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Um aluno especial na “Unidade 10”

A Escola Primária Completa Unidade 10, no bairro do Chamanculo, cidade de Maputo, teve o condão de receber, semana finda, por algumas horas, um aluno especial e que a dado momento também lecionou algumas matérias. Trata-se do Presidente da República, (PR) Filipe Jacinto Nyusi que assistiu duas aulas, uma da 3ª classe e outra da 7ª classe. Na ocasião, o Chefe do Estado inteirou-se do funcionamento daquela instituição do ensino primário tendo em vista à busca de soluções para a melhoria da qualidade de educação, entre outros aspectos.

A Escola Primária Unidade 10 nem foi a tempo de se engalanar o suficiente para receber o estadista moçambicano que decidiu sair do seu gabinete presidencial para “vestir a capa” de aluno e professor.

À sua chegada, o Presidente da República foi recebido por uma multidão de crianças devidamente uniformizadas e que gritavam o seu nome: “Nyusi, Nyusi, Nyusi”. As crianças também entoaram o hino da campanha eleitoral “Nyusi eu confio em ti!”  

A alegria foi tão contagiante que, em algum momento, o protocolo foi quebrado de parte a parte e com destaque para a altura em que o Presidente misturou-se com a pequenada, abracou aleatoriamente a alguns e depois… fez uma espécie de “foto de família”. 

Os professores que não imaginavam a magnitude da festa da pequenada ficaram a assistir a cena que se desenrolou muito rapidamente, uma vez que em seguida, o Chefe do Estado foi orientado a visitar as obras da requalificação da escola.

Construída em 1969 para albergar os estudantes indígenas, a “Unidade 10” iniciou a sua actividade no ano de 1972 e neste momento está a beneficiar de obras de requalificação para a sua transformação em dois blocos, um para o ensino primário e outro para o secundário.

Nyusi visitou as obras tendo ficado satisfeito com o seu decurso, sobretudo quando soube que estão a bom ritmo e que a conclusão está prevista para Julho próximo.

Porque o seu objectivo era participar numa das aulas, em seguida, o Presidente da República entrou numa sala da 7ª classe, onde foi assistir durante cerca de 45 minutos uma aula de português numa turma de 55 alunos.

A professora da referida turma responde pelo nome de Flávia Matsinhe e tinha preparado como lição do dia: “Palavras Compostas por Coordenação”. O exercício foi tal que os próprios alunos não pouparam esforços na correspondência aos ensinamentos da professora.

Com vários exercícios sobre a constituição de palavras compostas por coordenação, a professora foi “engrenando as mudanças” até ultrapassar o nervosismo para o agrado do Chefe do Estado.

Aliás, Filipe Nyusi que estava sentado numa das carteiras ao lado de uma criança foi acompanhando atentamente a explicação da professora e em seguida foi ao quadro para exercitar.

AS CRIANÇAS DEVEM DOMINAR A ESCRITA

O Chefe do Estado observou que apesar de estarem no sétimo ano, a maioria das crianças escrevem mal, razão pela qual pediu à professora para apostar na escrita de modo a que os alunos possam escrever devidamente.

A título de exemplo, Filipe Nyusi foi ao quadro e escreveu uma frase ao mesmo tempo que repisou que os meninos precisam de prestar muita atenção aos ensinamentos da professora para assimilar a matéria.

O Presidente da República assistiu também a aula da 3ª classe que iniciou com a entoação do hino nacional onde as crianças demonstraram o seu domínio.

Depois desta aula, seguiu-se um encontro com a comunidade estudantil deste estabelecimento do ensino, constituída pelos próprios alunos, professores e alguns encarregados de educação.

Este encontro tinha como objectivo ouvir as preocupações dos petizes que apresentaram as suas inquietações, entre elas, a melhoria das instalações, salários dos professores, apetrechamento da biblioteca, situação política, entre outros aspectos.

Uma estudante que se identificou com o nome de Maimuna pediu ao Presidente da República para envidar esforços no sentido de manter a paz e a unidade nacional.

Segundo afirmou, as crianças de todo o país precisam da paz para estudar a vontade. “ Nós queremos estudar e viver em paz. Não queremos a luta porque isso faz atrasar o país”.   

Por seu turno, Ana Pedro Timane pediu para que se aumente o salário do professor para este poder ensinar a vontade sem grandes preocupações. “ Peço ao Presidente da República para melhorar o salários dos professores, porque eles nos ensinam bem e deles aprendemos a contar, escrever e muitas coisas”.

Helena Inguane pediu para que se construa uma biblioteca para as crianças poderem fazer as suas consultas das matérias leccionadas e fazer outras investigações, tudo na perspectiva de melhorar a sua aprendizagem.

Por sua vez, Aida Helena disse que a sua preocupação prende-se com a necessidade da instalação de uma Sala de Informática para as crianças aprenderem tudo sobre o uso do computador.

Eunice da Graça afirmou que o Chefe do Estado devia se empenhar em construir mais escolas em todo o país, para que mais crianças tenham o acesso à educação e em condições condignas.

Trabalhemos para que haja paz

afirma, Presidente da República, Filipe Jacinto Nyusi 

Em resposta às inquietações da pequenada, o Chefe do Estado exortou a todos os moçambicanos para trabalharem no sentido de garantir que haja paz nos seus corações e que entendam que no país há espaço para todos.

Segundo defendeu, para que isso aconteça é necessário que haja respeito mútuo. “ Na minha cabeça só cabe a Paz, a Paz que deve caber em todos os moçambicanos. Somos irmãos, nascemos e crescemos aqui. As árvores são nossas como o próprio capim. Se eu fico nesta árvore, o meu irmão pode ficar noutra e juntos trabalhar para que haja a paz”.

Relativamente à questão das instalações escolares, o PR afirmou que os petizes da “Unidade 10” tinham motivos para sorrir porque em breve a escola terá um outro visual e bem apetrechada com uma biblioteca e sala de informática.

Debruçando-se sobre as razões que lhe levaram a visitar aquele estabelecimento do ensino, Filipe Nyusi explicou que tinha em vista colher uma amostra sobre a real situação do ensino no país.

Segundo afirmou nos próximos tempos vai escalar outras escolas ao longo do país, com objectivo de identificar os passos a seguir tendo em vista à melhoria da qualidade do ensino.

“Viemos ver in loco como é que as nossas crianças estudam, porque o nosso grande problema é o futuro de Moçambique. A nação educada é o nosso grande objectivo, condição essencial para produzir comida, combater as doenças e construir o desenvolvimento, disse o Presidente da República sublinhando que o alvo neste momento é ter a nação educada.

Num outro momento, o estadista moçambicano disse ter a consciência de que a “ Unidade 10” não representava todas as existentes no país, uma vez haver outras melhoras que esta e outras em péssimas condições.

“Estamos satisfeitos porque nesta encontramos alegria nas vossas caras, a mensagem que nos transmitem é de paz e harmonia porque querem continuar a estudar. Esta é a mensagem mais profunda e séria, porque só assim tudo pode acontecer”,afirmou Filipe Nyusi.

Nesta visita, o PR fez-se acompanhar de Jorge Ferrão, Ministro de Educação e Desenvolvimento Humano, Armindo Ngunga, Vice–ministro deste pelouro, Iolanda Cintura, governadora da cidade de Maputo, David Simango, presidente de Município, entre outros quadros do seu gabinete.

REQUALIFICAÇÃO TERMINA EM MAIO PRÓXIMO

As obras da requalificação e modernização da “ Unidade 10” iniciaram em Junho de 2012 com a construção do primeiro bloco de dez salas de aulas, para no ano seguinte iniciar a segunda fase. No final a escola vai contar com 25 salas de aulas, dois blocos administrativos, um para o ensino primário e outro para o secundário.

Segundo Arlindo Mathombe, responsável pela área de construção na Direcção de Educação da Cidade de Maputo, as obras estão orçadas em cerca de 62 milhões de meticais e prevê-se que sejam concluídas em Maio próximo.

Na ocasião, Mathombe explicou que terminada a requalificação as antigas instalações serão destruídas e a escola vai ser dividida em dois blocos, uma para o ensino primário e o outro para o secundário.

Sublinhou que a medida visa garantir que mais crianças tenham acesso à educação, uma vez que cada dia que passa a cidade de Maputo está a crescer a passo largos, razão pela qual é necessário aumentar as infra-estruturas escolares.

Neste momento, a escola tem um total de dois mil e seiscentos alunos, distribuídos por 47 turmas e são assistidas por 52 professores entre licenciados e do nível médio.

UMA ESCOLA INICIALMENTE

CONSTRUIDA PARA INDÍGENAS

A Escola Primária Completa de Unidade 10 carrega uma história de significado especial na construção de Moçambique independente, uma vez que fora erguida essencialmente para atender os filhos dos indígenas durante o período colonial.

Quem nos facultou este dado foi Elisa Matos, viúva de Amaral Matos, uma figura incontornável no bairro do Chamanculo e por sinal pai do antigo reitor da Universidade Eduardo Mondlane, Narciso Matos.

Segundo ela, na altura a escola servia para ensinar aos filhos dos indígenas enquanto que os dos assimilados eram ensinados por exemplo, na antiga escola, Rainha Dona Leonor, hoje Eduardo Mondlane, no bairro do Alto –Maé.

A nossa interlocutora sublinhou que chegou a ser monitora na “Unidade 10” e que recebia um subsídio mensal de cinco escudos. Acrescentou que não conseguiu ir para mais além porque o regime colonial não permitia que os moçambicanos estudassem para além da 4ª classe.

Refira-se que após a Independência Nacional a escola passou a lecionar sem qualquer espécie de descriminação tendo formado vários quadros, incluindo o autor desta Reportagem que fez nela o ensino primário. 

Fotos de Carlos Uqueio

Domingos Nhaule

nhaule2009@gmail.com

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