Na província de Maputo, no extremo Sul do país, Emília Zandamela tem a vida mergulhada numa infinita angústia. O homem por quem se apaixonou, em 2015, o qual assumiu, incondicionalmente, a paternidade dos seus dois filhos, e com ele gerou o terceiro filho, está por de trás da maior mágoa da sua vida. Abusou sexualmente a sua filha mais velha durante seis meses. Tudo aconteceu ali, debaixo do seu tecto.
Melissa, como passamos a trata-lá, tinha 11 quando foi violada sexualmente pelo padrasto há dois anos. Por seis meses continuou a viver o abuso, silenciada pela ameaça de que sua mãe seria morta, caso contasse a alguém. Porém, no nono ano de convivência, o casal desentendeu- -se. Emília exigiu de Horácio – seu companheiro – a separação e que retirasse os seus pertences da casa. Entretanto, teve que suportar as repetidas recusas sob justificação de que não abandonaria as crianças.
Contudo, o que não sabia é que o companheiro apenas tinha a intenção de continuar a abusar sexualmente da filha, que, para o efeito, “a cegava com dinheiro”. “Dava-me dinheiro para ir às compras no mercado, que ele ficaria a cuidar da casa”, conta. No entanto, sempre que voltasse encontrava ele e a menina de banho tomado. Acrescenta que “outras vezes, encontrava a minha filha deitada na cama, queixando-se de dores de barriga ou de cabeça”.
Quando ela tentasse levar a menor ao hospital, o ex-companheiro dizia ser desnecessário, pois, tal como argumentava, poderia ser “cansaço”, pelo que dava dinheiro para comprar bolachas e refrescos para a filha. Certo dia, ao notar um desconforto da menina, sobretudo quando se sentasse ou levantasse, chamou-a para o quarto.
“Perguntei se alguém havia dormido com ela. Primeiramente, recusou. Quando a ordenei para subir na cama para a observar, começou a tremer. Não precisei de ir mais além, pois estava claro. Ela disse-me que foi papá”, recorda. Ademais, um laudo médico solicitado comprovou o facto, tendo o agressor sido preso, entretanto, dias depois viria a ser libertado.
CRISE DE ANSIEDADE E PÂNICO
Enquanto isso, no Centro do país, província de Sofala, outra adolescente de 16 anos, a quem trataremos por Carla, encontra- -se há quatro anos em tratamento psicológico, numa organização da sociedade civil que zela pela protecção dos direitos das raparigas. Sofre de ansiedade e ataque de pânico, desde que foi sexualmente abusada por um vizinho.
O agressor, um jovem de 27 anos, abusou-a na calada da noite, enquanto a menor dormia. Certa noite, ao aperceber-se da ausência do irmão e aproveitando-se do facto de a porta da casa se encontrar destrancada, enquanto o tio dormia, seu vizinho invadiu e dirigiu-se aos aposentos da menor onde a violou.
Os gritos da menor despertaram o tio e o agressor acabaria detido e encaminhado a uma esquadra. Os exames médicos confirmaram o acto. Entretanto, estranhamente, tal como no primeiro caso, o predador foi restituído à liberdade.
TRAIDA POR UMA REFEIÇÃO
No Norte, concretamente na província de Cabo Delgado, mais um caso aumenta as estatísticas de violação sexual. Recuemos à data dos factos. Num sábado, quando a mãe da rapariga (a quem trataremos por Marta), mandou a menor para a machamba colher algumas hortícolas. No local, deparou-se com o tio materno, que a pediu que levasse até à sua residência produtos por ele colhido. Sem desconfiar, assim procedeu a menor. Entretanto, o tio também apressou o seu regresso.
Ao notar a presença da sobrinha, qual isca, convidou-a para tomar chá, tendo de seguida trancado a porta e abusado dela. Em troca do seu silêncio, ofereceu uma nota de 100 Meticais. Apesar da progenitora de Marta ter descoberto o sucedido, devido ao comportamento estranho e regresso tardio da filha, não denunciou o caso às autoridades, tendo recorrido apenas à família, que também acobertou o caso.
Ao agressor, esta família exigiu um valor de 10 mil Meticais, um garrafão de bebida tradicional e um cabrito. Arrependida, três meses depois, a progenitora procurou apoio, contudo, pouco ou nada se podia fazer, visto que, na ocasião, não terão sido colhidas provas bastantes sobre a violação sexual. Actualmente, o agressor convive no mesmo meio social com a vítima.
REALIDADE ASSUSTADORA
Dados de 2025, que constam do informe anual da Procuradoria-Geral da República (PGR), apontam que foram instaurados em todo o país um total de 3381 processos-crime contra a liberdade sexual, enquanto que, em 2023, a cifra se fixou em 3089 casos. Neste prisma, a província da Zambézia continua a destacar- -se com maior número de casos, tendo sido instaurados 652 processos. Seguem-se Manica e Sofala com 432 e 430, respectivamente. Leia mais…

