Editorial

Um não vigoroso à violência eleitoral

A campanha eleitoral que termina próximo domingo, dia 12, foi já manchada com os acontecimentos ocorridos semana passada em Gaza e Nampula, onde comitivas de partidos políticos envolveram em pauladas, pedradas, marteladas, tiros e descargas de gás lacrimogéneo. Tudo isto como resultado de provocações por parte de actores políticos que deviam serenar os ânimos das multidões, e chamá-las à razão, mas que, pelo contrário, atiçaram-nas.

Sem querermos atribuir culpas e condenar nominalmente este ou aquele actor, o apuramento de responsabilidades não nos cabe, queremos afirmar que actos destes não dignificam um processo que se quer pacífico e harmonioso, por se tratar, como se tem realçado, de festa. A festa do povo moçambicano, digamos.

Felizmente, as lideranças dos principais partidos vieram condenar, cada um por sua vez, estes macabros actos que fazem uma propaganda nefasta dos processos democráticos e que podem levar os eleitores a ficarem em casa. Parece que o objectivo dos partidos políticos não é de fazer com que os eleitores fiquem em casa no dia 15 de Outubro, mas, pelo contrário, de que eles se dirijam massivamente às mesas de votação para exercerem o seu direito de voto.

Na esteia das condenações da violência eleitoral, o candidato da Frelimo à Presidência da República, Filipe Jacinto Nyusi, convidou os simpatizantes do seu partido a mostrar tolerância, dizendo que apenas aqueles que “sabem que são fracos optam pela violência”.

O Chefe do Estado, Armando Guebuza, em termos vigorosos, em duas ocasiões públicas, também fez apelos para que a arruaça na campanha eleitoral não tenha lugar.

Domingo passado, na consagração do Bispo Carlos Matsinhe, da Igreja Anglicana, o Presidente da República afirmou que nada justifica o recurso à violência na campanha eleitoral actualmente em curso, pois, os políticos devem recorrer apenas à sua retórica para angariar simpatias e votos a seu favor e não optar pela violência. “Nada, mas nada mesmo deve justificar o vilipêndio e a destruição de bens” , afirmou.

Outra personalidade que condenou os actos violentos de Gaza e Nampula foi o próprio o presidente da Comissão Nacional de Eleições (CNE), Abdul Carimo, que afirmou que os casos de violência registados em Gaza foram “vergonhosos e os líderes partidários têm a responsabilidade de acabar com a violência (…). O que nós vimos é uma autêntica vergonha e deve envergonhar todo o moçambicano, porque é contra todos os princípios de tolerância e convivência cívica”, afirmou.

Abdul Carimo instou os líderes dos partidos políticos a darem a cara e mostrarem repúdio, de modo a desencorajar estes actos. “Gostaríamos de fazer um apelo aos líderes dos partidos políticos para que saiam a público e façam apelos aos cidadãos, não apenas para os seus membros e simpatizantes, mas para todos os cidadãos, para que não enveredem pela violência”.

É que até aos acontecimentos de Gaza e Nampula, a campanha eleitoral vinha decorrendo de forma pacífica e com menos casos de ilícitos eleitorais, se comparado com os outros processos eleitorais anteriores. Até à entrada da quarta semana de campanha eleitoral prevalecia a tolerância e respeito pelas aspirações políticas.As caravanas eleitorais cruzavam-se sem quaisquer problemas.

Havia registos de um ou outro caso de vandalização de material propagandístico, muito localizados, mas nada que fosse generalizado. Os partidos políticos pareciam mostrar uma certa maturidade no que concerne ao cumprimento dos ditames da lei eleitoral.

Ora o que terá mudado para que houvesse aqueles actos registados em Gaza e em Nampula? Aparentemente nada.

Para nós, os partidos têm que trabalhar para controlar os seus membros e simpatizantes que têm os nervos à flor da pele e que são menos tolerantes para com os outros, que têm maneiras diferentes de pensar das suas, com outras ideias, diferentes das suas, de sobre como desenvolver o país.

Só a tolerância é que nos faz ver o outro como pessoa, como igual a nós, como moçambicano, porque, como dizia alguém, só uma ilusão é que nos faz ver o outro como diferente, não como nosso concidadão, mas como inimigo a abater. E se pensarmos nesses termos, então tudo o resto é justificável, por que os fins justificariam os meios. Daí as pauladas, as pedradas, as marteladas e os pontapés ao outro, em batalhas campais que pouco dignificam os processos democráticos, como as eleições, aos olhos do povo. Os 30 partidos que concorrem este ano às eleições não são inimigos uns dos outros. São apenas adversários políticos que se devem respeitar uns aos outros.

Ainda bem que nesta semana não foram registados mais casos do género. É que, a continuarem, nesta nossa jovem democracia, o povo pode tomar os processos eleitorais como macabros, que só trazem confusão, violência e desarmonia social e daí afastar-se deles. Tomar o tempo das eleições como indesejável aos seus olhos, pois há sempre pancadaria, arruaça e outras coisas pouco dignas do vivente humano. A violência então seria a melhor propaganda para a abstenção, que é o grande pesadelo destes processos, porque ela é também indesejável.

A abstenção nas eleições é como que um murro no estômago dos políticos que esperam afluência enorme às urnas olhando para as multidões que lhes passam pela frente durante a campanha eleitoral.

É necessário que o povo sinta que a política o favorece, não é local de pugilato, nem insultos, mas sim de debate de ideias, ideias sãs, cujo objectivo final é ver o país crescer. É um campo onde se expõem programas de governação, com objectivos estratégicos bem concretos e realizá-los com a participação o mais possível alargada.

É o momento em que o político se aproxima do povo, dialoga com o Moçambique profundo. É uma altura é que é preciso demonstrar aos que ficaram à margem, que eles são indispensáveis não apenas para colocarem o voto na urna, mas, sobretudo, para que cada qual a seu nível possa participar na governação do país, nem que seja desatando a língua para criticar. É uma altura para demonstrar que o povo não é pedestal para a estátua do poder, mas sim tem responsabilidades na governação do país.

Se não se consegue passar esta mensagem com civismo, então o povo vai preferir, no dia da votação, ir trabalhar na machamba ou ir à praia ou mesmo fazer outra actividade que achar importante para a sua vida e a afastar-se das urnas. O eleitor não irá votar porque, pura e simplesmente, não quererá votar em processos que metem violência, violência aparentemente inexplicável, onde o vizinho espanca o vizinho, o irmão vai às “fussas” do outro, por causa do voto. Voto que pertence ao povo e não ao político.

O povo não quererá votar porque não viu interesse nesse gesto tendo em conta estes acontecimentos nefastos ou, então, porque quererá avisar os políticos que os caminhos por onde caminham não conduzem à salvação deste país. Como quem diz: não levam à construção do bem comum.

Bem comum que é o conjunto de condições públicas que permitem o desenvolvimento da pessoa, empurrando-a para esse mesmo desenvolvimento. E não se mede pelos interesses umbilicais de meia dúzia de indivíduos que querem impor a sua própria vontade à força.

Por isso, o nosso “NÃO” veemente a actos de violência eleitoral (ou quaisquer que sejam) nesta presente campanha.

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