Editorial

Frelimo em mudança geracional

Filipe Jacinto Nyusi foi eleito no pretérito fim-de-semana para o cargo de Presidente da Frelimo na sequência da renúncia de Armando Guebuza. Os duzentos e um membros efectivos do Comité Central do partido reunidos na Matola, na IV Sessão Ordinária do órgão, deram 98,4 por cento do total dos votos para Nyusi pegar no martelo e dirigir também o partido.

Esta mudança de liderança representa também uma mudança geracional. A geração do 25 de Setembro passou o poder para uma nova geração que estará no leme dos destinos do país nos próximos anos.

Como o próprio Presidente Nyusi o disse no discurso da sua investidura em Janeiro último: “represento uma nova geração, uma geração que recebe um legado repleto de enormes sucessos e de exaltantes desafios”.

No discurso de encerramento da IV Sessão Ordinária do Comité Central Nyusi saudou o seu antecessor “pelo seu gesto nobre (a renúncia) que muito contribui para o reforço da dignidade do nosso Partido e a coesão entre os nossos membros (…) colocando os mais altos interesses do Partido e da Nação acima de quaisquer outros”.

Nyusi realçou também que “a forma unânime como a nossa eleição a Presidente do Partido decorreu, reflecte a coesão e unidade entre os membros do Comité Central”.

Apontou algumas linhas de direção que deverão orientar a Frelimo nos próximos tempos: “…continuemos empenhados no fortalecimento do papel da Frelimo na edificação de uma sociedade de justiça social, de inclusão, tolerância e harmonia. Assim, os esforços do nosso Partido devem continuar direccionados à busca da paz efectiva e duradoira”.

Olhando para este partido nos últimos dez anos, podemos atrever a dizer que ele havia sido construído à imagem e semelhança do seu líder. Desde que foi eleito secretário-geral da Frelimo e seu candidato para as eleições presidenciais de 2004, Guebuza percorreu o país de lés-a-lés, organizando as bases de uma organização, antes meio dessincronizada, cujos resultados no pleito anterior, haviam sido modestos.

 Os Congressos da Frelimo, primeiro em Quelimane e depois, em Muchare, Cabo Delgado, foram, do ponto de vista pessoal, vitórias para Aramndo Guebuza. Do ponto de vista profissional carregaram-lhe para os ombros uma responsabilidade enorme. Mesmo enormíssima.

Algumas figuras históricas da organização criticavam a forma de ser e de estar do líder em praça pública, alegando não o puderem fazer em sede própria, porque o partido se havia fechado e era alérgico à crítica interna.

Afirmavam não haver espaço para um jogo de influências recíprocas, em termos ideológicos. Havia a convicção de que os objectivos, para serem firmes e sustentados, só se conseguiam em clima de tensão dialéctica entre todos os membros do partido, o que não era permitido.

No fim do Congresso de Quelimane, escrevemos aqui e passamos a citar “um dos maiores perigos que enfrenta um partido do tipo Frelimo, partido que não tem opositor com credenciais para dirigir o poder nos próximos anos, é transformar-se num bloco monolítico, geri-lo como propriedade sua e, nesta linha de actuação, favorecer o clientelismo e o nepotismo, tentando abafar, mais ou menos subtilmente, as iniciativas criadoras vindas da base e, também, as de diferentes sensibilidades”.

 E alertamos que era necessário dar mostras de se estar arregadamente convencido de que a democracia não é uma conclusão, mas um processo, que não é meta de chegada, mas de partida, que as metas mais não são que novas rampas de lançamento.

Referimos também nessa altura que Guebuza tinha assumido uma enorme responsabilidade. “É que a Frelimo colocou-lhe nas mãos o poder para o gerir, indicando-lhe que não são admissíveis falhas grosseiras e que será alvo dos maiores aplausos, mas também de críticas constantes. Urge, também, erradicar do partido e da governação todos aqueles que têm tentação para exercer o poder com se fosse deles próprios, que olham mais para o umbigo que para o Sol. Nós cá estaremos para criticar, louvar quando for caso disso e também para apoiar as grandes e pequenas iniciativas em prol do comum”.

Pensamos que este nosso raciocínio enunciado nessa altura continua válido hoje para este cinquentenário partido que cada vez dá mostras de saber resolver de forma superior os seus problemas, sem quaisquer convulsões internas, colocando sempre os supremos interesses da Nação acima dos interesses individuais e de grupo.

Não restam dúvidas que Guebuza, como animal político, imprimiu outro dinamismo na máquina partidária que culminou com a sua eleição em 2004 e com uma vitória esmagadora em 2009. Por isso, não se poder empurrar para as suas mãos e para a sua cabeça todos os erros cometidos pelo partido nos últimos anos. É que de alguma forma a maioria absoluta obtida em 2009, embriagou muitos camaradas, e foi tomada por alguns como poder absoluto e na falta de uma oposição credível, os excessos eram incontornáveis.

Somos daqueles que pensam que a falta de uma oposição com categoria, inteligente e trabalhadora, é, de facto, um mal para a nossa democracia. O povo, na altura da eleição do poder, não tem por onde escolher. Dá o encargo à Frelimo e esta não pode dizer que não vai governar.

Mais ainda: tudo deve fazer, dentro dos limites constitucionais, para manter e desenvolver a confiança do povo, enquanto os outros vão dormindo preguiçosamente à espera que os votantes os vão acordar. O poder conquista-se. Não se dá. O povo não o serve de bandeja.

 Mas as maiorias absolutas em democracia não significam predominância do poder absoluto. Estas maiorias têm mecanismos de controle institucionalizados. O que é preciso é pô-los a funcionar, com trabalho, sem medo, congregando esforços. Dormir à sombra da bananeira é que não. Só que há por aí muita bananeira e multidão de dorminhocos!

A nova liderança já referiu alto e a bom som que “as boas ideias não têm cor partidária. As boas ideias têm uma única medida, que é o amor pela nossa pátria e pelo nosso destino comum”.

Esperemos que estas premissas sejam também válidas nesta altura para o cinquentenário partido que dirige a Nação há 40 anos. Não se pode dar o luxo de deixar ou criar fendas. Pelo contrário, necessita de ultrapassar mágoas e sarar feridas, reforçando a sua coesão interna.

Como dizia o sábio, não nos esqueçamos que somos apenas homens e os homens são mortais.

 

 

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