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Dhlakama pede intervenção da comunidade internacional para resolução do conflito político no país

O líder da Renamo, Afonso Dhlakama, pediu, semana passada, em Satungira, posto administrativo de Vunduzi, distrito de Gorongosa, Sofala, a intervenção da comunidade internacional para 

persuadir o partido Frelimo a respeitar e considerar as reivindicações apresentadas pelo seu partido visando pôr termo os conflitos políticos que há vários anos colocam em discordância estas duas formações políticas (Frelimo e Renamo) e que agudizaram-se no passado mês de Outubro, com o regresso do líder da Renamo para sua antiga base central em Gorongosa.

Falando numa conferência na sua em base central em Satungira, perante cerca de quarenta jornalistas entre nacionais e estrangeiros, Afonso Dhlakama afirmou ser um homem que ama a paz, que não tem saudades da guerra e não tenciona voltar a pegar em armas e semear terror país, mas pediu que, com o apoio de todos intervenientes políticos, se encontre espaço para negociações que possam colocar fim às divergências existentes entre o seu partido e a Frelimo.

“Não tenho saudades da guerra e nem sou homem de guerra. Também gosto da paz. Tenho filhos e família que também querem essa paz. A Frelimo deve encontrar espaço para o diálogo de forma a ultrapassarmos as diferenças existentes entre nós. As nossas reivindicações devem ser satisfeitas. Peço para que a comunidade internacional aconselhe ao Presidente da República, Armando Guebuza, a encontrar uma saída pacífica para este problema. Caso contrário, a situação vai complicar-se nos próximos tempos, porque estamos cansados de ser humilhados, maltratados e espezinhados pela Frelimo”, disse Dhlakama. Para aquele líder, a saída para este conflito passa pelo diálogo, onde serão apresentados e analisados os problemas do seu partido e posteriormente trazidas soluções definitivas.

Afonso Dhlakama explicou que o seu principal problema está relacionado com as sistemáticas violações do Acordo Geral de Paz assinado em 1992. A revogação da lei eleitoral para garantir a realização de eleições livres, transparentes e justas, a retirada da força da Força de Intervenção Rápida aquartelada nas redondezas da sua base central, em Gorongosa, bem como a boa convivência democrática.

Explicou ser indecoroso que depois de vinte anos de paz, o partido no poder continue a desonrar os compromissos que afluíram para o término do conflito armado que dilacerou o país durante os 16 anos. Depois da assinatura dos Acordos de Roma, ao longo dos vinte anos de paz, segundo Dhlakama, a Renamo continua a viver momentos de pavor caracterizado por ataques militares, torturas e roubos perpetrados pela Frelimo. Mesmo assim, nenhuma voz internacional fez-se ouvir em forma de crítica ou outro tipo de interferência para “salvar” a democracia que custou o sangue do povo.

“Temos estado a resolver os problemas dos outros por África toda. Mas os nossos não conseguimos solucionar. É momento de a comunidade internacional colocar a mão e ajudar a trazer soluções para nós. Estando cansada destas atrocidades, a Renamo viu-se obrigada a encontrar uma forma de pressionar a Frelimo, tendo reactivado a sua antiga base central e outras unidades operativas”, referiu Dhlakama, para depois reiterar que “estamos cansados, viemos a Satungira para pressionar a Frelimo e não para fazer guerra. Essa foi a única maneira encontrada rapidamente para pedir diálogo. Estamos a ver que tudo está a surtir efeitos. Já há uma luz e nos próximos dias havemos de dialogar com a Frelimo.”

 

Ordenei os ataques porque os meus militares podiam me matar

 

Num outro desenvolvimento, Afonso Dhlakama assumiu ter sido ele a ordenar os ataques ao Comando Distrital da Polícia da República de Moçambique (PRM) em Muxúnguè, distrito de Chibabava, em Sofala, no qual perderam a vida cinco pessoas e feridas outras treze. Os ataques eram em retaliação à acção da polícia, que no dia anterior assaltou a sua sede, culminando com a detenção de quinze membros da Renamo. Explicou que a decisão foi tomada em resposta ao pedido endereçado pelos seus ex-guerrilheiros que queriam vingar-se da acção da FIR depois de terem sido escorraçados das suas sedes em Muxúnguè, na província de Sofala e no distrito de Gondola, em Manica.

“Quando a FIR tomou aquela medida, do Rovuma ao Maputo, os membros acusaram-me de estar a “comer” com a Frelimo e de ter recebido biliões, por isso  não quero autorizar os ataques. Pediram a minha demissão. Ameaçaram-me de morte. Disseram que queriam resposta naquele dia. Não fiz mais nada senão dizer  “arranjem” armas e respondam. E eles fizeram isso no dia seguinte.”

Dhlakama considerou os assaltos a viaturas e a morte de três cidadãos na EN1 como um incidente. Respondendo a uma pergunta, aquele líder disse que mandou cessar os ataques a pedido do Presidente da República, Armando Guebuza, que terá endereçado uma mensagem na qual condenava os ataques e apelava à não-violência.

Contou que o pedido do Presidente da República, enviado através do reitor da Universidade Politécnica, foi prontamente respeitado. Na ocasião foram colocadas algumas condições que passam, como anteriormente mencionamos, pela revogação da lei eleitoral e a retirada da Força de Intervenção Rápida destacada para guarnecer a zona de Satungira e outros locais estratégicos, inclusive daquela que desde o ano passado foi encarregue de controlar os movimentos do líder da Renamo. Constam ainda das exigências da Renamo a libertação incondicional dos membros detidos em Muxúnguè e o diálogo para resolução dos problemas que afligem o seu partido. Caso contrário, segundo Afonso Dhlakama, serão desencadeadas acções que visam boicotar as eleições autárquicas de 20 de Novembro próximo, presidenciais, legislativas e das assembleias provinciais de 2014.

“Parei porque o Presidente da República endereçou-me uma mensagem a dizer que devíamos parar para abrirmos outra página na história. Dei ordens aos meus guerrilheiros e obedeceram. Mas colocamos algumas condições, se elas não forem consideradas havemos de dar uma outra voz de comando”, sublinhou peremptório Afonso Dhlakama.

No entanto, os acontecimentos de Muxúnguè podiam ter sido evitados caso houvesse abertura por parte da Frelimo e o cumprimento do Acordo de Roma para o bem da democracia.   

“Prometo que nos próximos dias, se estes problemas não forem resolvidos, vou reordenar os ataques. Parece que já há abertura da outra parte. Temos dois encontros marcados. Espero que se organize uma comissão séria e que se torne uma realidade. Não quero guerra, havemos de nos manifestar para defendermos a democracia.”

 

“Não conheci Rasta Mazembe”  

 

Afonso Dhlakama afirmou não conhecer o brigadeiro “ Rasta Mazembe”, morto quando dos confrontos com a PRM no Comando da polícia em Muxúnguè. Questionado se era verdade que ele continua no mundo dos vivos, Dhlakama respondeu nos seguintes termos: “Não sei se ele morreu ou está vivo. Também não conheci pessoalmente esse homem. Se ele morreu durante o confronto não tomei conhecimento. Era um guerrilheiro e não uma pessoa de minha confiança como se propala lá fora. Dizem que morreu um dos homens confiado de Dhlakama, isso não é verdade. Penso que era um homem como outros meus guerrilheiros que estão aqui.”

Informações em nosso poder indicam que Mazembe, o homem que orientou os ataques ao comando PRM, foi sepultado ao lado da sede da Renamo naquela região e em condições desumanas.   

 

População vive sem medo em Satungira

 

No povoado de Satungira, posto administrativo de Vunduzi, distrito de Gorongosa, a população vive normalmente como se nada estivesse a acontecer, apesar da presença de homens armados da Renamo por todo lado e da Força de Intervenção Rápida. O dia nasce e as populações entregam-se ao trabalho para garantir o seu auto-sustento e da sua família. Os camponeses dirigem-se às machambas, os professores dão aulas e os comerciantes fazem-se aos mercados e bancas fixas para mais uma jornada laboral. Crianças, adultos, homens e mulheres circulam à vontade e cada um se ocupa da produção. Ao fim do dia encontram-se para conviver, incluindo com os ex-guerrilheiros de Renamo. Satungira é uma zona fértil com um potencial produtivo invejável. O verde pode se ver em toda parte associado a um clima próprio para a prática agrícola. A nossa Reportagem não teve oportunidade de conversar com a população, mas ficámos a saber que apesar de existir uma unidade sanitária na sede de Vunduzi, a Renamo também instalou um hospital que funciona debaixo de uma mangueira, mesmo nas redondezas da base de Dhlakama. Todas as manhãs as populações deslocam-se para aquele lugar e por ali passa um agente de saúde que assiste os pacientes. A sede do posto de Vunduzi tem energia eléctrica fornecida através de painéis solares. Para se comunicar com o mundo, o líder da Renamo desloca-se da sua base cerca de 1.5 quilómetros para a sede do posto para encontrar a rede de telefonia móvel.  

Satungira fica a 30 quilómetros da sede do distrito de Gorongosa.

 

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