Em Foco

Um exemplo de cooperação orientada para o “win-win”

Moçambique e Irlanda são dois países que estabeleceram relações formais de cooperação em vários domínios a menos de dez anos mas os resultados deste relacionamento, cada vez mais amistoso e em franca maturação, são positivamente surpreendentes. No espírito desta cooperação bilateral salienta-se o princípio dos ganhos mutuamente vantajoso, ou seja, “win-win situation”. Em apenas três dias de visita à Irlanda a delegação de alto nível liderada pelo Presidente da República, Armando Guebuza, conseguiu alcançar importantes acordos nas áreas da Agricultura, Comércio, Serviços, Saúde e Educação.

Quis o destino que ambos tivessem um passado mais ou menos similar. É que tanto Moçambique assim como a Irlanda foram forçados a experimentar uma secular colonização, instabilidade político-militar e, a dada altura, níveis de pobreza extrema que chegaram a abalar os valores identitários destas duas nações e, sobretudo, afectar negativamente o respectivo tecido social.

Desta feita, o passado mais ou menos comum tem servido de esteio para a estruturação de um relacionamento diplomático profícuo onde os dois actores estaduais procuram analisar as metamorfoses porque cada um passou e, sobretudo, a experiência acumulada no momento em que foi necessário superar determinadas adversidades.

Até aqui as relações político-diplomáticas entre os dois países têm sido marcadas por um pragmatismo indiscutível sendo uma das marcas mais visíveis, ao nível da diplomacia económica, um amplo programa de cooperação que se fortalece a olhos vistos e que só no presente ano vai implicar a injecção de cerca de 40 milhões de Euros ao Orçamento do Estado moçambicano.

A abordagem que vem sendo seguida pelos irlandeses é de apoiar o desenvolvimento sustentável a par do investimento directo em áreas muito concretas tais como na exploração das areias pesadas de Moma por via da companhia irlandesa Kenmare, financiamento e transferência de tecnologias nas áreas da agricultura, saúde, educação e investigação cientifica.

Neste processo, Moçambique não se assume como um mero receptor de ajuda pois interage de forma cada vez mais proactiva com aquele país europeu através da exposição das suas experiencias e boas práticas bem como na condução de determinados processos que interessam aos irlandeses quer nos domínios político, económico e social.

Bata dizer que no catálogo dos investimentos da Irlanda no estrangeiro o nosso país ocupa uma posição privilegiada em razão de aqui ter sido investido qualquer coisa como 1.5 biliões de euros nos últimos 6 a 7 anos tendo gerado emprego para cerca de 6 mil pessoas.

Durante a sua visita a Irlanda o PR , Armando Guebuza, participou num seminário empresarial onde entidades governamentais e homens de negocio moçambicanos intergairam com a contraparte irlandesa e apresentaram as oportunidades existentes nas diferentes áreas de investimento.

A propósito disso , Guebuza referiu que houve boa receptividadeda informação partilhada pela delegação moçambicana pois os discursos de parte a parte não denotaram qualquer sinal de dissonâncias mas, pelo contrario, “complementavam-se e reforçavam-se”.

Os empresários irlandeses mostram muito interesse em participar em processos que contribuam para o aumento de valor dos nossos recursos naturais em parceria com os moçambicanostais como na exploração do gás, logística do carvão. Existe também uma ideia de reforçar as pequenas e medias empresas e ate a nível do turismo. Agora, o nosso desafio é o habitual. Temos que tirar proveito desta boa vontade dos irlandeses e deste clima de cooperação tomando iniciativas concretas para que eles invistam mais em Moçambique, afirmou o Chefe do Estado moçambicano.

Sabe-se que de entre as companhias irlandesas trabalhando em Moçambique destacam-se a Kenmare Resources, Kentz, Cove Energyand Nicholas O´Dwyer Engineering. Importa referir que a Kenmare, que explora as minas das areias pesadas de Moma, província de Nampula, foi a primeira companhia internacional a obter uma concessão, estabelecer uma mina e exportar com sucesso depois do fim da guerra de desestabilização que dilacerou o país durantes 16 anos, abrindo o caminho para outras companhias investirem em Moçambique.

AS PRIMEIRAS SEMENTES DA COOPERACAO

O firmamento da cooperação entre os dois pises começou a assumir alguma solidez no princípio do primeiro mandato do Presidente Armando Emílio Guebuza quando uma delegação irlandesa de alto nível, chefiada pela então Presidente Mary McAlesse, também efectuou a primeira visita de Estado a Moçambique onde, na altura, o governo daquele país europeu se predispunha a apoiar o desenvolvimento sustentável do nosso país.

O autor destas linhas acompanhou, a par e passo, a referida visita e já nessa altura a Irlanda defendia que o compromisso e agenda única na sua relação com Moçambique foi sempre, segundo pontuou na época McAlesse, contribuir para o desenvolvimento sustentável de Moçambique.

A nossa principal ambição é ajudar a acelerar a prosperidade e da possibilidade de a ver generalizada para que, a medida que Moçambique vai registando notáveis progressos na redução da pobreza, se torne um parceiro comercial pleno da Irlanda e veja o fim desta fase de desenvolvimento na sua evolução”, palavras recuperadas de uma entrevista-balanco concedida pela antiga Presidente da Irlanda.

Ate porque , já nessa altura o Governo irlandês comprometeu-se a alcançar a meta das Nações Unidas para a assistência ao desenvolvimento , contribuindo com 0,7 por cento do seu PNB ate 2012, pois para eles os oito Objectivos do Milénio (ODM’s) apesar de traduzirem uma histórica construção de consensos entre as nações mais desenvolvidas e instituições financeiras internacionais  visando apoiar o desenvolvimento dos Paises em Vias de desenvolvimento os beneficiários de tal ajuda, como é o caso de Moçambique, não deveriam perder de vista que o propósito central deste exercício assenta na erradicação da pobreza.

No nosso caso, houve naturalmente um objectivo implícito de erradicação da pobreza, mas o objectivo declarado e imediato foi a criação de emprego e a estimulação da actividade empresarial. A nossa experiência e abordagem deu à nossa estratégia uma ênfase muito diferente da actual coligação de doadores. Assim, em todos os nossos programas de desenvolvimento éimportante que não se limite o espaço da criação de emprego e se considere o apoio ao empreendedorismo”, assim pontuou a governante irlandesa. 

Criadas condições para maior intercâmbio na agricultura

Moçambique e Irlanda rubricaram um memorando de entendimento na área da agricultura o qual preconiza basicamente o reforço da capacidade de investigação na produção de vacinas e medicamentos, controlo da qualidade dos produtos frescos tanto de origem animal assim como vegetal, partilha de informações relativas as politicas do sector agrícola.

O referido memorando que prevê ainda a promoção de investimento privado numa parceria moçambicano-irlandesa e gestão de agro-negócios foi assinado pelos Ministros da Agricultura de Moçambique e da Irlanda ,  José Pacheco  e  Simon Coveney respectivamente.

Sabe-se que o aludido memorando inspira-se na experiência obtida pela Irlanda no âmbito da cooperação com o nosso pais sobretudo no que diz respeito ao apoio a agricultura de pequena escala nas áreas rurais.

De acordo com uma fonte do governo irlandês esta declaração de intenções surge numa altura em que em Moçambique esta a crescer o sector de agronegócios e um número considerável de potenciais ligações e oportunidades de investimento nos dois lados.

Alias, um dos empresários irlandeses abordado pelo domingo disse ter notado da parte dos empresários moçambicanos que integravam a comitiva presidencial na visita de estado a Irlanda “ muito interesse em desenvolverem parcerias no domínio do agronegócios”.

Ainda na área da Agricultura foi rubricado um outro memorando de entendimento entre o Instituto de Investigação Agraria de Moçambique (IIAM), representado pelo Ministro José Pacheco, e a Autoridade irlandesa para o desenvolvimento da Agricultura e Alimentação (TEAGASC) , na pessoa de GerryBoyle.

Este memorando basicamente visa promover a cooperação na área de pesquisa entre estas duas entidades através de visitas de intercambio, estudos e consultorias conjuntas em áreas de mutuo interesse incluindo colaboração cientifica, fundos de pesquisa .

– Jose Pacheco e Simon Coveney no acto da assinatura do memorando relativo a cooperação na área da agricultura

APOSTAR NA MELHORIA DO AMBIENTE DE NEGOCIOS

Um memorando de entendimento que preconiza o financiamento em cerca de um milhão e cinquenta mil dólares norte americanos para o Programa de Apoio de Competitividade e Desenvolvimento Empresarial em Moçambique, no âmbito da estratégia do governo de apoio as pequenas e medias empresas, foi rubricado recentemente em Dublin.

Da parte moçambicana o referido memorando foi rubricado pelo Ministro da Industria e Comercio, Armando Inroga, o qual explicou que o mesmo abarca ainda uma componente de assistência técnica as pequenas e microempresas  que tem em vista capacita-las para responderem ao desafio da diversificação económica e dota-las de instrumentos que as possam permitir ter acesso a financiamento bancário bem como melhorar, por outro lado, o ambiente de negócios.

Embora algumas delas tenham condições para obter os fundos que estado a ser criados pelo governo e com taxas de juros bonificadas têm falta de capacidade de o fazer. Este memorando, de um milhão e cinquenta mil dólares mil dólares, tem em vista apoiar a Ordem de Contabilistas e Auditores de Moçambique (OCAM) e esta assistirá, por sua vez , de forma gratuita as pequenas e medias empresas listadas na base de dados do Instituto de Pequenas e Medias Empresas as quais depois de auditadas e com contabilidade organizada poderão aceder a financiamento da banca comercial”, referiu Inroga.

Ainda durante a visita do estadista moçambicano a Irlanda realizou-se um seminário empresarial na qual participaram homens de negocio dos dois países que partilharam informações sobre as oportunidades de investimento e quer podem ser exploradas dos dois lados. As áreas da Industria, Agricultura, Serviços, Energia , Turismo  e Transportes e Comunicação  foram objecto de uma procura de captação de investimentodirecto estrangeiro .

A grande aposta é melhorar o ambiente de negócios , Armando Inroga

UNILURIO RECEBEAPOIO

PARA ESCOLA DE OPTOMETRIA

A Universidade de Lúrio (UNILURIO), com sede na província de Nampula ,vai receber um financiamento irlandêspara aquisição de equipamento, montagem de laboratório e contratação de mais docentes ( da Colômbia, Espanha,Portugal e Africa do sul) para ministrarem disciplinas relativas ao curso de optometria, introduzido já há alguns anos naquele estabelecimento de ensino superior.

Este apoio que cujo montante exacto não foi especificado surge na sequência de um acordo de cooperação assinado recentemente em Dublin, capital da Irlanda, pelos representantes do Estado moçambicano e irlandês. Da parte moçambicana o acordo foi assinado por Jorge Ferrão , Reitor da  UNILURIO, que explicou que foi inclusive com o apoio dos irlandeses que se estabeleceu pela primeira vez no pais , depois da independência, e naquela universidade o curso de optometria.

O que lhe posso dizer é que a Irlanda vai disponibilizar meio milhão de dólares dos quais uma parte será canalizada a nossa escola de optometria e outra ira para algumas escolas na Tanzânia e outros países da região que cooperam com os irlandeses neste domínio. O mesmo acordo prevê também que se faça um esforço para transformar a escola de optometria numa referência para os PaísesAfricanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP`s) e nesta senda já temos estudantes de São Tomé, Timor leste e em breve chegarão alguns de Cabo Verde, disse o reitor da Universidade do Lúrio ( UNILURIO), disse Ferrão.

Segundo Jorge Ferrãoeste acordo vai permitir também que se desenvolvam pesquisas mais aprofundadas relativas a este curso pois “ a cegueira é uma doença que tem sido, de alguma forma, negligenciada em Moçambique”e estes optometristas trabalham com cuidados de saúde primária, aconselhamento, administração de vitamina “A”.

Os estudos existentes indicam que pelo menos 720 mil pessoas sofrem de cegueira sendo alguns casos curáveis e outros nem tanto. E isto tem custo na nossa economia porque a pessoa que adquire cegueira deixa de trabalhar , vira dependente e não tem como sustentar a sua família. Os prejuízos para o paísem cada de dez ou vinte anos situam-se em cerca de 240 milhões dólares para assistir socialmente a este grupo de pessoas.

Precisamos parar de negligenciar a cegueira em Moçambique – Jorge Ferrão , Reitor da UNILURIO

Tempo de investir em cuidados de saúde de qualidade

Outro sector que viu reforçado o nível de cooperação com a Irlanda é o da saúde com a assinatura de um Memorando de Entendimento entre os dois países cujo objectivo principal é o fortalecimento da liderança nacional e das suas funções no Ministério da Saúde para providenciarem serviços e cuidados sanitários de qualidade aos pacientes, suas famílias e público em geral.

Momentos depois de rubricar o acordo, o Ministro da Saúde, Alexandre Manguele, explicou que a luz do mesmo serão priorizados assuntos relativos ao desenvolvimento de estratégias, planos e ferramentas de qualidade e a segurança dos pacientes no serviço de saúde, desenvolvimento de sistemas que permitam uma contínua elevação da qualidade dos serviços prestados no sector a todos níveis, etc.

José Sixpence

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