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Afogamentos: um perigo que persiste nas águas

Por Jornal domingo

TEXTO DE GENÉZIA GERMANO

O que começou com um momento de lazer, na tarde de 12 de Fevereiro, na praia da Costa do Sol, em Maputo, terminou em tragédia. Duas crianças fizeram-se ao mar sem prever o risco, atraídas pelo calor e aparente tranquilidade das águas. Em poucos instantes, a corrente intensificou- -se e o cenário alterou-se drasticamente. Perante o perigo iminente, José Mateus Maque, segundo- -cabo da Polícia, afecto à Polícia Costeira, Lacustre e Fluvial, lançou-se ao mar na tentativa de as salvar. Num acto de bravura, conseguiu resgatar uma das crianças.

Contudo, ao tentar salvar a segunda, acabou arrastado pela força das águas. José Maque perdeu a vida, e a criança também não resistiu. O episódio não só comoveu a sociedade, como voltou a expor a vulnerabilidade das zonas balneares face ao fenómeno. Em Moçambique, os afogamentos continuam a ceifar vidas de forma silente e, muitas vezes, em contextos de lazer e sem sinais aparentes de perigo.

O caso de José Mateus Maque, que perdeu a vida após salvar uma criança e tentar resgatar outra, ilustra a dimensão humana de um fenómeno frequentemente reduzido às estatísticas.

Apesar da complexidade do problema, especialistas e autoridades na área convergem num ponto: a maioria dos afogamentos podem ser evitados. A redução das vítimas dependerá da combinação entre mudança de comportamentos, educação contínua e investimento consistente em prevenção. Até lá, as águas continuarão a representar um risco real para milhares de moçambicanos.

A DURA REALIDADE

Dados disponíveis revelam uma realidade persistente. De acordo com o Relatório de Sinistralidade Marítima, 126 pessoas perderam a vida por afogamento em 2024, em todo o território nacional. Em 2025, o número reduziu para 54 óbitos, o que, à primeira vista, pode sugerir uma evolução positiva. No entanto, uma leitura mais atenta levanta reservas.

A redução, embora significativa em termos absolutos, não permite concluir, de forma automática, que houve um controlo efectivo do fenómeno. Especialistas apontam que os números podem reflectir variações sazonais, diferenças nos níveis de exposição ou até limitações na recolha de dados.

Além disso, a persistência de dezenas de mortes anuais evidencia que o problema continua longe de ser resolvido. A descida estatística não elimina o risco real, sobretudo em contextos onde os factores estruturais e comportamentais permanecem inalterados. Sem um sistema consolidado de monitoria e análise, torna-se difícil determinar com precisão as causas dessa variação.

A ausência de um observatório nacional de afogamentos limita a produção de dados consistentes e comparáveis ao longo do tempo. Assim, a leitura crítica dos números sugere que, mais do que celebrar a redução, importa consolidar mecanismos de prevenção e aprofundar o conhecimento sobre o fenómeno, sob pena de se assistir a novos picos de mortalidade.

A nossa equipa de Reportagem esteve na praia Costa do Sol, onde constatou a ausência de sinalização de perigo ao longo da orla. A falta de avisos visíveis representa um risco para os banhistas, sobretudo para aqueles que não conhecem bem as condições do mar. No entanto, no local, foi possível observar a presença da Polícia Fluvial, que se encontra a monitorar a área, pese embora a inexistência de sinalização continue a ser o factor alarmante.

TRIMESTRE DE RISCO

Para o porta-voz do Serviço Nacional de Salvação Pública (SENSAP), Leonildo Pelembe, os primeiros meses do ano continuam a ser críticos. “Fazemos uma apreciação com alguma preocupação em relação ao aumento de ocorrências nesta fase, sobretudo após a quadra festiva”, declarou. Segundo explicou, factores climáticos desempenham um papel determinante. “Há períodos muito quentes seguidos de chuvas intensas, o que leva as pessoas a procurarem massivamente as praias”, referiu, associando o fenómeno às mudanças climáticas e à época calamitosa. Grande parte dos afogamentos resulta de práticas evitáveis.

“O consumo de bebidas alcoólicas antes de entrar na água é um dos principais factores de risco”, alertou, acrescentando que o álcool compromete a capacidade de avaliação do perigo. O responsável destacou ainda o impacto da alimentação inadequada. “Entrar no mar logo após refeições pesadas reduz a resistência física e pode provocar incapacidade de reacção”, explicou. Por outro lado, casos de negligência face às regras de segurança agravam o cenário.

“Muitas pessoas ignoram as placas de sinalização e acabam por nadar em zonas perigosas”, lamentou. As características de várias praias moçambicanas constituem um risco adicional.

Segundo o SENSAP, zonas como Costa do Sol, Xai-Xai, Ponta do Ouro e Macaneta apresentam irregularidades no fundo do mar. “Existem áreas com pontos de profundidade acentuada que surpreendem os banhistas”, explicou Pelembe, sublinhando que estas assimetrias dificultam a saída das pessoas da água, sobretudo para quem não domina técnicas de natação.

Para reduzir os riscos, o SENSAP tem reforçado a presença em zonas balneares. “Realizamos sensibilizações e posicionamos equipas com nadadores-salvadores nas principais praias”, disse o porta-voz. As equipas actuam tanto na vigilância como na educação. “Alertamos para evitar o consumo de álcool, respeitar os limites e redobrar a atenção com crianças”, sublinhou. As crianças continuam entre as principais vítimas.

A exposição aumenta quando frequentam praias sem supervisão adequada. “Há casos de estudantes que abandonam as aulas para ir à praia, muitos sem saber nadar”, advertiu, apontando a necessidade de maior controlo por parte das famílias e instituições. Leia mais…

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