Editorial

Dhlakama e Renamo sabem que perderam as eleições

Há gente ligada ou não à Renamo que ainda quer atirar areia aos olhos do povo com a ladainha da fraude, que sempre é repetida até à exaustão depois de cada processo eleitoral no país.

Agora inventaram a história de que os editais estão desaparecidos e que ninguém dos órgãos eleitorais sabe onde param. Já aqui o dissemos e voltamos a repeti-lo.

A Renamo sabe que não ganhou eleições nenhumas, aliás, desde 1994 que as perde. Afirmamos isso desta vez porque a Renamo esteve representada nas mesas de votação e os seus representantes acompanharam as contagens que foram sendo feitas logo depois do fecho das urnas. A Renamo acompanhou o apuramento distrital, pois tem os seus representantes a este nível e sabe quais são os resultados ali apurados. E a Renamo acompanhou o apuramento provincial e lá também tem os seus representantes. E finalmente, a Renamo esteve no apuramento nacional, pois lá também tem os seus representantes.

Portanto, a Renamo sabe que perdeu as eleições e perdeu-as bem, mesmo com as cenas triste de vandalização das mesas e material de votação que protagonizou em Angónia e Tsangano e dos episódios tristes de Angoche e Nacala.

Eles sabem que as perderam e também sabem porquê é que as perderam. Ou melhor porquê é que as têm perdido sempre. Todo o resto, como dizia o antigo Presidente da República, Joaquim Chissano, em relação às reivindicações da “perdiz”, é uma grande farsa.

Senão vejamos: na Renamo nunca apareceu uma cara de alguém a dizer que “eu estive na mesa X e vi ali a encherem urnas ou estive lá e aconteceu isto”. Tudo o que se diz são generalizações sem evidências de espécie alguma. Não se apresenta prova nenhuma, enveredando apenas pela falácia para o boi dormir. Se calhar estão seguindo o ditado que diz que “uma mentira várias vezes repetida acaba por se transformar em verdade aos ouvidos dos incautos”. Mas, neste caso, não parece que vá dar certo, porque o povo sabe em quem votou.

Como dizia Chissano, a Renamo insiste na retórica da fraude como forma de forçar o Governo a ceder naquilo que em eleições democráticas a “perdiz” não consegue fazer: vencê-las e formar governo. Na prática, eles querem entrar para o Governo pela porta do cavalo, sabendo que não venceram eleições nenhumas e nem acreditando no que eles próprios dizem. Recorrem a este teatro todo do discurso da fraude, para ver se tem simpatias com a sua causa e ganhar alguma audiência.

Aliás, antes das eleições, eles próprios declararam que desta vez seria impossível o Governo roubar-lhes os votos ou haver fraude porque estavam “bem organizados” e tinham gente da confiança em todos os níveis de gestão do processo eleitoral. Conseguiram fazer parte da Comissão Nacional de Eleições (CNE) e até conseguiram fazer parte do próprio STAE, partidarizando um órgão técnico de administração das eleições, que é um órgão do Estado. 

Como diz Chissano “eles estiveram em número suficiente nos órgãos eleitorais e eles próprios ficaram satisfeitos com isso que acabaram declarando que iam ganhar as eleições, porque essas condições todas que eles exigiram estavam criadas”.

Então o que é que mudou de lá para cá? Nada! Eles continuam a ter a sua gente que acompanhou o processo todo e que sabe o que de facto aconteceu: a Frelimo e o seu candidato, Filipe Jacinto Nyusi, ganharam as eleições. Por isso a Renamo ensaia este teatrozinho sobre fraude, sumiço dos editais e outros ditos enganadores.

E este teatro todo tem o seu actor-mor: Afonso Dlhakama, que em tempos, até nós nos quisemos convencer que estava a dar sinais de se querer transformar num verdadeiro estadista: reflectido, ponderado, com contenção de linguagem, dando mostras de se preocupar com o estudo de alguns dossiers.

Pensávamos também que estava a mudar para ser um verdadeiro estadista que era capaz de desenhar programas bem planeados, era capaz de dirigir uma equipa, em equipa, com a finalidade de criar condições adequadas ao desenvolvimento do povo moçambicano, por etapas e com objectivos bem definidos, mobilizando-o para as grandes tarefas nacionais, a começar pelas mais urgentes, como é o caso da erradicação da pobreza, da educação, de uma convivência sã e fecunda na multiculturalidade que nos caracteriza e no respeito pela liberdade, que exige tolerância constante.

Pensávamos também que ele estava a forjar uma Renamo capaz de criticar o poder com verdade, profundidade e empenho, sem demagogias nem falsos populismos, demonstrando a possibilidade de novos caminhos; de denunciar atropelos e corrupções e provar que os vai evitar, começando por dar o exemplo. Pensávamos que a “perdiz” estava a se afirmar pela tolerância e vontade de convívio saudável; batendo-se intransigentemente por um estado de direito, apresentando sinais evidentes de que vai implementar as regras da democracia universalmente aceites, uma das quais e base de todas as outras é aceitar os resultados eleitorais, sejam eles quais forem.

Pensávamos que a Renamo se bateria pela transferência do sufrágio, o que é perfeitamente possível, sem enveredar pela arruaça de rua, pondo em movimento toda a sua máquina de vigilância em todos os lugares onde há mesas de voto (como o fez agora); Pensávamos que deixaria de pronunciar ameaças, como agora está fazendo o seu próprio líder, que sugere, mais ou menos abertamente, que poderá recorrer às armas, porque o pleito eleitoral lhe foi desfavorável; Pensávamos, finalmente, que Afonso Dhlakama e a Renamo estariam dispostos a cumprimentar os seus adversários políticos ganhadores.

 

Acontece, porém, que agora e como sempre Afonso Dhlakama se deixou arrebatar facilmente por emoções incontidas ao serviço da sua sofreguidão pelo poder. A ponderação vem sendo, nele, sol de pouca dura. Propalou antes das eleições que agora era o momento de viragem e alguém lhe deu crédito de que isso era possível. Não o conseguiu, agora pensa na arruaça.

 

A Renamo e Dhlakama sabem que perderam as eleições e também sabem porquê é que as perderam. Ou melhor porquê é que as têm perdido sempre. As razões são simples e bem claras e aqui sempre as enunciámos: opaís não conhece o programa de governação de Dhlakama e da Renamo. Não sabe o que pensa Afonso Dhlakma, nem a Renamo, sobre os grandes problemas nacionais e qual a solução que apresenta para cada um deles. Que soluções para sairmos da pobreza absoluta? Que soluções para a Justiça, pedra basilar de toda a convivência democrática e da tranquilidade dos cidadãos? Que soluções para o ensino? Que pensa da liberdade de expressão e de informação? Para onde vai levar a economia? As relações com o empresariado? Como vai encarar o sindicalismo? Que pensa da produtividade, da banca, da necessidade dos investimentos e respectivas fontes, da agricultura, base dos sustento nacional, do papel do capital estrangeiro para o desenvolvimento de Moçambique? Que programa para combater a corrupção? Qual o seu pensamento em política externa?

Em vez de programas e apresentação de soluções por objectivos, Afonso Dhlakama, ensimesmado no seu eu, com evidentes sintomas de paranóia, apenas e, por enquanto, nos diz, afirmando, reafirmando e sublinhando: a solução para os problemas do país sou eu.”O Estado sou eu”, dizia Luís XIV, em França, noutros tempos e não se saiu bem.

Com supremo desprezo pelos resultados eleitorais, não se cansa de afirmar que, não ganhou as eleições, porque houve fraude. E troveja ameaças. Insinua que ocupará o poder pela força, o que não tranquiliza ninguém. O povo só não entra em pânico, porque parece que o não leva a sério. O que é mau para ele, para a Renamo e sobretudo para o país.

Daqui lançamos um apelo ao líder da Renamo: o povo só tem a ganhar com um seu comportamento sério, credível, responsável, fazendo oposição bem arreigada nos supremos interesses de Moçambique Democrático, mostrando-se disposto a seguir as regras do sufrágio eleitoral. Primeira das quais é felicitar abertamente os vencedores das eleições e declarar-lhes disposição para colaborar com eles, Esquecendo os “cozinhados” sobre o propalado governo de gestão.

 

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