Editorial

No rescaldo da visita de Guebuza à Irlanda

Que a visita do Chefe do Estado moçambicano semana passada à Irlanda foi um grande sucesso, todos nós sabemos. Além dos seis acordos nas áreas da saúde, agricultura, indústria e comércio, a delegação moçambicana conseguiu obter nesta visita de Estado, a garantia do governo irlandês de financiar o nosso país em cerca de 36 milhões de Euros, ainda no presente ano, para acelerar as acções tendentes ao alcance de mais progressos no que diz respeito aos Objectivos do Desenvolvimento do Milénio (ODM), cuja meta inicial definida pelas Nações Unidas é até 2015.

Aliás, Guebuza sublinhou no fim da sua visita, as excelentes relações existentes entre ambos países, afirmando tratar-se de “uma relação especial e que apesar de se ter forjado há pouco tempo foi marcada nos seus primórdios por uma atitude que demonstra o compromisso de apostar no desenvolvimento do nosso país”.

Um dos aspectos que ficou sublinhado nos diferentes momentos de interacção entre as delegações dos dois países é que o relacionamento de ambos assenta basicamente numa visão comum de promoção de um desenvolvimento que focaliza a melhoria da qualidade de vida da pessoa humana e de um crescimento económico sustentável aliada a investimentos ousados nas áreas da educação, saúde e investigação agrária.

A visita do Chefe do Estado moçambicano serviu para uma reafirmação do desejo mútuo de continuar a enveredar por uma cooperação mutuamente vantajosa e, acima de tudo, que esteja virada ao impulsionamento do desenvolvimento sustentável.

O Chefe do Estado esteve nas instalações da Autoridade Irlandesa para o Desenvolvimento da Agricultura e Alimentação (TEAGASC), onde para além de outras actividades realizam-se pesquisas tendentes ao melhoramento da qualidade do gado bovino e incremento da produção e produtividade, experiência esta que Moçambique pretende adquirir. Efectuou também uma visita guiada à firma Fyffes que se dedica à produção e importação de produtos orgânicos e sobretudo a banana e outros frutos frescos que depois são ali processados e colocados no mercado de consumo europeu.  

Sabe-se que para além do apoio ao Orçamento do Estado que a Irlanda vem prestando, a ajuda deste país europeu, doravante, centrar-se-á, de forma mais intensa, na Agricultura, criando condições para se elevar a produção e produtividade.

Este enfoque do nosso Governo em relação à Agricultura não é causal. É que somos de facto um país essencialmente agrícola com uma extensão de terra tão grande e tão fértil que continua a ser um escândalo falar-se em pobreza absoluta entre nós, pobreza esta que, aliás, só não existe, porque o absoluto não tem realidade objectiva, mas o exagero da expressão traduz o drama de quem a sofre.

Começa na fome e vai por aí além, de carência em carência, até aniquilar o cidadão, que acaba consciencializando-se como objecto, deixando de ser dono de si mesmo. Fome, neste contexto, significa não ter esperança de comer nos dias que se seguem.

Os alimentos brotam da terra e terra é o que mais temos, sendo até propriedade do Estado com obrigação de a conceder ou distribuir baseado em políticas de desenvolvimento em função do homem de carne e osso. De carne e osso, repetimos, porque há quem trate o tema em jeitos de abstracção, como até o fazem muitos funcionários do próprio Ministério da Agricultura grudados às secretárias em repartições alcatifadas e impecáveis ares condicionados. Trazer experiências de como fazem os outros para produzir mais e melhor comida, é de todo pertinente, para que nós próprios nos sacudamos e pensemos noutras formas de fazer as coisas.

Quem cultiva a terra são homens e mulheres, que também temos em abundância. Ao contrário do que se passa na Europa, a nossa taxa de natalidade, se em algo peca, é por excesso e não por defeito.

Se temos o fundamental que faria felizes tantos países em que a terra é um bem sobremaneira escasso e a população está avelhentada, porque é que estamos tão em baixo? Falta uma política agrícola dotada de realismo, que trabalhe por objectivos bem concretos, que analise, com rigor, o seu desempenho em função dos resultados conseguidos.

A assistência ao camponês é praticamente inexistente. Não se lhe proporcionam condições estruturais que lhe permitam progredir, como, por exemplo, canais para a irrigação a partir de rios que os temos em abundância, em vez de estarmos sempre à espera da chuva. Faltam alfaias agrícolas e sementes e educação voltada para a produção agrícola.

O Presidente Guebuza, ao insistir, nestes dez anos, na operacionalidade a partir do distrito, certamente que está a pensar também e sobretudo na riqueza agrícola. Talvez seja de enviar para os distritos muitos dos quadros que se passeiam pelas repartições a nível central. Esta preocupação, a nosso ver, deve ser realizada em campanha e enquadrada por uma mentalidade de reforma agrária.

É que não há direito que não consigamos, pelo menos, acabar com a fome, em pouco tempo, usando os nossos recursos, que são tantos e tamanhos. É claro que precisamos de formar o produtor, precisamos de mais extensionistas, precisamos de know how, precisamos de mecanizar a agricultura, tudo isso se pode fazer quando pensando chão-chão, não apenas em extensos relatórios, quase teses de natureza teórica, sem qualquer aplicação no terreno prático.

Sublinhamos: somos um país agrícola com terra fértil para dar e vender. A única condição para que esta terra se desentranhe em frutos abundantes é trabalhá-la adequadamente. O trabalho é a causa eficiente da produção e quem trabalha é o homem, significando estas palavras tão simples que há que investir no homem. Preparar-lhe a cabeça para que seja capaz de transformar a natureza a seu favor. Saberá, depois, procurar o capital e a tecnologia.

Somos cerca de 23 milhões de moçambicanos, a grande maioria dos quais se situa numa faixa etária inferior aos trinta anos, portanto na força da vida activa. Com tanta terra e tanta gente, não há direito que, em Moçambique, grandes camadas de população sofram ainda de graves carências alimentares. Não há direito que ainda se morra de fome. Há terra, há gente, há escolas e há possibilidade de tecnologia e, em termos de inteligência, somos iguais aos outros. E, se se quiser, há possibilidade de crédito, ainda que para isso seja necessário criar bancos específicos, em que o bancário vá até ao camponês, como outrora o fazia o cantineiro, embora com uma finalidade muito sua, por vezes de exploração. Não desprezemos, porém, a metodologia. Que sejamos comandados pelas exigências do desenvolvimento e não pela dogmática de princípios desencarnados.

As nossas escolas, a começar nas primárias, que devem revestir-se de uma feição técnica treinando os alunos no saber-fazer (de pequenino se torce o pepino), têm de criar condições de estudo para que os formandos não saiam dali à procura de um emprego numa qualquer secretaria incrustada em Maputo, protegidos pelo fresco do ar condicionado, alunos que saiam dali com mentalidade empresarial, que saibam criar uma sua empresa, micro, pequena ou média, e por que não grande para aqueles que se sentirem com capacidade para tanto?

Com uma política baseada na metodologia do distrito não se nos afigura difícil, embora seja trabalhoso, modificar com relativa rapidez a face do nosso país em termos de suficiência agrícola, a caminho de excedentes para exportação. Precisam-se lideranças. Mas lideranças esclarecidas e apaixonadas pelo seu trabalho tendo como bússola orientadora o bem comum e não meros interesses umbilicais. Por isso, aplaudimos vivamente, as parcerias, no domínio da Agricultura, que se estabelecem com os outros países, sendo o exemplo mais concreto esta estada do Presidente Guebuza na Irlanda e os resultados valiosos conseguidos, que deverão, como é óbvio, serem multiplicados.

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