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“Há uma tendência de tornar a igreja um lugar de negócio”

Por Jornal domingo
  • Onório Gabriel Cutane, Apóstolo Onório, em entrevista exclusiva ao jornal domingo

TEXTO DE CAROL BANZE E ABIBO SELEMANE

É fundador e líder da igreja Ministerial Nações para Cristo. Escreveu 17 livros voltados para a vida cristã, oração e liderança. É conhecido pelos seus cultos proféticos, cuja temática mescla discursos de fé com um tom humorístico.

Em entrevista exclusiva ao jornal domingo, Onório Cutane aborda a gestão da crise no emprego de jovens, defendendo que a escassez deve ser vista como motor para a criatividade, até porque, “cada um de nós nasceu neste mundo com um talento”. Reflecte sobre a teologia da prosperidade e lança, a dado momento, um olhar crítico sobre o panorama religioso actual, ao afirmar que: “Há uma tendência de tornar a igreja um lugar de negócio”

Tem várias obras publicadas, e entendemos que, talvez, o púlpito deixou de ser suficiente na dinâmica do seu trabalho como pastor. Ou será este um desejo antigo?

A veia literária esteve sempre em mim desde quando era mais novo porque eu sempre gostava de ler. Por vezes eu trancava-me por longas horas no quarto só a ler. Minha mãe trazia-me prato de comida; às vezes eu não comia e a comida apodrecia.

E também (escrevo) porque Deus tem me dado muitas revelações. Lemos na Bíblia que muitos profetas eram ditos por Deus, “escreva esta visão”, porque quando nós não escrevemos, podemos nos esquecer. Então, a minha inspiração vem de duas fontes.

A primeira é a que vem de Deus, que me dá o conhecimento do Espírito Santo. E a outra é a pesquisa social. Vemos as tendências sociais, os problemas que apoquentam a sociedade, e sabemos que tem uma solução: o conhecimento da palavra de Deus. Portanto, colocar de forma escrita este conhecimento todo é por amor pelas pessoas que não estão perto de mim, fazer com que conheçam Jesus, que é a solução para todo tipo de problemas que apoquentam a humanidade, porque as pessoas perecem por falta de conhecimento. Como diziam, o púlpito já não é suficiente, é pequeno, temos que o alargar.

Como é que organiza a sua rotina para compatibilizar o seu tempo como escritor e pastor?

Deus deu-me uma graça especial, uma certa habilidade de saber conciliar as dinâmicas do dia-a-dia, entre os deveres familiares: sou marido, pai de três meninos; tenho um ministério muito grande e tenho de lidar com o povo de Deus na igreja, para além do tempo para poder ler e escrever. Deito-me muito tarde todos os dias, quando todo mundo já foi à cama, os meninos já foram dormir. Aproveito parte desse tempo para me dedicar a escrever.

Dorme quantas horas por dia?

Eu, na verdade, diria poucas horas.

Chegam a cinco?

Às vezes durmo menos que cinco horas. Somente quando não estou, por exemplo, em Maputo, posso ter mais horas. Durmo muito pouco, mas não de uma forma sacrificada, porque tudo o que eu possa fazer depende da graça que Deus me dá. E Deus precisa de mim.

“NÃO DEVEMOS FUGIR DAS CRISES”

De forma concreta, qual é o alcance das propostas que traz nas suas obras? São obras que trazem soluções, não são apenas descritivas. Por exemplo, temos obras ligadas só à família, temos livros para casais; para homens, mulheres; de educação, também de auto-ajuda e auto- -motivação.

Temos também inspiracionais para jovens, de formação na área de empreendedorismo, porque vivemos num tempo em que há escassez de emprego, entretanto há muitas oportunidades que estão lá a chamar. Só que as pessoas não as vêem. As crises, eu diria assim, são boas. Devemos enfrentá-las, amá- -las, abraçá-las, porque elas despoletam e activam o nosso potencial. Todas as sociedades que evoluíram, desenvolveram-se – olha que, olha, existe solução.

Muitos dos jovens que leram os meus livros são agora empresários, outros terminaram a faculdade. Muitos deles já são casados, porque é o conhecimento que molda as mentes e torna os jovens e adolescentes seres com valores. Quando alguém tem valores e descobre o seu propósito, é muito fácil cumprir. Eu diria assim, existem dois grandes dias na vida do ser humano.

O dia em que nasce e o dia em que descobre por que nasceu. Os cemitérios estão hoje cheios de muitos sonhos que nunca foram concretizados, porque as pessoas não descobriram o seu potencial, o seu valor, o seu propósito. É como um peixe tentar voar, ou uma galinha tentar nadar, não vai dar certo.

Pois…

O peixe tem o potencial de nadar, ninguém lhe ensina. O ambiente é que lhe ensina a nadar. Cada um de nós nasceu neste mundo com um talento, com um dom. Mas, muitos atingem a fase da juventude, a fase adulta, até a terceira idade, sem nunca terem descoberto o seu potencial, sobrevivem e não chegam a viver.

Em que livros apresenta ideias para orientar a juventude a ser criativa?

Temos uma trilogia. Lançamos agora dois livros da trilogia. O primeiro é “Jovens do Reino: Princípios de Sucesso para Adolescentes e Jovens”. Este livro ensina os 17 princípios que, se um jovem aprender, naturalmente terá sucesso na vida, em qualquer área. Tem o segundo livro, “Tempo, Visão e Valores”. Há que saber usar o tempo, pois é um recurso não renovável. Por isso, precisamos de ter uma visão e um plano.

Uma visão sem plano é como um carro sem combustível, não vai chegar a lugar nenhum. Este livro ensina os jovens como viver uma vida planificada, organizada, com valores. Os valores ajudam a preservar o nosso legado. Há muitas pessoas que alcançam sucesso em qualquer área da sua vida – política, desporto, religião, ciência, academia – mas que no fim da sua vida são manchadas porque não tiveram valores. Temos o exemplo de R. Kelly, um dos grandes cantores de R&B e gospel. Ele tem uma inspiração nata para escrever músicas. Mas depois foi condenado a mais de 20 anos de prisão. Tudo o que ele construiu foi por água abaixo, porque lhe faltou a noção de valores.Leia mais…

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