A classe de jornalistas, aquela que era a mais coesa e unida da nossa sociedade, dá sinais perigosos de ser a mais dividida, tal o são as equipas dum campeonato desportivo, em que o campeão tem que ser um e apenas um.

Hoje não parece aquele grupo profissional que entendeu primeiro as mudanças e algumas foram por si influenciadas, senão mesmo forçadas. Desde o facto de a Lei de imprensa ter sido uma das primeiras do período multipartidário, a Lei 18/91, à forma como rapidamente a classe se posicionou patrioticamente para abraçar a nova forma de ser e estar na democracia.

As primeiras conferências da ONJ/SNJ foram o palco democrático jamais experimentado no país e, se quisermos, contagiaram às demais associações sindicais e cívicas nacionais, para não dizer até partidárias. Pode ser que esteja a exagerar.

Ao virar da página, a divisão começou e desenvolveu-se muito rapidamente. Os jornalistas passaram a ser uns independentes outros dependentes. Discutimos, durante algum tempo, a independência e há pouco descobrimos que não há independentes, pelo menos no que ao nosso país diz respeito.

Quem sabe analisar disse que uns dependem dos políticos (no governo ou na oposição) outros do poder económico, outros ainda, do poder que vem do crime organizado. Só não disse que há aqueles que dependem de agências de espionagem de Estados existentes.

Há uns anos atras apareceu uma pujante, mas compreensível divisão, a dos jornalistas desportivos. Era a especificidade que mandava na divisão. Veio há pouco tempo uma associação de jornalistas da área jurídica, reclamando quase os mesmos ou mais direitos que o Sindicato Nacional dos Jornalistas.

Há três semanas nasceu a associação de jornalistas de assuntos económicos, na verdade, daqueles que escrevem preferencialmente temas ligados à economia, essa que está a ser cada vez mais um bicho-de-sete cabeças.

Minto. Um pouco antes, houve qualquer coisa como jornalistas parlamentares (com o objectivo de dizer que cobrem assuntos da Assembleia da República) e teve algum apadrinhamento visível.

Chegamos à confusão entre a necessidade de especialização em algumas matérias noticiosas e a criação de grupinhos de jornalistas ligados aos diferentes temas noticiosos que a sociedade cria permanentemente.

Por ai, já que não basta ser jornalista, tem que se ser jornalista desportivo, económico (porque se tem um curso de economia ou é-se amigo de quem esteja na actividade económica), jurídico (porque se cursou Direito…), quedas profissionais naturais, agora têm que ser institucionalizadas.

Sei que já existiu uma associação de jornalistas culturais, ainda nos restam os jornalistas generalistas, de saúde, ambientalistas, policiais, cronistas e quejandos. Poderemos nos rir se se criar a associação de jornalistas que lidam com assuntos internacionais. Como se chamará?

Enquanto isso, a (des) necessidade de divisão está cada vez mais forte. Um dia poder-se-á ter uma associação de não-jornalistas, porque os há. Aqueles que desde que concluíram os seus cursos nas diferentes escolas de jornalismo não fizeram nada mais, senão serem assessores de algum ministro, governador, director nacional…

Agora extravasamos para as arraias do não-profissional; não se cita uma notícia publicada por um órgão de informação do sector público, só por ser público. Prefere-se colocar com base no original artimanhas que enganem que se trata dum trabalho conseguido e não, sinceramente, copiado.

Por mais que haja uma realização de grande alcance, como foi o Mozefo-2015, não é notícia a destacar no sector público, porque é um feito dos outros e assim, também a gala do beneficente da TVM e o Ngoma/Moçambique, que são, outrossim, de grande alcance, não vem reflectidas no sector não-independente, aquele dependente de “ outros” poderes.    

Custa perceber. Por este andar é difícil dizer que jornalistas serão aqueles que pelo país (nas províncias) escrevem tudo: sobre justiça, desporto, cultura, economia, crime, entrevistam embaixadores e também ficam não-jornalistas, porque assessoram directores provinciais e outros dirigentes. Estamo-nos a dividir até à medula do osso! Quem nos (re)une, ante um Sindicato moribundo?

Pedro Nacuo
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