão no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

O problema sobre quem deve manter o controlo do Sahara Ocidental vem das “contas” mal resolvidas pela Espanha no processo de descolonização do território. Deve-se dizer, primeiro, que as autoridades do Marrocos estão em confrontação com a Frente Polisário, o movimento que luta pela independência do Sahara Ocidental. Por razões que só a Espanha pode explicar, esta potência colonial retirou-se daquele território atribuindo-o uma parte ao Marrocos e outra à Mauritânia. Esta última acabaria por abandonar o país em 1979. Mas o Marrocos, de um reino colonizado optou por se transformar num reino colonizador, mantendo o controlo sobre o Sahara Ocidental. Com efeito, a Frente Polisário, que começou por combater as autoridades espanholas pela libertação do território, virou a sua luta contra o Marrocos. O movimento revolucionário luta pelo estabelecimento da República Árabe Sahrawi, uma entidade que é até reconhecida pelos membros da União Africana mas também de países de fora do continente.

Desde o fim da colonização, na década de 1970, o território tem estado num “limbo”, sem se saber exactamente se é um território soberano, liderado pela Frente Polisário, ou se é parte integrante do Reino do Marrocos. A maior parte dos países africanos são, ou foram, favoráveis à independência do Sahara Ocidental. Aliás, terá sido isto que, por décadas, manteve o Marrocos fora da organização continental. No entanto, a partir de 2017 parece que os países africanos começaram a se conformar com a ideia de que o território disputado é de pertença do reino, pois o Marrocos foi readmitido na organização. É verdade que a readmissão não significou o abandono da política oficial de a organização considerar o Marrocos um Estado ocupante. No entanto, ela possibilita ao reino fazer os lobbies necessários para o território ser reconhecido como seu.

Por Edson Muirazeque  *

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